PSA alterado: isso quer dizer que é câncer?

PSA alterado: isso quer dizer que é câncer?

Poucos resultados de exame assustam tanto e concluem tão pouco quanto um PSA acima do valor de referência. O número vem destacado, ao lado da palavra próstata, e o pensamento vai direto para o pior. Só que, na maior parte das vezes, não é isso que está acontecendo.

Vale entender o que esse exame realmente mede, porque quase toda a angústia em torno dele nasce de um mal-entendido simples.

O PSA é um marcador da próstata, não do câncer

O PSA é uma proteína produzida pela próstata. Por tecido doente, sim, mas também por tecido absolutamente saudável. É por isso que todo homem tem PSA no sangue, e é por isso que o valor sobe em várias situações que nada têm a ver com câncer.

Traduzindo: o PSA avisa que a próstata está chamando atenção. Ele não diz o motivo. Descobrir o motivo é o passo seguinte, e é justamente aí que entra a avaliação médica, em vez do susto.

Outro ponto que confunde: não existe um valor mágico universal que separe o normal do anormal. O corte de 4 ng/mL é uma convenção, não uma fronteira biológica, e o próprio Instituto Nacional do Câncer americano trata a faixa entre 2,5 e 4,0 como uma zona cinzenta. O valor esperado também sobe naturalmente com a idade.

Quanto um PSA alterado realmente significa

Aqui os números ajudam a colocar o medo no lugar certo. Pelos dados reunidos pela American Cancer Society:

  • com PSA entre 4 e 10, a chance de haver câncer na biópsia é de cerca de 1 em cada 4;
  • com PSA acima de 10, essa chance passa de 50%.

E há um terceiro dado, este vindo de um grande estudo publicado no New England Journal of Medicine, que biopsiou homens independentemente do valor do exame: mesmo entre aqueles com PSA abaixo de 4, cerca de 15% tinham câncer de próstata.

Leia de novo o primeiro item, porque ele é o mais importante para quem está com o exame na mão: na faixa em que a maioria dos resultados alterados cai, três em cada quatro homens não têm câncer. O PSA alterado é um convite a investigar, não um diagnóstico.

O último item também merece atenção, e mostra por que o PSA nunca é lido sozinho: um valor dentro da faixa não é um certificado de ausência de doença. É o conjunto, com o exame clínico e a história de cada um, que orienta a decisão.

O que faz o PSA subir sem ser câncer

As causas benignas são comuns, e algumas são bem banais:

  • Aumento benigno da próstata (hiperplasia). É a causa mais frequente de PSA elevado. A próstata cresce com a idade, e mais tecido produz mais PSA.
  • Prostatite e infecções urinárias. Inflamação e infecção podem elevar bastante o valor, às vezes de forma expressiva, e ele tende a cair depois do tratamento.
  • Procedimentos urológicos recentes. Sondagem vesical e biópsia prévia, entre outros, alteram o resultado.
  • Idade. O valor sobe lentamente ao longo da vida, o que é esperado.

O que faz o PSA baixar e enganar

Esta parte é menos conhecida e importa muito.

Remédios da classe dos inibidores da 5-alfa-redutase, a finasterida e a dutasterida, reduzem o PSA em cerca de metade. Eles são usados para tratar o aumento benigno da próstata e, em dose menor, também para queda de cabelo, o que faz muitos homens tomarem sem associar o remédio à próstata.

A consequência prática é direta: quem usa esses medicamentos pode ter um PSA aparentemente tranquilo que, na verdade, está mascarado. Por isso, conte ao seu médico se você toma ou tomou finasterida ou dutasterida, inclusive por causa do cabelo. Essa informação muda a leitura do exame.

O que costuma vir depois de um resultado alterado

Não existe um roteiro único, e quem define é o médico que acompanha o caso, mas o caminho habitual tem alguns passos previsíveis.

O primeiro costuma ser confirmar. Um único valor isolado diz pouco, e é comum repetir o exame, às vezes depois de tratar uma infecção ou de afastar um fator temporário. A comparação com resultados anteriores, quando existem, vale mais do que o número isolado, porque a tendência ao longo do tempo é informativa.

Junto com a repetição vem a avaliação clínica, e nela o toque retal tem um papel próprio. Ele dura segundos e informa exatamente aquilo que o exame de sangue não informa: se existe um nódulo ou uma área endurecida na superfície da glândula. Os dois se completam, e a leitura conjunta muda bastante a conduta. Um PSA alterado com toque normal não significa a mesma coisa que um PSA alterado com uma alteração palpável, e é por isso que o exame de sangue sozinho raramente basta para decidir o passo seguinte.

Esse passo seguinte, hoje, costuma incluir uma ressonância magnética antes de decidir pela biópsia. Essa mudança tem uma boa razão de ser. No estudo PRECISION, homens avaliados com ressonância antes da biópsia tiveram mais cânceres realmente relevantes identificados (38% contra 26%) e menos cânceres sem importância clínica encontrados (9% contra 22%). E, entre os que fizeram a ressonância, 28% tiveram um resultado que não sugeria câncer e não precisaram fazer biópsia nenhuma.

Quando a biópsia é indicada, ela passa a ser dirigida às áreas suspeitas, em vez de colher amostras de pontos predefinidos da glândula. É um exame melhor, feito em menos gente.

E se for câncer?

Se a investigação confirmar o diagnóstico, vale saber de duas coisas antes que a imaginação trabalhe sozinha.

A primeira é que um câncer encontrado por PSA alterado, sem sintomas, costuma ser um câncer inicial, e nessa fase o câncer de próstata tem chances muito boas de controle. A segunda é que nem todo caso exige tratamento agressivo imediato: tumores de baixo risco podem entrar em vigilância ativa, com acompanhamento próximo, tratando apenas se houver sinal de progressão.

Se quiser rever os sinais, os fatores de risco e como a investigação começa, reuni isso no texto sobre câncer de próstata: sinais e quando investigar.


Um PSA alterado pede avaliação, não pânico, e pede que você leve o resultado a uma consulta em vez de interpretá-lo sozinho ou repetir o exame por conta própria. Leve também os exames antigos e a lista dos seus medicamentos. E, caso a investigação confirme um diagnóstico de câncer de próstata, estou à disposição, como oncologista, para avaliar o caso e conduzir o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • American Cancer Society. Screening Tests for Prostate Cancer.
  • Thompson IM, Pauler DK, Goodman PJ, et al. Prevalence of Prostate Cancer among Men with a Prostate-Specific Antigen Level 4.0 ng per Milliliter or Less. New England Journal of Medicine, 2004.
  • National Cancer Institute (NCI). Prostate Cancer Screening (PDQ): Health Professional Version.
  • Kasivisvanathan V, et al. MRI-Targeted or Standard Biopsy for Prostate-Cancer Diagnosis (PRECISION). New England Journal of Medicine, 2018.
  • Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Nota Oficial: Rastreamento do Câncer de Próstata, 2018.