Se você nunca fumou, é natural achar que o câncer de pulmão é um problema dos outros. A dúvida costuma chegar em forma de pergunta, quase indignada: como posso ter câncer de pulmão se nunca fumei? A resposta importa, porque o câncer de pulmão em quem nunca fumou não só existe como costuma ter uma causa e, principalmente, um caminho de tratamento bastante específicos.
Antes de tudo, uma ressalva para não gerar susto desnecessário: quem nunca fumou tem risco muito menor do que quem fuma, e a grande maioria jamais terá a doença. Mas, quando ela aparece nesse grupo, existe uma boa notícia por trás do espanto. Esses tumores com frequência são movidos por uma alteração genética específica, e é justamente isso que hoje abre as melhores opções de tratamento.
Não é tão raro: o câncer de pulmão em quem nunca fumou
O cigarro segue sendo, de longe, a maior causa de câncer de pulmão. No Brasil, o INCA estima que cerca de 85% dos casos estão associados ao tabaco. Só que isso deixa uma parcela que não é pequena: pelos dados internacionais, algo entre 1 em cada 10 e 1 em cada 5 casos de câncer de pulmão ocorre em pessoas que nunca fumaram, com predomínio de um tipo específico, o adenocarcinoma, e atingindo proporcionalmente mais as mulheres.
As causas, quando dá para identificá-las, incluem fumo passivo, gás radônio, poluição do ar, exposições ocupacionais como o amianto e predisposição genética. Nenhuma delas tem, isolada, o peso do cigarro, e algumas podem ser reduzidas. Mas há uma virada de chave que é o ponto central deste texto: na hora de tratar, o que costuma mudar o rumo não é tanto a causa e sim uma característica do próprio tumor.
Como o câncer costuma ser descoberto
Aqui aparece uma diferença prática importante. O exame que encontra o câncer de pulmão antes dos sintomas, a tomografia de tórax de baixa dose, tem indicação voltada a quem fuma ou fumou bastante. Quem nunca fumou não entra nesses critérios, porque nesse grupo o exame de rotina traria mais transtorno do que benefício. Expliquei quem deve fazer o rastreamento de câncer de pulmão em outro texto.
Como não existe um exame preventivo indicado para quem nunca fumou, na prática o câncer costuma ser percebido quando surge um sintoma. Por isso, o recado mais importante para esse grupo é não descartar um sinal respiratório com o argumento de “mas eu nunca fumei”. Merecem avaliação, quando persistentes por semanas ou sem explicação:
- tosse que não passa ou que muda de padrão;
- escarro com sangue, mesmo em pouca quantidade;
- falta de ar ou dor no peito que surgem sem motivo claro;
- rouquidão que não melhora, pneumonias de repetição, perda de peso e cansaço sem explicação.
Detalhei cada um nos sinais de alerta do câncer de pulmão. Um sintoma que não passa merece a mesma investigação, tenha a pessoa fumado ou não. E, feito o diagnóstico, abre-se a pergunta que mais vai influenciar o tratamento, uma pergunta sobre o próprio tumor.
O motor do tumor: as mutações condutoras
Todo câncer nasce de erros no material genético das células. Em muitos tumores de quem nunca fumou, existe um erro específico que funciona como o motor daquele câncer, o que chamamos de mutação condutora, ou, em inglês, driver. É uma única alteração que, sozinha, empurra o tumor a crescer. E isso muda tudo, porque, se conseguimos desligar esse motor, freamos o câncer.
Não por acaso, os tumores de quem nunca fumou concentram justamente as alterações para as quais já existe tratamento dirigido. As mais conhecidas atendem por siglas: EGFR, ALK, ROS1, RET, MET, BRAF, KRAS, HER2, NTRK. Não é preciso decorá-las. O que importa entender é que cada uma pode ter um medicamento próprio, desenhado para bloqueá-la.
