Cannabis no Câncer: O que a ciência já sabe (e o que ainda não)

Cannabis no Câncer: O que a ciência já sabe (e o que ainda não)

O que a ciência já sabe (e o que ainda não) sobre cannabis no tratamento do câncer. Indicações reais, riscos e orientações seguras.

O número de pacientes com câncer que fazem uso de cannabis está crescendo e, na maioria das vezes, sem qualquer orientação médica. A substância tem sido buscada para aliviar sintomas como dor, náusea, insônia e ansiedade, em especial nos momentos mais difíceis do tratamento. Mas afinal: o que a ciência realmente sabe sobre isso? Onde termina o potencial terapêutico e onde começam os riscos e as incertezas?

O uso de cannabis na oncologia ainda gera mais perguntas do que respostas. E essas dúvidas chegaram com força ao maior congresso de câncer do mundo. Na ASCO 2025 (American Society of Clinical Oncology), uma sessão específica intitulada “What About Cannabis?”  foi inteiramente dedicada ao tema, reunindo especialistas em oncologia, cuidados paliativos, farmacologia e psicooncologia. A principal conclusão dessa discussão foi clara: o uso de cannabis por pacientes com câncer é mais frequente do que muitos imaginam, e boa parte desses pacientes recorre à substância sem qualquer orientação clínica.

Estudos recentes mostram que entre 20% a 45% dos pacientes oncológicos fazem uso de cannabis em algum momento do tratamento1. Este dado foi reforçado durante a sessão da ASCO. Muitos desses pacientes iniciam o uso por conta própria, sem qualquer orientação de seus médicos assistentes. Este cenário escancara uma lacuna entre a prática real e a medicina baseada em evidências, e destaca a necessidade de discussões abertas, empáticas e cientificamente embasadas.

Onde Está a Evidência?

Entre todas as indicações avaliadas na oncologia, a que reúne maior consenso entre especialistas para o uso de cannabis é o controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia. Ainda assim, trata-se de um benefício restrito a um grupo bem específico de pacientes: aqueles que apresentam sintomas persistentes mesmo após o uso de esquemas antieméticos convencionais e otimizados, conforme as diretrizes atuais.

Esse cenário refratário foi justamente o foco do estudo conduzido por Grimison et al que avaliou a eficácia de uma combinação oral de THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol) como agente complementar, administrado em cápsulas, para prevenção secundária de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia2.

O desfecho primário foi taxa de controle completo dos sintomas, sem vômitos, sem náuseas significativas e sem necessidade de medicamentos de resgate. O resultado: 24% dos pacientes que receberam o canabinoide alcançaram esse controle completo, em comparação com apenas 8% no grupo placebo. Essa diferença, estatisticamente significativa, representa o dado mais robusto até o momento sobre benefício clínico da cannabis em oncologia2.

É importante, no entanto, reforçar que esses achados não autorizam generalizações. O benefício foi observado em um contexto muito específico, com acompanhamento médico, formulação padronizada, dosagem controlada e uso adjunto a terapias antieméticas bem estabelecidas.

Mas e quanto ao potencial da cannabis além do controle de sintomas, existe algum papel no tratamento do câncer em si?

A cannabis combate o câncer? O que a ciência diz

Apesar da disseminação de informações em redes sociais e canais alternativos, não há, até o momento, qualquer evidência clínica robusta de que cannabis tenha efeito antitumoral em humanos. Boa parte da origem dessas informações decorre de estudos pré-clínicos, realizados em culturas celulares e modelos animais, que demonstram efeitos biológicos promissores de certos canabinoide: como inibição da proliferação celular, indução de morte programada das células (apoptose) redução da formação de vasos sanguíneos tumorais (angiogênese) e interferência na migração celular3. Apesar de interessantes, esses resultados não podem ser automaticamente extrapolados para humanos, uma vez que o ambiente tumoral no corpo humano é extremamente complexo e multifatorial. Até o momento, nenhum estudo clínico robusto demonstrou benefício direto da cannabis como agente antineoplásico.

Ao mesmo tempo, também não existem evidências importantes de interferências negativas no tratamento, sobretudo em pacientes que utilizam imunoterápicos, em especial inibidores de checkpoint. O estudo DiRECT (Yao et al., 2025) acompanhou 1.666 pacientes oncológicos em diversas instituições e avaliou desfechos como sobrevida global (OS) e sobrevida livre de progressão (PFS) entre usuários e não usuários de cannabis. O resultado: não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, sugerindo que, ao menos nesse recorte, o uso de cannabis não comprometeu a eficácia clínica da imunoterapia4.

