Quando a notícia não é boa: os duros percalços do tratamento

Quando a notícia não é boa: os duros percalços do tratamento

Queríamos, nós médicos, trazer apenas boas notícias aos nossos pacientes. Seria o mundo ideal para ambos os lados da mesa de consultório: a pessoa chega, nós descobrimos o seu câncer, alinhamos o tratamento, aplicamos o plano traçado e no tempo esperado, voilá: o corpo responde como o esperado, o remédio funciona exatamente como previmos e a doença regride até encontrar o seu fim.

É duro dizer tal coisa numa página lida por pacientes (queridos pacientes!), mas essa não é a única verdade dos fatos. Não transforme esta informação num completo pessimismo, no entanto: muitas vezes, a resposta do tratamento oncológico é tão ou mais positiva do que foi descrito no início deste texto.

Acontece que nem sempre é assim. O outro lado, o cenário que ninguém quer ou espera, é tão real quanto o seu oposto. Às vezes, nós, oncologistas, realmente entramos na sala de atendimentos com o coração apertado, portando a ingrata tarefa de dar uma notícia que ninguém gostaria de ouvir.

Ora, e se alguém sugere o disparate de que um tratamento mais longo do que o esperado “é vantajoso” para qualquer médico, por favor vire as costas e não dê ouvidos a quem está submerso na maldade! Nós estudamos medicina para curar doenças. A medicina que foi feita para dar certo. É um trabalho que empregamos, como todos os outros, a fim de obter bons resultados. E, ainda assim, estamos sujeitos à frustração.

Mas o médico… ah, ele se vira! Ele lida com conflitos internos como parte inerente da sua missão. A preocupação aqui é com o paciente. O foco deve ser ele: afinal, é ele quem tem câncer e espera, dia após dia, até que não mais o tenha.

E o que o paciente faz quando a frustração bate? Quando, como dissemos acima, descobre que o tratamento não respondeu como devido, o remédio não curou como o prometido, e o câncer não regrediu de semelhante forma?

Bom, ele passa por um breve momento de “rendição”. Que é aquele na vida em que, após uma grande labuta, um grande esforço e um grande trabalho, vemo-nos no mesmíssimo lugar de antes, como se tudo tivesse sido em vão. Como se nenhum movimento adiantasse: ou como se fôssemos completos impotentes! 

Dá-lhes vontade de dizer: “Lutar para quê?”. Sinceramente, nós médicos entendemos tal reação.

Mas você (a você, paciente), logo depois, se levantará de novo deste percalço. Inclusive, é nesta hora que uma pessoa avança interiormente, passando de uma esperança meramente humana (na técnica, na ciência, na medicina), e começa a descobrir outra natureza de esperança, fundada em coisas infinitamente maiores. Que são, aliás, mais poderosas: Deus, o amor, o sentido da vida… como queira chamar!

Atestar este fato não significa que o tratamento continuará respondendo lentamente daqui em diante. Ele será mudado, alterado, adaptado… de forma que combata aquilo que deve ser batido, e obtenha chances reais de sucesso! Apenas significa que perante uma decepção humana, nós nos lembramos mais vividamente de realidades sublimes que nunca deveriam ter sido esquecidas -ou, colocadas como um estepe, como uma “segunda opção”.

É sempre com fé, autoestima, confiança na vida e muito amor ao próximo que vamos lutar, ao lado dos meios humanos e médicos, para nos sairmos melhor no próximo passo. Sofrer e ter medo? Sim, faz parte. Perder a esperança? Não, isto não é uma opção para você!