Testar o tumor: o passo que decide o tratamento
Nada disso funciona sem um passo que, por isso mesmo, é decisivo: testar o tumor. Diante de um câncer de pulmão, sobretudo do tipo adenocarcinoma e mais ainda em quem nunca fumou, o material da biópsia deve passar por uma análise molecular, também chamada de teste de biomarcadores, que procura essas alterações antes de se decidir o tratamento. É esse exame que responde se existe um alvo e qual é o medicamento certo para ele. Começar o tratamento sem essa informação, nesses casos, é abrir mão da ferramenta que mais pode ajudar. Se você ou alguém próximo recebeu esse diagnóstico, é uma pergunta legítima a fazer ao médico: o meu tumor foi testado para essas alterações?
O que muda no tratamento, com exemplos reais
Quando o tumor carrega uma dessas alterações, o tratamento pode ser dirigido exatamente a ela. Muitos desses medicamentos são comprimidos tomados em casa, com frequência mais bem tolerados que a quimioterapia tradicional, e capazes de controlar a doença por bem mais tempo. Uma ressalva honesta antes dos exemplos: os números vêm de estudos e descrevem grupos de pacientes, não são uma promessa para um caso individual. Ainda assim, mostram o tamanho da mudança.
- EGFR, a alteração mais comum em quem nunca fumou. Por anos, o comprimido diário osimertinibe foi o tratamento de referência, e a pesquisa seguiu avançando a partir dele. No estudo MARIPOSA, a combinação de amivantamabe e lazertinibe superou o osimertinibe e, na análise mais recente, prolongou a sobrevida, algo que nenhum outro esquema havia conseguido diante dele. Somar quimioterapia ao osimertinibe (estudo FLAURA2) também estendeu o controle da doença, com 57% dos pacientes ainda sem progressão em 2 anos, contra 41% do comprimido isolado. É uma área em que o padrão melhora de poucos em poucos anos.
- ALK, um dos exemplos mais impressionantes da oncologia recente. No estudo CROWN, que comparou o comprimido lorlatinibe ao tratamento-alvo anterior, após 7 anos de acompanhamento mais da metade dos pacientes seguia sem progressão da doença, algo tão duradouro que já se discute se, nesses casos, o câncer de pulmão pode se comportar mais como uma doença crônica. O controle da doença dentro do cérebro, para onde esse tumor costuma se espalhar, foi quase completo.
- RET. No estudo LIBRETTO-431, o comprimido selpercatinibe controlou a doença por cerca de 25 meses em média, contra 11 meses da quimioterapia, com o tumor respondendo em mais de 8 a cada 10 pacientes e forte proteção contra o avanço para o cérebro.
São três exemplos, mas a lista de alvos tratáveis cresceu e continua crescendo. O fio comum é sempre o mesmo: identificar a alteração certa abre a porta para um tratamento pensado para ela. É a tradução prática de um princípio da oncologia atual, o de que conhecer a biologia de cada tumor permite tratar com mais precisão. Foi essa mudança que transformou o câncer de pulmão em quem nunca fumou em uma das doenças que mais se beneficiaram da medicina de precisão.
Acompanho de perto o diagnóstico e o tratamento do câncer de pulmão, inclusive em quem nunca fumou, e dou muito valor a investigar cada tumor a fundo, com o teste molecular, para escolher o tratamento certo. Se você recebeu esse diagnóstico ou tem um sintoma que preocupa e quer orientação, estou à disposição para uma avaliação.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Salazar MC, Kobayashi AK. Lung Cancers in Never-Smokers: A Different Disease? Surgical Oncology Clinics of North America, 2025.
- Garrido J, et al. Beyond tobacco: genomic disparities in lung cancer between smokers and never-smokers. BMC Cancer, 2024.
- Cho BC, et al. Amivantamab plus Lazertinib in Previously Untreated EGFR-Mutated Advanced NSCLC (MARIPOSA). New England Journal of Medicine, 2024.
- Planchard D, et al. Osimertinib with or without Chemotherapy in EGFR-Mutated Advanced NSCLC (FLAURA2). New England Journal of Medicine, 2023.
- Shaw AT, et al. Lorlatinib versus Crizotinib in ALK-Positive NSCLC: 7-Year Update from the CROWN Study. Annals of Oncology, 2026.
- Zhou C, et al. First-Line Selpercatinib or Chemotherapy and Pembrolizumab in RET Fusion-Positive NSCLC (LIBRETTO-431). New England Journal of Medicine, 2023.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pulmão.