Entre os cânceres de pele, o melanoma cutâneo é o menos comum e o mais perigoso. Ele representa uma minoria dos casos, mas responde pela maioria das mortes por câncer de pele. No Brasil, o INCA estima cerca de 9 mil casos novos por ano, com as taxas mais altas justamente na Região Sul.
Essa combinação assusta, mas guarda uma vantagem enorme em relação a quase todos os outros tumores: o melanoma cutâneo fica na pele, à vista. Dá para procurá-lo no espelho. Saber o que observar, e quando uma mancha deixa de ser apenas uma pinta, é uma das poucas formas em que a atenção de uma pessoa comum realmente muda o desfecho de um câncer.
Os sinais de melanoma: a regra ABCDE
A ferramenta mais conhecida para avaliar uma pinta e reconhecer um melanoma cutâneo é a regra do ABCDE. Cada letra aponta uma característica que, quando presente, pede avaliação. Não é diagnóstico, é um filtro para saber o que merece um olhar profissional.
- A de Assimetria. Uma metade da pinta é diferente da outra. Pintas comuns tendem a ser simétricas.
- B de Bordas. As bordas são irregulares, recortadas, borradas ou mal definidas, em vez de lisas e nítidas.
- C de Cor. A cor não é uniforme, misturando tons de marrom e preto, às vezes com áreas avermelhadas, brancas ou azuladas.
- D de Diâmetro. A lesão é maior que cerca de 6 milímetros, o tamanho de uma borracha de lápis. Vale um alerta honesto: melanomas podem ser menores que isso, então tamanho pequeno não é garantia de nada.
- E de Evolução. A pinta está mudando, em tamanho, forma, cor, ou passou a coçar, sangrar ou descamar. Esta é, para mim, a letra mais importante. Mudança é o sinal que mais pesa.
Há ainda um sinal simples e muito útil, o do patinho feio. As pintas de uma mesma pessoa costumam parecer irmãs, com um ar de família. Aquela que destoa das outras, a que parece diferente de todas, merece atenção mesmo que não cumpra as letras do ABCDE ao pé da letra.
E há um alerta que independe do formato: o comportamento da pinta. Uma lesão que passa a sangrar, coçar, doer, descamar ou formar crosta, ou que simplesmente muda de aspecto com o tempo, precisa ser avaliada, mesmo que pareça pequena e inofensiva. Pinta que dá sintoma não é para ignorar.
Antes que isso vire angústia, uma ressalva necessária: ter muitas pintas é comum e, na imensa maioria das vezes, completamente benigno. O objetivo aqui não é fazer você desconfiar de cada sinal do corpo, e sim reconhecer a pinta que mudou ou que destoa. É a diferença, não a existência da pinta, que acende o alerta.
Não é só onde bate sol, e não é só pele clara
Este é o ponto que mais quero destacar, porque é onde moram dois enganos perigosos.
Existe um tipo de melanoma, chamado acral, que aparece em locais que raramente veem sol: as palmas das mãos, as solas dos pés e sob as unhas, onde pode surgir como uma faixa escura na unha que aumenta com o tempo. Ele não está ligado à exposição solar, e é o tipo mais comum de melanoma em pessoas de pele mais escura.
A consequência prática é séria. Como muita gente acredita que câncer de pele só dá em quem tem pele clara e só onde bateu sol, esse melanoma costuma passar despercebido por mais tempo, sendo descoberto em fase mais avançada. Por isso, pele mais escura não é sinônimo de estar livre do melanoma, e o autoexame precisa incluir as solas dos pés, entre os dedos e as unhas. Uma mancha nova ou uma faixa escura numa unha, sem trauma que explique, merece avaliação.
Quem tem mais risco
Conhecer os fatores de risco ajuda a saber quem deve redobrar a atenção, sem transformar sol em vilão absoluto nem em motivo de culpa.
