O câncer de pâncreas carrega uma fama, e ela é em boa parte merecida: costuma ser descoberto tarde e é um dos mais difíceis de tratar. No Brasil, o número de mortes por essa doença cresceu de forma preocupante, saindo de cerca de 7,7 mil por ano em 2011 para 11,8 mil em 2020, segundo o INCA. Hoje é o quinto câncer que mais mata mulheres e o sétimo entre homens.
Diante disso, a reação natural é o medo, e não é essa a intenção aqui. A intenção é a oposta: transformar uma fama vaga e assustadora em informação útil. Porque o pâncreas, apesar da reputação de silencioso, dá sinais, e existe um perfil de risco que vale conhecer. É disso que trata este texto.
Por que ele costuma ser descoberto tarde
Entender o motivo ajuda a saber onde prestar atenção. O pâncreas é um órgão profundo, escondido atrás do estômago, no fundo do abdome. Um tumor pequeno ali tem bastante espaço para crescer antes de esbarrar em alguma estrutura que provoque sintoma. Por isso, na maior parte dos casos, os sinais só aparecem quando a doença já avançou.
Há, porém, uma exceção importante e que joga a favor. Quando o tumor nasce na parte do pâncreas chamada cabeça, que fica junto do canal por onde escoa a bile, ele pode comprimir esse canal ainda pequeno. O resultado é a icterícia, e é justamente por isso que alguns desses tumores acabam sendo descobertos mais cedo. Reconhecer esse sinal, portanto, não é detalhe.
Os sinais de alerta
Nenhum destes sintomas significa, isoladamente, que a pessoa tem câncer de pâncreas, e a maioria tem causas muito mais comuns e benignas. O que pede avaliação é a combinação deles, a persistência sem explicação, ou o surgimento em quem tem fatores de risco.
- Icterícia, e é o sinal mais importante. É o amarelamento da pele e da parte branca dos olhos, em geral acompanhado de urina escura, fezes claras e coceira pelo corpo. No câncer de pâncreas ela costuma ser indolor, o que engana, porque muita gente só associa amarelão a uma crise de vesícula dolorosa. Icterícia que aparece sem dor, sobretudo depois dos 50 anos, merece avaliação rápida, sem esperar para ver se passa.
- Perda de peso sem explicação e falta de apetite, especialmente quando vêm juntas e de forma progressiva.
- Dor na parte alta da barriga que irradia para as costas, um padrão que pode piorar após as refeições ou ao deitar.
- Náusea, digestão difícil e fezes gordurosas, que boiam e têm odor forte, sinal de que a gordura não está sendo bem absorvida.
- Trombose sem causa aparente, ou seja, um coágulo numa veia da perna ou no pulmão surgindo sem motivo, que em algumas situações é a primeira manifestação da doença.
Vale repetir, porque importa: dor nas costas, indigestão e cansaço são queixas cotidianas, quase sempre banais. O alerta não é o sintoma solto, é o conjunto que não passa e não se explica.
A pista que quase ninguém conhece: um diabetes que surge do nada
Este é o ponto que mais me interessa transmitir, porque é pouco divulgado e pode antecipar o diagnóstico.
O pâncreas é o órgão que produz a insulina. Quando um tumor começa a comprometê-lo, o controle do açúcar no sangue pode se alterar, e às vezes isso acontece antes de qualquer outro sintoma. Por isso, um diabetes que aparece de repente em um adulto mais velho, principalmente magro e sem história familiar de diabetes, pode, em uma minoria dos casos, ser o primeiro aviso de um câncer de pâncreas.
Os números dão a dimensão certa. Um grande estudo publicado em 2025 acompanhou quase 19 mil adultos com mais de 50 anos que desenvolveram diabetes, e o risco de câncer de pâncreas nos três anos seguintes foi cerca de cinco vezes maior do que o esperado na população geral, com o diagnóstico vindo, em média, oito meses depois do diabetes.
