Voltou a sangrar na menopausa? Isso precisa ser investigado

Voltou a sangrar na menopausa? Isso precisa ser investigado

Se você já está na menopausa, ou seja, passou pelo menos doze meses sem menstruar, e depois disso teve qualquer sangramento vaginal, mesmo que pouco, mesmo uma única vez, este texto é para você. E a primeira coisa a dizer é para não entrar em pânico: na maioria das vezes, esse sangramento não é câncer.

Mas ele é um sinal que nunca deve ser ignorado, e o motivo é simples. Quase todo câncer de endométrio, o tumor mais comum do corpo do útero, se anuncia exatamente assim. E esse aviso precoce costuma fazer toda a diferença. Entender esse equilíbrio, entre a calma e a atenção, é o que este texto quer te dar.

O que significa sangrar depois da menopausa

A menopausa é o fim definitivo das menstruações. Considera-se instalada após doze meses seguidos sem menstruar. A partir daí, o útero não deveria mais sangrar. Por isso, qualquer sangramento após a menopausa é considerado anormal, e não uma “menstruação que voltou”.

Não importa a quantidade: pode ser um sangramento volumoso ou apenas um leve manchado na roupa íntima. Não importa a frequência: pode acontecer várias vezes ou uma vez só. Em todos esses casos, a orientação é a mesma: precisa ser avaliado por um médico. Não é para se desesperar, é para investigar.

O alarme, e a boa notícia junto

Aqui estão os dois números que resumem tudo, e eles vêm de um dos maiores estudos já feitos sobre o tema, que reuniu dados de mais de 40 mil mulheres.

O primeiro é tranquilizador: entre as mulheres que sangram depois da menopausa, cerca de 9 em cada 100 têm câncer de endométrio. Ou seja, em mais de 90% das vezes, a causa é outra, e benigna: um ressecamento da parede do útero, um pólipo, o efeito de uma reposição hormonal. Na maioria dos casos, é um susto que termina bem.

O segundo número explica por que, ainda assim, nunca se pode ignorar o sinal: cerca de 90% de todos os cânceres de endométrio se manifestam com esse sangramento. Isto é, quando o câncer existe, ele quase sempre avisa por essa via. Sangramento pós-menopausa não quer dizer câncer, mas câncer de endométrio quase sempre quer dizer sangramento. É por isso que todo caso merece investigação.

Por que esse sinal é, na verdade, uma sorte

A maioria dos cânceres é perigosa justamente por ser silenciosa: cresce sem avisar e só dá sintomas quando já avançou. O câncer de endométrio é diferente, e nisso está a sua peculiaridade mais importante. Ele tende a provocar sangramento ainda no início, quando o tumor é pequeno e está restrito ao útero.

O resultado é que a maior parte dos casos é descoberta em fase inicial. E, nessa fase, o tratamento costuma ter resultados muito bons para a maioria das mulheres. Em outras palavras, o sangramento que assusta é o mesmo que ajuda: ele costuma permitir encontrar a doença num momento em que ela é bem mais tratável, desde que a mulher não deixe o sinal passar.

O que aumenta o risco

Alguns fatores tornam o câncer de endométrio mais provável, e o principal deles é o excesso de peso. Não como julgamento, e sim como mecanismo: a gordura corporal produz estrogênio, e o excesso desse hormônio, sem o contrapeso da progesterona, estimula o endométrio a crescer, o que ao longo do tempo aumenta o risco de câncer. Estima-se que cerca de 1 em cada 4 casos esteja ligado ao excesso de peso, o que faz dele o principal fator sobre o qual se pode agir.

Outros fatores conhecidos incluem diabetes, reposição hormonal só com estrogênio (sem progesterona), menopausa tardia, nunca ter engravidado e histórico familiar de certos cânceres (como na síndrome de Lynch). Ter um ou outro desses fatores não significa que a doença vai aparecer, mas ajuda a entender quem precisa de atenção redobrada com o sinal do sangramento.

Há ainda um caso específico que gera muita dúvida: mulheres que fazem tratamento do câncer de mama com tamoxifeno têm um pequeno aumento nesse risco. É um efeito conhecido, pequeno e administrável, e reuni o que fazer, e o que não é preciso fazer, neste texto dedicado ao tamoxifeno e o útero.

Como se investiga

A avaliação é simples e costuma ser rápida. Diante de um sangramento pós-menopausa, o ginecologista geralmente começa com uma ultrassonografia transvaginal, que mede a espessura da parede do útero (o endométrio). Quando essa parede está fina, o risco é muito baixo e às vezes só se acompanha. Quando está espessada, ou quando o sangramento persiste, o passo seguinte é colher uma pequena amostra do tecido, por uma biópsia do endométrio ou por uma histeroscopia, para examinar as células. É esse exame que dá o diagnóstico com certeza.

Não existe exame de rotina para isso, o sinal é o exame

Vale esclarecer um ponto que confunde muita gente. Diferente do câncer de colo do útero, que tem o exame preventivo (o Papanicolau e o teste de HPV), e do câncer de mama, que tem a mamografia, não existe um exame de rastreamento de rotina para o câncer de endométrio em quem não tem sintoma. Não se sai fazendo ultrassom preventivo do útero na população geral.

O que temos, no lugar disso, é o próprio sintoma. O sangramento pós-menopausa faz o papel que, em outros cânceres, o exame de rastreamento faz: chama a atenção cedo. Por isso ele é tão valioso, e por isso desperdiçá-lo, achando que “é normal” ou que “vai passar”, é o único erro realmente grave aqui.

Quando procurar um médico

Procure avaliação diante de:

  • Qualquer sangramento vaginal após a menopausa, por menor que seja, mesmo que tenha acontecido uma única vez.
  • Antes da menopausa, sangramentos fora do período menstrual, entre uma menstruação e outra, ou fluxos que ficaram muito mais intensos que o habitual.
  • Corrimento com sangue ou de odor incomum que persiste.

O câncer de endométrio é um daqueles em que o desfecho depende, mais do que quase tudo, de uma atitude simples: levar a sério um sinal que o corpo dá de forma clara. Ele avisa. Cabe a nós ouvir.


Se você teve sangramento após a menopausa, o primeiro passo é procurar o seu ginecologista para investigar. Se um diagnóstico de câncer de endométrio for confirmado, estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Clarke MA, et al. Association of Endometrial Cancer Risk With Postmenopausal Bleeding in Women: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Internal Medicine, 2018.
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023-2025: Incidência de Câncer no Brasil.
  • National Cancer Institute, SEER Program. SEER Cancer Stat Facts: Uterine Cancer.