Câncer de mama não é tudo igual: entenda os subtipos e o que muda no tratamento

Câncer de mama não é tudo igual: entenda os subtipos e o que muda no tratamento

Conheça os principais subtipos do câncer de mama e como a biologia do tumor influencia o comportamento e as decisões terapêuticas em 2025

Por que o câncer de mama não é tudo igual: entenda as diferenças biológicas

Durante muito tempo, o câncer de mama foi visto como uma única doença. Hoje sabemos que ele tem múltiplas faces e que cada uma exige uma forma específica de cuidar.

Dois tumores com o mesmo tamanho e estágio podem ter comportamentos completamente diferentes: um evolui lentamente, responde bem à hormonioterapia e quase nunca volta; o outro é agressivo, cresce rápido e precisa de tratamento mais intenso.

Esse entendimento mudou a história da oncologia. A medicina passou a olhar além do tamanho do tumor, sobretudo para a biologia, aquilo que está dentro das células e define como elas se comportam. É essa revolução que permite, em 2025, tratar de forma personalizada, oferecendo o tratamento certo para cada tipo de câncer de mama.

Como identificar os subtipos do câncer de mama

Cada tumor carrega um conjunto único de características biológicas que orientam seu comportamento e sua resposta aos medicamentos. Essas características são avaliadas no laudo anatomopatológico, emitido após a biópsia ou a cirurgia, e envolvem os famosos marcadores do câncer de mama. Os principais são:

  • Receptores hormonais (estrogênio e progesterona): indicam se o crescimento do tumor é estimulado pelos hormônios femininos.
  • HER2 (Human Epidermal Growth Factor Receptor 2): proteína associada à proliferação celular, que pode estar aumentada em alguns tumores.
  • Ki-67: marcador de proliferação celular que mostra a velocidade com que as células cancerosas se multiplicam.

Essas análises são realizadas por um exame chamado imuno-histoquímica (IHC). Quando necessário, exames complementares como hibridização in situ (FISH ou CISH) confirmam a presença ou ausência de amplificação do HER2.

Com base nesses parâmetros, o câncer de mama é classificado em subtipos moleculares, que ajudam a prever o comportamento clínico e orientar a conduta terapêutica mais adequada.

Os quatro subtipos principais do câncer de mama

A classificação molecular divide os tumores de mama em grupos biológicos principais. Embora cada caso seja único, essa divisão permite compreender o perfil predominante de comportamento tumoral.

Luminal A (receptores hormonais positivos, baixo Ki-67)

O luminal A é o subtipo mais frequente. Apresenta receptores hormonais positivos e baixo índice de proliferação celular. Embora existam algumas controvérsias, geralmente utiliza-se o ponto de corte de 13% do Ki-67.

Geralmente tem crescimento mais lento e bom prognóstico, respondendo bem à hormonioterapia, que bloqueia o estímulo dos hormônios femininos sobre as células tumorais.

Apesar do perfil favorável, luminal A não significa ausência de risco. Podem ocorrer recidivas tardias, anos após o tratamento inicial, reforçando a importância da adesão prolongada à hormonioterapia e do seguimento clínico regular.

Luminal B (receptores hormonais positivos, Ki-67 elevado)

O luminal B compartilha a positividade hormonal com o luminal A, mas apresenta Ki-67 mais alto (>13%). Essas características indicam tumor biologicamente mais ativo e de maior agressividade.

Esse subtipo reforça um conceito central: a biologia tumoral é um contínuo. Não existe linha rígida entre “bom” e “ruim”, mas uma escala de comportamento biológico. É um subtipo que também responde à hormonioterapia.

HER2 positivo (superexpressão ou amplificação do HER2)

O subtipo HER2 positivo representa cerca de 15 a 20% dos casos de câncer de mama. Esses tumores exibem superexpressão da proteína HER2 (IHC 3+) ou amplificação do gene confirmada por FISH/CISH.

Historicamente associado a pior prognóstico, o HER2 positivo se tornou um dos subtipos com melhores respostas terapêuticas, graças ao desenvolvimento de terapias-alvo contra o HER2. Nos últimos anos, a melhor compreensão sobre o espectro de HER2 se ampliou, criando novas categorias:

  • HER2 hiperexpresso: expressão intensa (IHC 3+ ou amplificação confirmada). É o grupo clássico que se beneficia amplamente de terapias anti-HER2.
  • HER2-low: expressão discreta (IHC 1+ ou 2+ sem amplificação). Esse grupo, antes classificado como “negativo”, passou a ser relevante com o surgimento dos anticorpos conjugados a drogas (ADCs), como o trastuzumabe-deruxtecana, que permitem tratamento direcionado mesmo com expressão baixa.
  • HER2 ultra-low: expressão mínima (<10% das células com coloração fraca). Ainda em estudo, esse perfil pode ampliar as indicações de terapias-alvo no futuro.