É essencial ler esse dado sem pânico. A enorme maioria dos diabetes que surgem na vida adulta não tem nada a ver com câncer. O sinal que merece um olhar mais atento é o diabetes novo que vem acompanhado de perda de peso, ou que aparece em uma pessoa magra e mais velha, um cenário em que muitos serviços já recomendam investigar o abdome.
Quem tem mais risco
Conhecer os fatores de risco não serve para culpar ninguém, e sim para saber quem deve ficar mais atento e conversar antes com o médico. Alguns podem ser modificados, outros não.
- Cigarro. É o principal fator evitável. Estima-se que responda por cerca de 25% dos casos, e fumantes têm aproximadamente o dobro do risco. Parar de fumar reduz esse risco com o tempo.
- Excesso de peso. A obesidade eleva o risco em torno de 20%, e a gordura concentrada na barriga pesa mesmo em quem não é considerado obeso.
- Diabetes de longa data e pancreatite crônica. O diabetes tipo 2 de anos e a inflamação crônica do pâncreas, muitas vezes ligada ao consumo pesado de álcool, aumentam o risco.
- Idade e sexo. A maioria dos casos ocorre após os 60 anos, e é um pouco mais comum em homens.
- História familiar e herança genética. Cerca de 10% dos casos têm relação com alterações herdadas, incluindo genes como o BRCA2, e síndromes hereditárias de câncer. Ter parentes próximos com câncer de pâncreas conta. Aprofundei esse tema no texto sobre câncer que anda na família.
Ter um ou outro desses fatores não quer dizer que a doença vai aparecer. A maioria das pessoas com esses fatores nunca terá câncer de pâncreas. O que eles fazem é deslocar a conversa: quem os reúne deve dar mais atenção aos sinais e discutir o próprio risco.
Dá para rastrear o câncer de pâncreas?
Aqui a resposta precisa ser honesta. Para a população em geral, não existe exame de rastreamento indicado. Diferente de mama, intestino ou colo do útero, não há um teste que se recomende fazer de rotina em quem não tem sintoma, porque nenhum se mostrou capaz de trazer mais benefício que dano nesse cenário.
A exceção é o grupo de alto risco por herança genética. Para quem carrega certas mutações ou tem forte história familiar da doença, existe vigilância com exames de imagem, ressonância magnética e ecoendoscopia, feita periodicamente e iniciada mais cedo. Nesse grupo, acompanhar de perto aumenta a chance de encontrar a doença ainda em fase operável. Se a sua família tem vários casos, esse é um assunto para levar ao médico.
E o tratamento?
Um receio comum é o de que descobrir signifique não haver o que fazer. Não é assim. O tratamento depende muito do estágio, e tumores encontrados cedo, ainda restritos ao pâncreas, podem ser operados com intenção de cura. Nos casos mais avançados, a área também tem avançado: escrevi sobre um resultado recente e importante no texto sobre um novo tratamento para o câncer de pâncreas. O objetivo aqui não é prometer, é lembrar que a palavra pâncreas não é sinônimo de ausência de opções.
O melhor que este texto pode fazer é simples: se você notar um amarelamento nos olhos ou na pele sem dor, uma perda de peso que não se explica, ou um diabetes que surgiu do nada depois dos 50, não deixe para depois, procure avaliação médica logo. E se a sua família tem história de câncer de pâncreas e você quer entender o seu risco e se há vigilância indicada no seu caso, estou à disposição, como oncologista, para avaliar isso com você.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Atlas de Mortalidade por Câncer: câncer de pâncreas no Brasil.
- American Cancer Society. Pancreatic Cancer Risk Factors.
- American Cancer Society. Signs and Symptoms of Pancreatic Cancer.
- Chari ST, et al. Risk of Pancreatic Cancer in Glycemically Defined New-Onset Diabetes: A Prospective Cohort Study. Gastroenterology, 2025.