Homem tem câncer de mama? Sim, e o diagnóstico costuma vir tarde

Homem tem câncer de mama? Sim, e o diagnóstico costuma vir tarde

A raridade de uma doença pode, ela própria, virar um problema. O câncer de mama em homens é o exemplo mais claro disso que conheço na oncologia. Ele responde por cerca de 1% de todos os casos de câncer de mama no Brasil, ou seja, para cada 100 mulheres diagnosticadas há aproximadamente um homem. E é justamente por ser raro que costuma ser descoberto tarde: quando um homem percebe um caroço no peito, câncer de mama é a última hipótese que lhe passa pela cabeça.

O resultado dessa demora é conhecido. Proporcionalmente, homens morrem mais dessa doença do que mulheres, e boa parte dessa diferença não se explica por o tumor ser mais agressivo, e sim pelo tempo perdido até alguém pensar na possibilidade.

Um caso em cada cem, e o que a raridade provoca

Alguns números ajudam a dimensionar. O risco de um homem desenvolver câncer de mama ao longo da vida é de cerca de 1 em 755. A idade média no diagnóstico fica entre 60 e 70 anos. No Brasil, o câncer de mama masculino é tão pouco frequente que sequer entra nas estimativas anuais do INCA, embora em 2020 tenham sido registrados 207 óbitos de homens pela doença.

Ou seja: é raro de verdade, e não é motivo para nenhum homem viver examinando o peito com angústia. O ponto é outro, e é bem mais simples. Um caroço no peito de um homem merece a mesma investigação que mereceria no de uma mulher. Só isso já resolveria a maior parte do atraso.

O sinal principal: um nódulo embaixo do mamilo

O sinal mais comum é um nódulo firme e indolor, geralmente localizado sob ou ao redor do mamilo e da aréola. A ausência de dor engana muita gente, porque reforça a ideia de que não pode ser nada sério.

Outros sinais que pedem avaliação:

  • retração do mamilo, que passa a ficar puxado para dentro;
  • saída de secreção pelo mamilo, principalmente quando é sanguinolenta ou do tipo água de rocha, aquela transparente e fluida;
  • alterações da pele, como covinhas, aspecto enrugado, vermelhidão ou descamação do mamilo;
  • caroço ou inchaço na axila ou junto à clavícula.

Vale uma distinção que tranquiliza e orienta. O aumento da mama masculina, quando ocorre nos dois lados, costuma ser ginecomastia, uma condição benigna e comum, ligada a variações hormonais, ao uso de certos medicamentos e ao ganho de peso. O que chama atenção para câncer é o contrário: algo de um lado só, endurecido, muitas vezes fora do centro, que não regride. Na dúvida entre uma coisa e outra, quem separa as duas é o exame médico, não a internet.

Como se faz o diagnóstico

Vale começar por um ponto que evita confusão: não existe mamografia de rastreamento para homens. Como a doença é rara, não haveria benefício em examinar toda a população masculina em busca dela, e por isso não se recomenda esse rastreamento. A investigação começa quando aparece um sinal, e não antes. É outra razão pela qual reconhecer os sinais importa tanto aqui.

A partir do momento em que existe um achado, o caminho é bem definido:

  • Exame clínico. O médico examina as duas mamas e as axilas, avalia as características do nódulo, se ele é móvel ou aderido, endurecido ou não, e levanta a história familiar.
  • Exames de imagem. Entram a mamografia diagnóstica, que é diferente da de rastreamento porque é feita para investigar um achado já existente, e a ecografia da mama, que ajuda a distinguir um cisto de um nódulo sólido e a avaliar os gânglios da axila.
  • Biópsia. É ela que confirma ou afasta o câncer. A forma mais usada é a biópsia por agulha grossa, que retira pequenos fragmentos do nódulo para análise no microscópio. Nenhum exame de imagem, sozinho, fecha o diagnóstico.

Se o câncer for confirmado, o material da biópsia ainda informa características do tumor que orientam a conduta, e outros exames podem ser pedidos para avaliar a extensão da doença. O plano de tratamento é individual e depende do estágio e do perfil do tumor de cada pessoa, o que só faz sentido discutir caso a caso.

Quem tem mais risco

Como em quase todo câncer, alguns fatores pesam mais:

  • Idade. O risco aumenta com os anos, e a maioria dos diagnósticos ocorre depois dos 60.
  • História familiar de câncer de mama ou de ovário, em mulheres ou em homens da família.
  • Alterações genéticas herdadas, sobretudo no gene BRCA2, que é o principal elo genético dessa doença em homens.
  • Condições que elevam a exposição a estrogênio, como a síndrome de Klinefelter, doenças do fígado e obesidade.
  • Radioterapia prévia na região do tórax.

Nada disso é culpa de ninguém, e ter um desses fatores não significa que a doença virá. Significa apenas que vale conhecer o próprio corpo e não empurrar com a barriga um sinal que apareceu.

Por que esse diagnóstico importa para a família inteira

Aqui está, na minha opinião, a informação mais subestimada deste texto.

Um câncer de mama em um homem é um dos sinais mais fortes de que pode existir uma alteração genética herdada na família, em especial no BRCA2. Para dimensionar: estima-se que entre 2% e 7% dos homens que carregam uma variante nesse gene desenvolvam câncer de mama até os 70 anos, um risco muitas vezes maior que o da população masculina em geral.

A consequência prática é grande. O diagnóstico de um homem pode ser a peça que revela um risco herdado que atinge as filhas, as irmãs, a mãe e também os filhos homens, com implicações que vão além da mama e alcançam ovário e próstata. Por isso, esse diagnóstico costuma ser indicação de aconselhamento genético para o paciente e para a família.

Escrevi sobre isso em detalhe nos textos sobre câncer que anda na família e sobre o que é o BRCA e quando fazer o teste genético.

Quando procurar avaliação

Procure um médico se você notar:

  • um nódulo endurecido no peito, de um lado só, com ou sem dor;
  • qualquer mudança no mamilo, como retração, ferida que não cicatriza ou saída de secreção;
  • alteração na pele da mama;
  • caroço na axila.

Descoberto cedo, o câncer de mama no homem é muito mais tratável, como acontece na mulher. O que muda o desfecho, aqui, é vencer a barreira que faz um homem levar meses achando que aquele caroço não pode ser nada.


Trato câncer de mama no dia a dia, em mulheres e em homens, e sei o quanto o tempo até o diagnóstico pesa nessa doença. Se você percebeu uma alteração no peito e quer avaliação, ou se recebeu um diagnóstico e quer discutir o tratamento, estou à disposição.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • American Cancer Society. Key Statistics for Breast Cancer in Men.
  • American Cancer Society. Signs and Symptoms of Breast Cancer in Men.
  • American Cancer Society. Early Detection, Diagnosis, and Staging of Breast Cancer in Men.
  • National Cancer Institute (NCI). BRCA Gene Changes: Cancer Risk and Genetic Testing.
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de mama.