Tenho câncer ou não? A ansiosa espera de um resultado

Tenho câncer ou não? A ansiosa espera de um resultado

Pode parecer controverso, já que as más línguas dizem o contrário, mas o conhecimento é sempre preferível à ignorância. Dizendo em outros termos, é melhor saber de algo, mesmo que aquela notícia seja um tanto dura, do que conviver com a dúvida eterna que não dá descanso: o vazio angustiante do não saber.

Aqueles que enchem a boca para proclamar que a ignorância é mesmo uma dádiva talvez nunca tenham passado pela espera de um resultado de câncer. 

Pois, aos olhos de quem aguarda por um exame que pode mudar os rumos da sua vida de agora em diante, parece que o tempo realmente não passa! As horas congelam, o calendário não vira, e as noites, todas em claro, tornam-se dia na base de conta gotas.

Enquanto isso, um turbilhão de informações, pensamentos intrusivos e medos oriundos deles disputam lugar no coração do possível-futuro-paciente. “E se der positivo?”, “O que eu farei então?”, “Mas por que comigo?”, “E o meu trabalho?”, “Que será dos meus filhos?”, “Como vou arcar com o tratamento?”, “Quem cuidará de mim?”, “Com quem eu posso contar?”, “Que vida eu construí até aqui?”, “Atrás de que eu corro tanto?”, “Valeu a pena isso ou aquilo?”, “Haverá tempo para mais?”.

Todo o peso da existência, que antes era amenizado pelos afazeres diários, as distrações de trabalho, as diversões múltiplas e as pequenas vontades saciadas, surge inteiro e de uma só vez, caindo sobre o colo do indivíduo, e ele, acostumado ou não com tais reflexões, será conduzido a medir, a pesar valores, a se enfrentar.

Apesar da óbvia ansiedade que sondará esses dias de espera, poucos momentos na vida podem ser mais valiosos ou transformadores. Ainda que com medo e angústia, eles ao menos podem ser aproveitados para aquilo que alguns chamariam de “a hora da verdade”. E eu chamarei de “uma chance para o autoconhecimento”.

O que não podemos, de modo algum, é fugir destes dias: literalmente, não o podemos. É uma impossibilidade natural. Não há, nem se quiséssemos, um modo para pular a fase da dúvida e chegar à próxima: a fase do saber. Que, para o bem ou para o mal, colocará nossos pés em algum chão no qual pisar.

Bom, se não há outra alternativa a não ser esperar… tente se conhecer neste momento! Notar a sua força ou fraqueza. Descobrir, realmente, em quem ou no que reside a sua confiança. No que está pautada a sua vida. No que consiste a verdadeira felicidade. Para onde a sua existência caminha!

Eu desejo-lhe o melhor dos resultados. Mas desejo também que em meio às angústias você encontre razões de tranquilidade. Que ante a face ameaçadora do medo, você consiga descobrir um ponto de esperança. E que diante da ansiedade, você diga com convicção serena: agora eu vou dormir, porque a noite chegou e a cada dia basta o seu cuidado.