De todos os exames de rastreamento, a colonoscopia é provavelmente o mais adiado. E quase nunca por causa do exame em si. O que trava é o preparo.
Vale então começar pelo ponto que costuma ficar de fora da conversa: o preparo não é um incômodo burocrático que antecede o exame. Ele é parte do exame, e talvez a parte que mais decide o resultado. Um intestino mal preparado é um intestino que o médico não consegue enxergar por inteiro. E a conta, a partir daí, é simples: o que não se enxerga, não se reconhece. O que não se reconhece, não se retira.
Um exame que não só encontra, ele previne
A colonoscopia ocupa um lugar raro na medicina porque faz duas coisas ao mesmo tempo: procura lesões e as remove no mesmo procedimento, antes que virem câncer. Se quiser entender como o pólipo se transforma em câncer e a partir de que idade começar a rastrear, tratei disso no texto sobre câncer de intestino: sinais e prevenção.
O tamanho desse benefício foi medido. No National Polyp Study, entre pessoas que tiveram pólipos adenomatosos retirados por colonoscopia, a mortalidade por câncer de intestino foi 53% menor do que a esperada para a população geral, num acompanhamento de mais de 15 anos. Não é o exame, sozinho, que protege: é a retirada do pólipo. E só se retira o pólipo que aparece.
Por que o preparo decide o resultado
Dois achados mostram bem por que insisto tanto nisso.
O primeiro é que o que o médico consegue ver muda o desfecho. Num estudo com mais de 300 mil colonoscopias, quanto maior a taxa de detecção de lesões de um examinador, menor o risco de o paciente desenvolver câncer depois: cada aumento de 1% nessa taxa se associou a 3% menos câncer no intervalo entre exames. Entre os examinadores que mais detectavam e os que menos detectavam, o risco de câncer fatal no intervalo caiu quase dois terços. Preparo ruim reduz diretamente o que dá para ver.
O segundo é a recompensa de um exame bem-feito. Quando a colonoscopia é adequada e não encontra pólipos, a chance de surgir um pólipo grande nos cinco anos seguintes fica em torno de 3%. É isso que sustenta intervalos longos entre um exame e outro: um exame limpo e bem feito rende anos de tranquilidade. Já um exame comprometido por preparo insuficiente é o motivo mais comum de alguém ter de repetir tudo em menos de um ano. Vale a pena fazer uma vez, bem feito.
Como fazer o preparo direito
Cada serviço tem o seu esquema, e a regra de ouro é seguir à risca a orientação que você recebeu por escrito. Os princípios, porém, são os mesmos:
- Ajuste a alimentação nos dias anteriores. Em geral se orienta reduzir fibras e resíduos: sementes, grãos, cereais integrais, frutas com casca ou bagaço, verduras cruas. São exatamente os restos que ficam grudados na parede do intestino.
- Divida a dose do laxante. As diretrizes recomendam tomar parte da solução na véspera e a outra parte nas horas que antecedem o exame. Essa divisão limpa melhor do que tomar tudo de uma vez, e é um dos pontos em que mais se perde qualidade quando o horário não é respeitado.
- Beba líquidos claros e não fique desidratado. Água, chá claro, água de coco e caldos coados costumam ser liberados. O laxante causa perda importante de líquido.
- Avise a equipe sobre os seus remédios. Anticoagulantes, medicações para diabetes e suplementos de ferro podem exigir ajuste ou suspensão programada, e isso precisa ser combinado com antecedência, nunca por conta própria.
- Não interrompa o preparo antes da hora. A referência é o aspecto do que sai, que deve ficar líquido e claro. Se isso não acontecer, avise o serviço em vez de simplesmente ir assim mesmo.
O dia do exame
O exame costuma ser feito com sedação e, com ela, a maior parte das pessoas não sente dor nem guarda lembrança do procedimento. A colonoscopia em si leva algo em torno de vinte a trinta minutos. Se aparecer um pólipo, ele em geral é retirado ali mesmo, sem que você perceba, e enviado para análise.
Complicações existem, mas são raras: num estudo europeu com quase 12 mil colonoscopias de rastreamento, não houve nenhuma perfuração nem nenhuma morte relacionada ao exame nos 30 dias seguintes.
Por causa da sedação, você precisa de um acompanhante e não pode dirigir nem voltar ao trabalho naquele dia. É um dia de agenda, não uma semana.
Depois: o que o resultado significa
- Exame adequado e sem pólipos: o intervalo até o próximo costuma ser longo. As diretrizes trabalham com até dez anos quando o exame foi de boa qualidade, mas esse prazo ainda é objeto de discussão e pode ser encurtado conforme o seu risco, então quem define é o seu médico.
- Pólipos encontrados e retirados: o intervalo passa a ser menor e depende do número, do tamanho e do tipo das lesões.
- Preparo considerado insuficiente: o exame perde valor e costuma ser repetido antes, o que é frustrante e evitável.
- História familiar importante: o rastreamento começa mais cedo e se repete com mais frequência. Se há vários casos na família, vale ler sobre câncer que anda na família.
E aqui vai um lembrete que parece óbvio, mas que vejo falhar com frequência: retire o resultado e leve-o para discutir em consulta com o seu médico. O laudo da colonoscopia e, quando houve retirada de pólipo, o resultado da biópsia são o que define de fato o seu próximo passo e o intervalo até o exame seguinte. Fazer o exame e não fechar esse ciclo é perder metade do benefício.
Poucas vezes na medicina o resultado depende tanto do que o paciente faz na véspera. A colonoscopia é uma delas, e é uma das raras chances de impedir um câncer de existir, não apenas de encontrá-lo cedo.
Se você tem 45 anos ou mais e ainda não fez o rastreamento, converse com o seu médico sobre agendar a colonoscopia. E se o seu exame encontrou alguma alteração, se veio um diagnóstico de câncer de intestino, ou se a história da sua família preocupa e você quer entender o seu risco, estou à disposição para uma avaliação.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Zauber AG, et al. Colonoscopic Polypectomy and Long-Term Prevention of Colorectal-Cancer Deaths. New England Journal of Medicine, 2012.
- Corley DA, et al. Adenoma Detection Rate and Risk of Colorectal Cancer and Death. New England Journal of Medicine, 2014.
- Lieberman DA, et al. Low Rate of Large Polyps Within 10 Years After an Adequate Baseline Colonoscopy With No Polyps. Gastroenterology, 2014.
- Johnson DA, et al. Optimizing Adequacy of Bowel Cleansing for Colonoscopy: Recommendations from the US Multi-Society Task Force on Colorectal Cancer. Gastroenterology, 2014.
- Bretthauer M, et al. Effect of Colonoscopy Screening on Risks of Colorectal Cancer and Related Death. New England Journal of Medicine, 2022.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de intestino (colorretal).