- Exposição ao sol e queimaduras. A radiação ultravioleta é o principal fator para a maioria dos melanomas, e as queimaduras solares, sobretudo na infância, pesam bastante.
- Pele e olhos claros. Quem tem pele que queima com facilidade, sardas, cabelo ruivo ou loiro e olhos claros está em maior risco.
- Muitas pintas ou pintas atípicas. Ter muitas pintas, ou pintas de aspecto irregular, aumenta o risco.
- História pessoal ou familiar. Cerca de 1 em cada 10 pessoas com melanoma tem história da doença na família. Quem já teve um melanoma tem mais risco de ter outro.
- Imunidade baixa. Pessoas com o sistema imune enfraquecido, por doença ou por medicamentos, têm risco maior.
- Idade, com um detalhe. O risco sobe com a idade, mas, ao contrário de muitos tumores, o melanoma também é um dos cânceres mais comuns em adultos jovens, o que torna o assunto relevante bem antes dos cabelos brancos.
Um fator merece destaque próprio: as câmaras de bronzeamento artificial. Elas são classificadas como cancerígenas comprovadas, e começar a usá-las antes dos 35 anos aumenta o risco de melanoma em cerca de 75%. Não à toa, no Brasil o bronzeamento artificial para fins estéticos é proibido desde 2009, uma medida da Anvisa apoiada pela dermatologia e pelo INCA.
Como se proteger
A prevenção do melanoma é, em boa parte, a proteção contra o excesso de sol, e ela não exige radicalismo, exige consistência:
- usar protetor solar nas áreas expostas e reaplicar ao longo do dia;
- somar barreiras físicas, que protegem mais que o creme sozinho: chapéu, roupas, óculos e sombra;
- evitar o sol nos horários de pico, em geral entre o meio da manhã e o meio da tarde;
- proteger especialmente as crianças, já que as queimaduras da infância cobram o preço décadas depois;
- não usar câmaras de bronzeamento.
Nada disso significa viver trancado. Significa apenas tratar o sol com o mesmo bom senso com que se trata qualquer exposição que, em excesso, faz mal.
O autoexame e quando procurar avaliação
Justamente por ficar à vista, o melanoma se beneficia de um hábito simples: olhar a própria pele com atenção, de vez em quando. Diante do espelho, vale observar o corpo inteiro, sem esquecer o couro cabeludo, as costas, as solas dos pés e as unhas. Um segundo par de olhos, de alguém da casa, ajuda a alcançar o que não se vê.
Procure um dermatologista, sem demora, se notar uma pinta que se encaixa no ABCDE, que virou o patinho feio do conjunto, que está mudando, que passou a sangrar, coçar ou doer, ou uma ferida que não cicatriza. O dermatologista conta com um aparelho chamado dermatoscópio, que amplia a lesão e permite ver detalhes invisíveis a olho nu, e é ele quem define se uma lesão precisa ser removida e examinada.
A razão de toda essa atenção é simples e otimista: encontrado cedo, o melanoma cutâneo é altamente tratável. É quando ele avança para dentro da pele e para outros órgãos que o tratamento fica mais difícil. Poucas vezes o intervalo entre olhar e agir depende tão diretamente da própria pessoa.
Um melanoma reconhecido cedo, ainda superficial, costuma ter excelente evolução. Se você tem uma pinta que mudou ou que destoa das demais, o passo certo é procurar um dermatologista para avaliá-la. E, caso um diagnóstico de melanoma venha a ser confirmado, sobretudo em fase mais avançada, estou à disposição, como oncologista, para avaliar o caso e conduzir o tratamento junto com você.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023-2025: Incidência de Câncer no Brasil (melanoma).
- American Cancer Society. Signs and Symptoms of Melanoma Skin Cancer (ABCDE Rule).
- American Cancer Society. Risk Factors for Melanoma Skin Cancer.
- International Agency for Research on Cancer (IARC). Exposure to Artificial UV (Tanning Devices) and Skin Cancer.