Falar de câncer? Para que o incômodo?

Falar de câncer? Para que o incômodo?

Há quem goste de muita coisa fora do comum: mas nunca vi, até hoje, quem gostasse de falar sobre o câncer. Que enchesse a boca para sugerir, no meio de um churrasco, naquela roda de amigos, ou numa mesa de bar, depois do trabalho: Que tal a gente mudar de assunto, e falar dos diversos tipos de câncer que existem e como eles atingem tantas pessoas que a gente conhece de forma tão triste e inesperada?.

Se agíssemos assim, uma só vez apenas, já seríamos chamados de malucos, e com razão. Porque o natural é sentirmos o impulso de desenvolver nossos assuntos ao redor de coisas boas, de coisas que nos lembram do lado bom da vida, de coisas que levantam o nosso astral e que nos fazem esquecer das decepções do dia a dia.

Então a gente vai a um churrasco e fala de futebol, música, novelas, livros, séries de TV, acontecimentos engraçados, grandes memórias do passado, receitas que estamos doidos para fazer… de tudo! Falamos de tudo antes de falar sobre o câncer. Mas se a razão fosse simplesmente que estes assuntos são todos mais desejáveis do que ele, ainda estaria tudo bem. O problema é que não é só por isso!

Sendo médico oncologista de consultório há uma década, percebi, desde o começo, qual era o problema por trás de se evitar, a todo custo, que o câncer entrasse na roda das discussões –e me desse algo para falar que eu dominasse bem mais do que futebol ou novelas: além de não ser nada legal, há um profundo estigma, como se fosse um espinho dentro do assunto, que machuca as pessoas só de pensarem nele!

O câncer, no Brasil, ainda tem cheiro de morte. Sei bem que contra dados é difícil tecer argumentos sóbrios: segundo a OMS, a doença é a segunda causa mais recorrente de falecimento no Brasil, atrás apenas dos problemas cardíacos, e a campeã em causas de morte já em certas regiões do nosso país. É verdade! E considerando o quanto tenho trabalhado, repito que certamente é verdade!

Mas há um grande erro em imaginar que o diagnóstico é uma espécie de atestado de óbito antecipado. Pois, também como médico, posso garantir que não é bem assim! O câncer de mama, por exemplo, o mais recorrente em mulheres e o segundo mais recorrente no mundo, alcança entre 90 e 95% de chances de cura caso descoberto num tempo comum, fora do estágio avançado! 

O câncer de pulmão, campeão em incidência no planeta, tem 70% de chance de cura nos graus I e também II da doença. E por assim segue praticamente todos os tipos de câncer: descobrindo-se a tempo, é mais uma doença que, bastando ser tratada, vai embora deixando o paciente curado: para seus amigos, seu churrasco e suas rodas de conversa. 

Como você iria saber disso, se nunca falássemos sobre o câncer? Como iria ter esta fagulha de esperança acesa em seu coração? Como afastaria o medo e a repulsa? Veja: deixe de falar sobre o câncer apenas na presença de bons assuntos que estejam na frente. Mas nunca deixe de falar por evitá-lo a todo custo, por achar que é praticamente o fim do mundo!

A chave, meus amigos, é o diagnóstico: basta prestar atenção aos sinais do seu corpo. Quando o seu corpo falar com você, escute o que ele tem a dizer!