A sobreposição dos dois diagnósticos é mais comum do que você imagina
Câncer e Depressão são duas doenças que rondam os nossos piores pesadelos. Temos medo da morte, que nos parece intimamente ligada à primeira, e temos medo de uma existência “sem sentido”, que nos parece intimamente ligada à segunda.
Fora da nossa imaginação, no mundo real, infelizmente, as duas condições também disputam entre si para ver quem ficará com o posto de “doença do século”.
Bom, quando acontece desses dois diagnósticos se encontrarem simultaneamente numa mesma pessoa, é como se as duas piores coisas que poderiam lhe acontecer no campo da saúde tivessem dado suas mãos e unido suas forças.
Uma revisão que reuniu 94 estudos com avaliação psiquiátrica encontrou depressão em cerca de 16% das pessoas em tratamento oncológico, e, somando os quadros de adaptação, quase um terço delas. O que não é uma chance baixa, muito menos desconsiderável. Embora seja perfeitamente compreensível: só quem já esteve na posição sabe do peso emocional de um diagnóstico -ainda que o caso seja completamente tratável e curável.
Há diversos desafios na caminhada contra um câncer que podem levar a uma condição depressiva: depois do susto inicial, há toda uma mudança de rotina, todo um abandono da vida corriqueira que se levava, além de dores físicas decorrentes do tratamento e dores psicológicas causadas, além do medo, por decepções de toda sorte.
Longe de querer assustar os pacientes oncológicos, e de deixá-los deprimidos, este texto existe para dá-los esperança. Ora, para todo e qualquer problema, existe sempre uma solução que o ultrapassa infinitamente. Tais soluções, uma vez aplicadas, não só vencem o problema inicial, mas transformam a vida do paciente, tornando-a melhor ainda do que era antes do diagnóstico.
Por exemplo: uma pessoa que nunca pensou em fazer terapia, agora, estando numa situação vulnerável e deprimida por decorrência da descoberta de um câncer, terá de o fazer pela primeira vez. É aí que reside a solução que supera o próprio problema: serão tratados assuntos relacionados à doença, mas também outras áreas da vida que a pessoa mesma nunca havia imaginado ressignificar, transformar e até mesmo curar.
Para os pacientes que se sentem deprimidos ou não (há sempre aquelas pessoas que nos surpreendem pelo alto astral no enfrentamento de um câncer), é fortemente recomendado (por mim, Dr. Juliano, autor deste texto), que busquem amparo em psicólogos, e, caso seja necessário por indicação destes, também nos psiquiatras.
Em boa parte dos serviços de oncologia esse apoio já existe dentro de casa, e poucos pacientes sabem disso: a psicologia faz parte da equipe de cuidados paliativos, que trata o sofrimento causado pela doença ao mesmo tempo em que o câncer é tratado, e não depois. Perguntar por ela na próxima consulta encurta bastante o caminho.
Não ignore a sua condição interior, cuidado apenas da parte física! Tratar o câncer, se você está deprimido ou não, pode ser uma boa chance de tratar a cabeça… e o coração!
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS


