Poucos cânceres têm uma causa tão bem definida quanto o câncer de colo do útero. Quase todos os casos, mais de 99%, são provocados por um vírus: o HPV, o papilomavírus humano. E isso muda tudo. Quando se conhece a causa de uma doença, é possível agir antes dela, com uma vacina que impede a infecção e com exames que encontram as alterações muito antes de elas virarem câncer. Por isso, o câncer de colo do útero é, ao mesmo tempo, um dos mais graves quando descoberto tarde e um dos mais evitáveis quando se age a tempo.
Um câncer causado por um vírus
O HPV é uma infecção muito comum, e vale dizer isso sem rodeios nem estigma: estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entrará em contato com o vírus em algum momento da vida. Na maior parte das vezes, o próprio corpo elimina a infecção sozinho, sem deixar qualquer sequela.
O problema aparece numa minoria de casos: quando a infecção por um tipo de HPV de alto risco persiste por muitos anos, ela pode transformar lentamente as células do colo do útero, primeiro em lesões pré-cancerosas e, só depois de bastante tempo, em câncer. Existem dezenas de tipos de HPV, mas dois deles, o 16 e o 18, respondem sozinhos por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero. Essa lentidão, uma doença que costuma levar anos para se formar, é justamente o que abre a janela para preveni-la.
Os números no Brasil
No Brasil, o câncer de colo do útero está entre os mais comuns nas mulheres. O INCA estima cerca de 17 mil novos casos por ano, e a doença já leva mais de 7 mil mulheres à morte anualmente. Nas regiões Norte e Nordeste, é o segundo câncer mais frequente entre as mulheres.
São números pesados para uma doença que, na maioria das vezes, poderia ser evitada. E é essa a contradição que vale encarar de frente: existem hoje ferramentas para quase eliminá-lo, e ainda assim ele adoece e mata milhares de brasileiras todos os anos, quase sempre por falta de acesso ou de informação.
A prevenção acontece em duas camadas
A grande particularidade do câncer de colo do útero é que se pode agir contra ele em dois momentos diferentes:
- Antes da infecção, com a vacina contra o HPV.
- Antes do câncer, com o exame de rastreamento, que encontra e permite tratar as lesões pré-cancerosas antes que elas evoluam.
Uma não substitui a outra. É a soma das duas que levou a Organização Mundial da Saúde a estabelecer uma meta ousada e realista: eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública.
A vacina contra o HPV: quem deve tomar
A vacina é a prevenção primária: ela impede a infecção pelos tipos de HPV mais perigosos, antes que ela aconteça. No SUS, a vacina oferecida é a quadrivalente, que protege contra os tipos 16 e 18 (os que mais causam câncer) e também contra o 6 e o 11 (responsáveis pela maioria das verrugas genitais).
Dois pontos mudaram recentemente e vale conhecer:
- Desde 2024, o esquema passou a ser de dose única (antes eram duas doses), com base em estudos que mostraram proteção equivalente.
- O público principal são meninas e meninos de 9 a 14 anos. Sim, meninos também: eles transmitem o vírus e adoecem de outros cânceres ligados ao HPV. No SUS, a dose única está disponível até os 19 anos, e grupos específicos (como pessoas imunocomprometidas ou vítimas de violência sexual) podem receber até os 45 anos, em esquema próprio.
A vacina é mais eficaz quando aplicada antes do início da vida sexual, ou seja, antes da exposição ao vírus. É por isso que a idade-alvo é a adolescência. Um ponto que gera confusão: tomar a vacina não dispensa fazer o rastreamento no futuro, porque ela não cobre todos os tipos de HPV capazes de causar câncer. Vacina e exame se completam. Se quiser se aprofundar, reuni tudo sobre a vacina contra o HPV, quem deve tomar, por que os meninos também e as dúvidas mais comuns, em um texto dedicado.
O exame de rastreamento mudou
Por décadas, o rastreamento foi feito com o Papanicolau (o exame preventivo, ou citologia), que procura alterações já presentes nas células do colo. Ele salvou milhões de vidas e continua válido. Mas o rastreamento está passando por uma mudança importante no Brasil.
Desde 2024, o SUS incorporou o teste de DNA-HPV e, em 2025, foram publicadas novas diretrizes nacionais. Em vez de procurar a alteração já formada na célula, esse teste procura o próprio vírus, o que o torna mais sensível e capaz de agir mais cedo. As mudanças principais:
- O público é de mulheres de 25 a 64 anos.
- Quando o teste de HPV vem negativo, o intervalo até o próximo pode ser estendido para cerca de 5 anos, justamente porque o exame é mais confiável.
- Se o teste detecta os tipos 16 ou 18, a mulher é encaminhada direto para uma avaliação mais detalhada (a colposcopia); se detecta outros tipos de alto risco, faz-se a análise das células na mesma amostra.
Na prática, é um rastreamento mais eficiente. Enquanto essa transição acontece pelo país, o Papanicolau segue sendo um exame válido e importante. O essencial é o mesmo de sempre: não deixar de fazer o rastreamento na periodicidade que o seu médico indicar.
Os sinais de alerta
Como quase todo câncer, o de colo do útero costuma ser silencioso no início, e é por isso que o rastreamento, feito quando ainda não há sintoma nenhum, importa tanto. Quando os sinais aparecem, a doença com frequência já avançou. Merecem avaliação, sem pânico e sem adiar:
- Sangramento fora do período menstrual, após a relação sexual ou depois da menopausa.
- Corrimento vaginal persistente ou com odor incomum.
- Dor pélvica ou dor durante a relação.
Nenhum desses sintomas significa, sozinho, câncer, e a maioria tem causas benignas. Mas sangramento após a relação ou fora de época não deve ser ignorado, em qualquer idade. Investigar cedo é o que muda o desfecho.
Um câncer que dá para vencer
Poucas vezes a medicina consegue dizer, com honestidade, que um câncer pode ser quase eliminado. No colo do útero, isso é real: uma vacina na adolescência e um exame de rastreamento na vida adulta, somados, cobrem as duas pontas da doença. É a mesma lógica de prevenção que vale para outras frentes da saúde da mulher, como o rastreamento do câncer de mama.
O câncer de colo do útero ainda tira a vida de milhares de brasileiras por ano. Quase sempre, o que falta não é remédio nem tecnologia, é chegar a tempo. E chegar a tempo, aqui, começa cedo: com a vacina e com o exame em dia.
Se você tem dúvidas sobre o rastreamento do câncer de colo do útero, ou sobre algum sintoma que vem preocupando, estou à disposição para uma avaliação.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023-2025: Incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2022.
- Ministério da Saúde / Conitec. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (rastreamento com teste de DNA-HPV), 2025.
- Ministério da Saúde / Programa Nacional de Imunizações (PNI). Esquema de dose única da vacina HPV quadrivalente, 2024.
- International Agency for Research on Cancer (IARC/OMS). Human papillomavirus and cervical cancer (HPV presente em mais de 99% dos casos; tipos 16 e 18 respondem por cerca de 70%).