Card do artigo sobre câncer de pâncreas e o novo remédio da ASCO 2026

Câncer de pâncreas: o que o novo remédio aplaudido na ASCO 2026 realmente significa

Em 31 de maio de 2026, milhares de oncologistas se levantaram para aplaudir, por quase um minuto, os resultados de um novo tratamento para o câncer de pâncreas. Cenas assim são raras em congressos médicos e, quando acontecem, a notícia chega rápido às famílias, muitas vezes acompanhada da palavra “cura”.

Como oncologista, quero fazer aqui o que faria no consultório: explicar, com calma e sem exagero, o que esse estudo mostrou, por que ele é importante de verdade e, igualmente importante, o que ele ainda não significa.

O que foi apresentado

O remédio, chamado daraxonrasib, é um comprimido de uso oral. Ele foi testado em um estudo de fase 3 (o RASolute 302) com cerca de 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático (espalhado) que já haviam feito uma quimioterapia. Metade recebeu o novo comprimido; a outra metade, a quimioterapia usada normalmente nessa fase. Os resultados foram publicados na New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo. Três achados se destacaram.

1. Os pacientes viveram mais. Esse é o dado principal.
O tempo de vida (o que os médicos chamam de sobrevida global) foi praticamente o dobro: uma mediana de 13,2 meses com o comprimido, contra 6,6 meses com a quimioterapia. “Mediana” é o ponto do meio: metade dos pacientes viveu menos que isso, metade viveu mais. É uma referência do grupo, não uma sentença para cada pessoa. Em termos de risco, isso equivaleu a uma redução de cerca de 60% no risco de morte ao longo do estudo.

2. A doença ficou mais tempo sob controle.
O tempo até o tumor voltar a crescer (uma outra medida, chamada sobrevida livre de progressão) também aumentou: 7,3 meses com o comprimido, contra 3,5 meses com a quimioterapia. São mais meses com a doença controlada, sem avançar.

3. Com menos efeitos colaterais graves.
O comprimido foi mais bem tolerado. O sinal mais claro disso: apenas cerca de 1 em cada 100 pacientes precisou interromper o tratamento por causa de efeitos colaterais, contra cerca de 11 em cada 100 no grupo da quimioterapia.

Para uma doença em que avanços são raros, viver praticamente o dobro do tempo (e com menos efeitos colaterais) é um resultado expressivo. Foi isso que emocionou a plateia.

Por que isso é importante

O câncer de pâncreas é um dos mais difíceis de tratar. Em aproximadamente 9 de cada 10 casos, o tumor carrega uma alteração em um gene chamado KRAS, uma espécie de “interruptor” que fica travado na posição ligado, ordenando que as células se multipliquem sem parar.

Por mais de 40 anos, esse interruptor foi considerado “impossível de bloquear” com medicamentos. O daraxonrasib pertence a uma nova geração de remédios que finalmente consegue agir sobre ele. É por isso que muitos especialistas falam em uma “nova era”: não apenas pelo resultado deste estudo, mas pelo caminho que ele abre para os próximos.

O que esses números NÃO significam

Aqui entra a parte que raramente aparece nas manchetes, e que considero a mais importante:

  • Não é cura. O ganho, embora real e valioso, é medido em meses. O câncer de pâncreas metastático continua sendo uma doença grave.
  • Foi estudado em uma situação específica: pacientes com a doença já espalhada, que já haviam sido tratados antes. Ainda não sabemos o efeito em fases mais iniciais, algo que está sendo pesquisado agora.
  • É um tratamento ainda experimental. Não foi aprovado por nenhuma agência reguladora (nem a americana FDA, nem a ANVISA no Brasil).

Nada disso diminui a importância do avanço. Mas transformar “quase dobrou a sobrevida” em “cura do câncer de pâncreas” cria uma esperança que o próprio estudo, honestamente, não sustenta, e ainda pode levar famílias a decisões precipitadas.

O daraxonrasib já está disponível no Brasil?

Ainda não. O remédio não foi aprovado pela ANVISA e não está à venda em nenhum país, incluindo o Brasil. Ele segue em fase de pesquisa, e fora dos estudos clínicos não há como obtê-lo hoje.

O que existe agora, com eficácia comprovada, para o câncer de pâncreas no Brasil são os tratamentos já estabelecidos, como os esquemas de quimioterapia FOLFIRINOX e gencitabina com nab-paclitaxel. A participação em estudos clínicos também pode ser uma opção em alguns centros. Converse com seu oncologista sobre seu caso específico e opções terapêuticas.

O que fazer com essa notícia

Se você ou alguém da sua família enfrenta esse diagnóstico, aqui vão algumas perguntas úteis para levar ao oncologista:

  • Quais são, hoje, as melhores opções de tratamento aprovadas para a minha situação específica?
  • Existe algum estudo clínico para o qual eu poderia ser candidato?
  • Quais são os objetivos realistas do meu tratamento neste momento, e como equilibrar eficácia, efeitos colaterais e qualidade de vida?

Informação de qualidade não substitui a avaliação médica, mas ajuda você a fazer as perguntas certas.

Perguntas frequentes

Câncer de pâncreas tem cura?
Depende muito do estágio. Quando é descoberto cedo e ainda localizado, a cirurgia (em geral combinada com quimioterapia) pode oferecer chance de cura. Na maioria dos casos, porém, ele é diagnosticado já em fase avançada, e aí o tratamento busca controlar a doença, prolongar a vida e preservar a qualidade dela. É por isso que o diagnóstico precoce faz tanta diferença.

O que é uma “terapia-alvo”, como o daraxonrasib?
É um medicamento desenhado para atacar uma característica específica do tumor, neste caso a via do gene RAS/KRAS, que faz as células cancerígenas se multiplicarem. Difere da quimioterapia tradicional, que age de forma mais ampla no corpo. É uma abordagem mais “dirigida” ao ponto fraco do tumor.


Acompanho de perto os avanços da oncologia justamente para traduzir notícias como essa em decisões concretas e realistas para cada paciente. Se você ou um familiar recebeu o diagnóstico de câncer de pâncreas e deseja uma avaliação individualizada, estou à disposição para uma consulta.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Wolpin BM, et al. Daraxonrasib or Chemotherapy in Previously Treated Metastatic Pancreatic Cancer. New England Journal of Medicine, 2026. Apresentado na sessão plenária da ASCO 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2605555.
  • ASCO. RASolute 302: resumo de pesquisa para pacientes, 2026.