Apesar disso, a própria ASCO reforça que os dados disponíveis ainda são iniciais e não definitivos. A orientação atual é clara: o uso de cannabis deve ser avaliado caso a caso, com cautela, diálogo aberto e documentação cuidadosa da decisão clínica. Além disso, é fundamental que o paciente seja informado de que a ausência de prejuízo observado em um estudo não equivale à comprovação de segurança universal, especialmente em contextos não supervisionados ou com formulações não padronizadas.

Cannabis ajuda na dor do câncer? Evidências e limites

O uso de cannabis para dor oncológica tem se tornado cada vez mais comum, especialmente em cenários de dor refratária, quando opioides e adjuvantes convencionais não são suficientes ou bem tolerados. No entanto, a evidência disponível para esse uso permanece limitada e de qualidade variável. Os estudos clínicos existentes apresentam importantes heterogeneidades metodológicas com variações na formulação, dose, via de administração e tipos de dor, situações essas que dificultam conclusões clínicas sólidas.

Entre os estudos com melhor desenho, destaca-se a avaliação do spray sublingual de nabiximols (THC:CBD 1:1), utilizado como adjuvante em pacientes com câncer avançado em uso de opioides. Apesar de alguns subgrupos terem demonstrado melhora moderada na dor, os resultados gerais foram inconclusivos, e a droga não foi incorporada como terapia padrão nas diretrizes internacionais5.

Em contrapartida, os dados mais consistentes para uso de canabinoides na dor vêm de estudos em populações não oncológicas, particularmente em casos de dor neuropática crônica. Meta-análises demonstram que canabinoides podem reduzir a intensidade da dor em até 30% dos pacientes com esclerose múltipla, lesão medular, neuropatia diabética ou neuralgia pós-herpética, quando comparados ao placebo6-7.

Outros sintomas frequentemente mencionados por pacientes como insônia, ansiedade e perda de apetite também têm sido alvo de tentativas terapêuticas com cannabis. No entanto, a literatura disponível é ainda mais escassa e heterogênea, com estudos pequenos, não controlados ou com desfechos subjetivos. O uso de THC, por exemplo, tem sido associado a melhoras transitórias no sono e no apetite em alguns casos, mas também a aumento de sonolência, confusão e piora da atenção em pacientes frágeis. Para ansiedade, o CBD isolado é promissor em outros contextos, mas não há estudos de qualidade suficiente em pacientes oncológicos8-9.

Efeitos colaterais e perigos da cannabis no câncer

Apesar da crescente busca por alternativas terapêuticas naturais, é fundamental reconhecer que a cannabis, mesmo em formulações medicinais, não é isenta de riscos. Efeitos adversos são relativamente comuns.

Entre os eventos mais frequentemente relatados estão sonolência, tontura, confusão mental, distúrbios do movimento e risco aumentado de quedas, efeitos que se acentuam com a idade, uso de medicações e presença de outras doenças. Em idosos, esses efeitos podem ser ainda mais importantes10. Outro ponto importante é que o uso de produtos a base de CBD pode levar a alterações no funcionamento do fígado, sobretudo quando em doses elevadas ou em pessoas que têm alguma condição hepática. Por isso, o acompanhamento médico regular é fundamental, sobretudo em tratamentos prolongados ou com doses elevadas11.

Além disso, a cannabis pode interagir com diversos medicamentos, alterando sua eficácia ou aumentando o risco de efeitos colaterais. Isso inclui remédios usados para dor, ansiedade, convulsões, imunidade e controle de coagulação, todos bastante comuns na rotina de pacientes com câncer. Essas interações nem sempre são previsíveis e, por vezes, podem trazer consequências relevantes.

Diante de tantas variáveis, torna-se essencial que o uso de cannabis em pacientes com câncer seja acompanhado por profissionais de saúde capacitados e sempre com avaliação individualizada de risco-benefício. A monitorização contínua, tanto clínica quanto laboratorial, deve ser parte do plano terapêutico, com reavaliações periódicas, ajustes de dose e atenção a efeitos adversos cumulativos.

Na prática clínica, isso significa ir além da prescrição. Envolve revisar a lista de medicamentos em uso, investigar condições hepáticas ou neurológicas prévias, alinhar expectativas terapêuticas com o paciente e definir um plano de monitoramento, que pode incluir retorno clínico periódico e, quando necessário, exames laboratoriais. Também implica orientar sobre a forma correta de uso, as diferenças entre formulações e os sinais de alerta que justificam a suspensão imediata do produto.

