Câncer de rim: os sinais, os fatores de risco e o câncer que se descobre sem procurar

O câncer de rim tem uma particularidade importante: hoje, na maior parte das vezes, ele é encontrado por acaso. A pessoa faz uma ecografia ou uma tomografia do abdome por um motivo totalmente diferente, uma dor de barriga, uma investigação de cálculo, um check-up, e o exame revela um nódulo no rim que ninguém estava procurando.

Isso acontece em mais da metade dos casos. E, por contraditório que pareça, é uma boa notícia, porque esse tumor achado cedo, ainda pequeno, costuma ter ótimas chances de tratamento.

Um câncer cada vez mais achado por acaso

O rim é um órgão que trabalha calado. Um tumor pode crescer ali por bastante tempo sem provocar dor nem alterar o funcionamento, porque o rim tem folga de sobra e não costuma “avisar”. Foi a popularização dos exames de imagem, ecografia e tomografia, que mudou esse cenário: como se pede muito mais imagem do abdome hoje do que há trinta anos, muito mais tumores renais aparecem sem sintoma, numa fase inicial.

Esse mesmo silêncio explica por que a descoberta ao acaso é tão valiosa. Quando o câncer de rim finalmente dá o conjunto clássico de sintomas que os livros descrevem, dor no flanco, sangue na urina e um caroço palpável na barriga, a doença em geral já está avançada. Essa apresentação completa, aliás, hoje é rara, aparecendo numa minoria dos casos. Ou seja: esperar o sintoma clássico é, quase sempre, esperar demais.

Os sinais, quando aparecem

Ainda que a maioria dos casos iniciais seja silenciosa, alguns sinais pedem avaliação, sobretudo se persistem:

  • Sangue na urina. É o sinal mais importante. Pode ser visível, deixando a urina rosada, avermelhada ou cor de chá, e costuma ser indolor. Aqui vale um recado firme e sem alarde: a maioria absoluta dos episódios de sangue na urina tem causa benigna, como infecção ou cálculo. Mas sangue visível na urina nunca deve ser ignorado, porque também pode vir do rim ou da bexiga, e só a investigação diferencia.
  • Dor persistente no flanco ou nas costas, de um lado só, que não melhora e não tem relação com esforço.
  • Uma massa ou caroço palpável na lateral do abdome, um sinal mais tardio.
  • Sintomas gerais sem explicação, como perda de peso, cansaço importante, febre baixa que vai e volta, anemia, ou uma pressão alta que surge do nada. Isoladamente são inespecíficos, mas em conjunto e sem causa aparente merecem atenção.

Repare no padrão: nenhum desses sinais é exclusivo do câncer, e a maioria das vezes que eles aparecem a causa é outra, mais comum. O alerta não é o sintoma solto e passageiro, é o que persiste e não se explica.

Quem tem mais risco

Conhecer os fatores de risco serve para saber quem deve ficar mais atento, não para distribuir culpa. Alguns podem ser modificados, outros não.

  • Cigarro. Fumar aumenta o risco de câncer de rim, e parar reduz esse risco ao longo do tempo.
  • Excesso de peso. A obesidade é um fator consistente, provavelmente por meio de alterações hormonais e inflamatórias.
  • Hipertensão. A pressão alta se associa a mais risco, e o efeito parece persistir mesmo em quem trata a pressão.
  • Doença renal crônica e diálise. Quem tem função renal comprometida, especialmente em diálise de longa data, tem risco aumentado.
  • História familiar e síndromes hereditárias. Ter parentes próximos com câncer de rim conta, e algumas síndromes herdadas, como a de von Hippel-Lindau, elevam bastante o risco e costumam causar a doença mais cedo.
  • Sexo e idade. É quase duas vezes mais comum em homens, e costuma aparecer a partir dos 60 anos, com idade média em torno dos 65.

Ter um desses fatores não significa que a doença virá. A maioria das pessoas com esses fatores nunca terá câncer de rim. O que eles fazem é indicar quem deve valorizar mais um sinal quando ele aparece.

Dá para rastrear o câncer de rim?

Para a população em geral, não existe um exame de rastreamento indicado. Diferente de mama, intestino ou colo do útero, não há um teste que se recomende fazer de rotina em quem não tem sintoma nem risco especial, porque não se demonstrou que isso traga mais benefício que dano.

Na prática, o que “rastreia” o câncer de rim hoje é o acaso: a enxurrada de exames de imagem pedidos por outros motivos acaba encontrando muitos desses tumores cedo. A exceção formal é o grupo de alto risco por herança genética, como quem tem a síndrome de von Hippel-Lindau, que faz acompanhamento com exames de imagem periódicos, começando mais cedo. Se a sua família tem vários casos, esse é um assunto para levar ao médico.

O achado precoce e a boa notícia do tratamento

Aqui está a razão pela qual a descoberta ao acaso importa tanto. Um câncer de rim pequeno e restrito ao órgão costuma ser tratável com ótimas chances, e o tratamento nesses casos evoluiu numa direção que preserva o paciente.

Boa parte dos tumores iniciais pode ser removida com uma cirurgia que retira apenas a parte doente e preserva o rim, a chamada nefrectomia parcial, em vez de tirar o órgão inteiro. E há um dado que costuma surpreender: nem todo pequeno nódulo renal precisa de cirurgia imediata. Em pessoas mais idosas ou frágeis, alguns desses nódulos pequenos podem ser apenas acompanhados de perto, com imagem periódica, tratando só se crescerem, uma lógica parecida com a da vigilância ativa em outros tumores.

Mesmo quando a doença é mais avançada, o cenário mudou muito na última década. O tratamento do câncer de rim metastático foi transformado pela imunoterapia e pelas terapias dirigidas a alvos, que ampliaram de forma real o controle da doença. Não se trata de prometer, e sim de dizer que a palavra rim, hoje, está longe de significar ausência de opções.

Quando procurar avaliação

Vale buscar avaliação médica, sem demora, se você:

  • notar sangue na urina, mesmo uma única vez e mesmo sem dor;
  • tiver dor persistente em um lado das costas ou do flanco, sem relação com esforço;
  • receber, num exame de imagem feito por outro motivo, a informação de que há um nódulo ou massa no rim.

Esse último ponto é comum e costuma assustar. Um nódulo renal achado por acaso nem sempre é câncer, e mesmo quando é, encontrá-lo cedo é a melhor situação possível. O caminho certo diante do achado não é o pânico nem o esquecimento, é levar o exame a um médico para que ele defina o que aquilo significa e qual o próximo passo.


Trato o câncer de rim, inclusive nas fases mais avançadas, em que a imunoterapia e as terapias-alvo têm papel central. Se você notou sangue na urina ou recebeu, num exame, a informação de um nódulo no rim, o passo certo é procurar avaliação médica sem demora para esclarecer o que é, já que nem todo nódulo é câncer. E, caso um diagnóstico de câncer renal se confirme, estou à disposição, como oncologista, para avaliar e conduzir o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • American Cancer Society. Kidney Cancer Risk Factors.
  • American Cancer Society. Signs and Symptoms of Kidney Cancer.
  • Gill IS, et al. Clinical Practice: Small Renal Mass. New England Journal of Medicine, 2010.