Existe uma vacina que previne câncer. Não é uma promessa para o futuro, é realidade, e ela está disponível de graça no Brasil. A vacina contra o HPV impede a infecção pelos vírus que causam a maior parte dos cânceres de colo do útero e vários outros tumores. E hoje já temos a prova de que isso funciona: em programas de vacinação de longa data, o câncer que ela previne praticamente desapareceu entre as pessoas vacinadas na idade certa.
Mesmo assim, muita gente ainda tem dúvidas sobre quem deve tomar, até que idade vale, e por que meninos também precisam se vacinar. Vale esclarecer, porque poucas decisões de saúde oferecem um retorno tão grande.
O que é o HPV
O HPV, papilomavírus humano, é uma das infecções mais comuns que existem. Estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entrará em contato com o vírus em algum momento da vida. Dito assim, sem rodeios: ter tido HPV não é motivo de vergonha nem de estigma, é quase uma regra.
Na maior parte das vezes, o próprio organismo elimina o vírus sozinho, sem que ele cause qualquer problema. A questão está numa minoria de casos, em que a infecção por um tipo de HPV de alto risco persiste por anos. É essa persistência, e não o simples contato com o vírus, que pode, com o tempo, levar ao câncer.
Não é só o colo do útero
Quando se fala em HPV, a associação imediata é com o câncer de colo do útero, e com razão: mais de 99% desses casos são causados pelo vírus. Mas o HPV vai além, e é por isso que a vacinação não é assunto só de meninas. O vírus está por trás de:
- mais de 90% dos cânceres de ânus;
- cerca de 70% dos cânceres de vulva e de vagina;
- mais de 60% dos cânceres de pênis;
- cerca de 70% dos cânceres de orofaringe, uma região da garganta.
Ou seja, o HPV causa câncer em homens e em mulheres. Vacinar meninos protege a eles próprios e reduz a circulação do vírus na população inteira.
A vacina previne câncer, e isso já está provado
Este é o ponto que costuma surpreender. Não se trata de teoria. Um dos maiores estudos sobre o tema, feito na Escócia com quase 450 mil mulheres, não encontrou um único caso de câncer de colo do útero invasivo entre as que foram vacinadas na idade recomendada, aos 12 ou 13 anos, desde o início do programa.
O mesmo estudo mostrou algo igualmente importante: a proteção foi praticamente total quando a vacina foi aplicada cedo, e caiu bastante quando foi dada mais tarde, na adolescência avançada. A lição é direta: a vacina funciona melhor quando aplicada antes da exposição ao vírus, ou seja, antes do início da vida sexual. É por isso que a idade-alvo é tão precoce.
Quem deve tomar, e até quando
No SUS, a vacina oferecida é a quadrivalente, que protege contra os tipos 16 e 18 (os que mais causam câncer) e também o 6 e o 11 (que causam a maioria das verrugas genitais). O que vale a pena saber:
- O público principal são meninas e meninos de 9 a 14 anos. Essa é a janela ideal.
- Desde 2024, o esquema é de dose única (antes eram duas), com base em estudos que mostraram proteção equivalente. Uma dose, uma ida ao posto.
- No SUS, a dose única está disponível até os 19 anos para quem não se vacinou na idade certa.
- Grupos específicos (pessoas imunocomprometidas, vivendo com HIV, transplantadas, ou vítimas de violência sexual) têm indicação ampliada, em geral até os 45 anos, com esquema próprio.
Fora dessas faixas, a vacina existe na rede privada e pode ser avaliada individualmente com o médico. Ela tende a ser menos eficaz depois de já ter havido exposição ao vírus, mas ainda pode proteger contra os tipos que a pessoa ainda não teve.
Dúvidas comuns, respondidas sem rodeio
Já iniciei a vida sexual. Ainda vale tomar? Pode valer. A proteção máxima é antes da exposição, mas dificilmente alguém já teve contato com todos os tipos de HPV da vacina. Converse com seu médico sobre o seu caso.
A vacina é segura? Causa infertilidade? É segura. Está entre as vacinas mais estudadas e monitoradas do mundo, aplicada em centenas de milhões de pessoas. Não há qualquer evidência de que cause infertilidade. Os efeitos mais comuns são leves, como dor no local da aplicação.
Vacinar não incentiva o início precoce da vida sexual? Não. Os estudos que investigaram isso não encontraram nenhuma relação. Vacina é prevenção de câncer, não autorização para nada.
Se meu filho é menino, precisa mesmo? Sim. Como vimos, o HPV causa câncer de ânus, pênis e orofaringe, e os homens transmitem o vírus. A vacinação dos meninos é parte essencial da estratégia.
A vacina não substitui o exame
Um ponto final que costuma gerar confusão: tomar a vacina não elimina a necessidade do rastreamento no futuro. A vacina cobre os tipos de HPV mais perigosos, mas não todos os que podem causar câncer. Por isso, quem se vacinou ainda deve fazer o rastreamento do câncer de colo do útero na idade adulta. Vacina e exame são aliados, não substitutos.
Poucas ferramentas em medicina oferecem tanto por tão pouco: uma dose na idade certa que evita, lá na frente, um câncer inteiro. Se a decisão fosse sempre assim de clara, muita coisa seria mais fácil.
A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente nas unidades de saúde do SUS. Na dúvida sobre a idade certa ou o esquema mais adequado, procure o posto de saúde, o pediatra ou o ginecologista.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Instituto Butantan. HPV e os cânceres associados ao vírus.
- Ministério da Saúde / Programa Nacional de Imunizações (PNI). Esquema de dose única da vacina HPV quadrivalente, 2024.
- Palmer TJ, et al. Invasive cervical cancer incidence following bivalent HPV vaccination: Scotland. Journal of the National Cancer Institute (JNCI), 2024.
- International Agency for Research on Cancer (IARC/OMS). Human papillomavirus and cancer.