O HER2 não é mais um marcador binário (positivo/negativo). É um contínuo biológico que exige interpretação integrada do laudo para decisões de tratamento cada vez mais precisas. Importante frisar que os tumores HER2 podem expressar receptores hormonais, sendo esses também responsivos a terapias direcionadas ao bloqueio hormonal.

Triplo negativo (receptores hormonais e HER2 ausentes)

O subtipo triplo negativo é aquele sem expressão de receptores hormonais nem amplificação de HER2. Corresponde a 10 a 15% dos casos, tende a crescer mais rapidamente e apresenta maior instabilidade genômica.

Apesar da agressividade, o cenário mudou com o avanço da imunoterapia. O que antes era o subtipo com menos opções é hoje um dos que mais avança em pesquisa e inovação terapêutica.

Ki-67: o marcador que ajuda a entender o comportamento do câncer de mama

O marcador Ki-67 é um indicador da taxa de multiplicação celular. Ele não classifica o subtipo sozinho, mas ajuda a refinar a interpretação entre perfis de crescimento lento e rápido.

  • Baixo: <14%, crescimento lento.
  • Intermediário: 14 a 20%, depende do contexto clínico e do método laboratorial.
  • Alto: >20 a 25%, crescimento acelerado e maior risco de recidiva.

Por que entender o subtipo é essencial

O subtipo molecular é a “identidade” do tumor. Ele orienta não apenas as terapias, mas também o prognóstico, a frequência de acompanhamento e as decisões futuras.

Saber o subtipo é fundamental tanto na doença inicial quanto na metastática. Ele traduz a biologia da doença e ajuda a equilibrar expectativa e realidade em cada etapa do cuidado.

Por isso, o laudo anatomopatológico, complementado pelo estudo da imuno-histoquímica, é peça central, traduzindo a biologia em linguagem médica. Deve ser lido com atenção e discutido entre equipe e paciente.

A medicina de precisão e o futuro do tratamento do câncer de mama

A medicina de precisão trouxe à prática o conceito de tratar o que o tumor é, não apenas onde ele está. No câncer de mama, isso significa entender que o comportamento celular e molecular define mais do que o local anatômico.

Hoje, testes genômicos, mapeamento de mutações e caracterização de proteínas como os subníveis de HER2 são o centro das decisões oncológicas. Eles permitem prever resposta ao tratamento, estimar riscos e personalizar a terapia.

Essa mudança é mais do que tecnológica. Reconhece que cada tumor é uma combinação única de genética, microambiente e biologia celular, e que o cuidado deve refletir essa singularidade.

A importância do diálogo entre paciente e equipe

Para o paciente, saber o subtipo do câncer é o primeiro passo para entender o plano terapêutico. Compreender se o tumor é luminal, HER2 positivo ou triplo negativo ajuda a contextualizar as escolhas médicas e reduz a ansiedade diante de termos técnicos.

Cabe à equipe multiprofissional traduzir o laudo, explicar o que cada marcador significa e reforçar que o tratamento é construído em parceria. Mais que decisões médicas, isso envolve alinhamento de expectativas e comunicação contínua.

O subtipo não define a pessoa, apenas auxilia a compreender melhor o comportamento do tumor. Por isso, deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico e dos objetivos individuais de cada paciente.

Cada câncer de mama tem sua identidade

A grande lição da oncologia moderna é que o câncer de mama não é uma única doença. A biologia molecular revelou múltiplas formas de expressão, cada uma com desafios e possibilidades próprias.

Em 2025, falar de subtipo é falar de individualidade, reconhecendo que cada tumor tem sua identidade, e que compreender essa identidade é o primeiro passo para cuidar com precisão. Quanto mais entendemos a biologia, mais conseguimos oferecer tratamentos eficazes, com propósito e humanidade.

Quando entendemos a biologia do tumor, tratamos com mais precisão e cuidamos com mais humanidade.

Compartilhe este conteúdo e ajude mais pessoas a entenderem que o câncer de mama não é tudo igual. Informação de qualidade salva vidas.

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Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  1. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology. Breast Cancer. Version 4.2025.
  2. Cardoso F, et al. ESMO Clinical Practice Guidelines: Early Breast Cancer. Ann Oncol. 2024;35(Suppl 2):ii14-ii27.
  3. Schettini F, et al. HER2-low breast cancer: biology and new therapeutic targets. Nat Rev Clin Oncol. 2024;21:265-281.
  4. Loibl S, et al. Pembrolizumab for early triple-negative breast cancer. N Engl J Med. 2022;386:810-821.
  5. Travaglini C, et al. Ki-67 assessment and its role in luminal breast cancer: ESMO consensus statement. Breast. 2023;68:52-60.

Se o laudo já trouxe o subtipo e as perguntas se multiplicaram, reuni as 52 que mais escuto no consultório num guia à parte.