Conclusão

Cannabis não é solução milagrosa nem vilã terapêutica. Pode ajudar alguns pacientes, ser ineficaz para outros e, em certos casos, causar efeitos adversos relevantes. Como qualquer intervenção, seus resultados dependem do contexto clínico, da dose, da formulação e das características individuais de quem a utiliza.

Hoje, a principal evidência válida se restringe ao controle de náuseas refratárias induzidas por quimioterapia. Fora desse cenário, os dados ainda são limitados ou inconclusivos. Mesmo assim, o uso cresce, muitas vezes sem orientação médica.

A inclusão de uma sessão dedicada ao tema na ASCO 2025 mostra que o debate ganhou legitimidade. Discutir cannabis em um congresso desse porte reforça que a ciência deve liderar a conversa, e não o modismo ou o tabu.

Nesse cenário, o papel do profissional de saúde é ouvir sem preconceito, orientar com base em evidência e tomar decisões compartilhadas. É avaliar riscos e benefícios com clareza, respeitando o desejo de alívio, mas sem abrir mão da segurança.

Se você é paciente ou profissional e quer entender mais sobre cannabis na oncologia, busque fontes seguras e discuta com sua equipe. A melhor escolha sempre nasce da boa informação e do cuidado compartilhado.

Referencias:

1 – Braun IM, Subbiah IM, Roeland E, Blansky S. What About Cannabis? Incorporating Evidence to Facilitate Informed Discussions With Patients and Caregivers. Apresentado no: ASCO Annual Meeting 2025.

2 – Grimison P, Mersiades A, Kirby A, Tognela A, Olver I, Morton RL, Haber P, Walsh A, Lee Y, Abdi E, Della-Fiorentina S, Aghmesheh M, Fox P, Briscoe K, Sanmugarajah J, Marx G, Kichenadasse G, Wheeler H, Chan M, Shannon J, Gedye C, Begbie S, Simes RJ, Stockler MR. Oral Cannabis Extract for Secondary Prevention of Chemotherapy-Induced Nausea and Vomiting: Final Results of a Randomized, Placebo-Controlled, Phase II/III Trial. J Clin Oncol. 2024 Dec;42(34):4040-4050.

3- Velasco G, Hernandez-Tiedra S, Dávila D, Lorente M. The use of cannabinoids as anticancer agentes. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry. 2016; 64:259-266.

4 – Yao S, et al. The Impact of Cannabis Use on Patient Outcomes Post Immune Checkpoint Inhibitor Therapy: The DiRECT Cohort. Poster #12081. ASCO Annual Meeting 2025

  1. Lichtman AH, Lux EA, McQuade R, Rossetti S, Sanchez R, Sun W, Wright S, Kornyeyeva E, Fallon MT. Results of a Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Study of Nabiximols Oromucosal Spray as an Adjunctive Therapy in Advanced Cancer Patients with Chronic Uncontrolled Pain. J Pain Symptom Manage. 2018 Feb;55(2):179-188

6 – Mücke M, Phillips T, Radbruch L, Petzke F, Häuser W. Cannabis-based medicines for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018 Mar 7;3(3):CD012182.

7 – Sainsbury B, Bloxham J, Pour MH, Padilla M, Enciso R. Efficacy of cannabis-based medications compared to placebo for the treatment of chronic neuropathic pain: a systematic review with meta-analysis. J Dent Anesth Pain Med. 2021 Dec;21(6):479-506.

8 – AminiLari M, Wang L, Neumark S, Adli T, Couban RJ, Giangregorio A, Carney CE, Busse JW. Medical cannabis and cannabinoids for impaired sleep: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Sleep. 2022 Feb 14;45(2):zsab234

9 – Whiting PF, Wolff RF, Deshpande S, Di Nisio M, Duffy S, Hernandez AV, Keurentjes JC, Lang S, Misso K, Ryder S, Schmidlkofer S, Westwood M, Kleijnen J. Cannabinoids for Medical Use: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA. 2015 Jun 23-30;313(24):2456-73

10- Pratt M, Stevens A, Thuku M, Butler C, Skidmore B, Wieland LS, Clemons M, Kanji S, Hutton B. Benefits and harms of medical cannabis: a scoping review of systematic reviews. Syst Rev. 2019 Dec 10;8(1):320. 

11 – Lo LA, Christiansen A, Eadie L, Strickland JC, Kim DD, Boivin M, Barr AM, MacCallum CA. Cannabidiol-associated hepatotoxicity: A systematic review and meta-analysis. J Intern Med. 2023 Jun;293(6):724-752