Quase toda pessoa que recebe um diagnóstico de câncer, em algum momento, digita no buscador: “tratamento natural para câncer”, “cura alternativa”, “como tratar sem quimioterapia”. É humano, e é compreensível querer ter algum controle diante do medo. O problema é o que se encontra: um oceano de promessas, muitas delas perigosas.
Mas existe uma pergunta melhor a fazer, e a resposta talvez surpreenda. Sim, há um “tratamento” que não é remédio, que os oncologistas de fato recomendam, e cujos benefícios a ciência confirma cada vez mais. Não é chá, não é jejum, não é nenhum protocolo secreto. É o exercício físico. E o que os estudos mais recentes mostram sobre ele é forte o suficiente para mudar a conversa.
Primeiro, o alerta que salva vidas
Antes de falar do que funciona, é preciso ser honesto sobre o que não funciona, porque aqui a desinformação mata. A busca por uma cura “natural” costuma esbarrar em algo perigoso: a promessa de que você pode substituir o tratamento médico por um chá, uma dieta milagrosa ou um protocolo secreto.
Isso não existe. Nenhuma substância natural, jejum ou terapia alternativa demonstrou curar câncer no lugar da medicina baseada em evidência. E a decisão de largar o tratamento que funciona para apostar numa promessa é, com frequência, irreversível. Quando alguém garante uma cura escondida da “indústria”, desconfie: o preço costuma ser a sua chance real.
Dito isso, cair no extremo oposto também seria errado. Não é verdade que “não há nada além do remédio”. Há. E o principal tem nome.
A virada: o exercício não é só qualidade de vida
Durante muito tempo, recomendar exercício a quem tem câncer parecia um conselho simpático, algo bom para o ânimo e a disposição, mas sem peso de “tratamento”. Isso mudou. Hoje sabemos que a atividade física age sobre a própria doença, e não apenas sobre o bem-estar.
O que virou o jogo foi um tipo de prova que faltava: o ensaio clínico randomizado, o mesmo padrão de rigor que se exige de qualquer remédio novo.
A prova que faltava (câncer de intestino)
Em 2025, a New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, publicou o estudo CHALLENGE. Ele acompanhou 889 pacientes com câncer de intestino (cólon) que já haviam terminado a quimioterapia. Metade entrou num programa estruturado de exercício por três anos; a outra metade recebeu apenas orientações de saúde.
Os resultados foram expressivos:
- A chance de estar vivo e sem a doença em cinco anos foi de cerca de 80% no grupo do exercício, contra 74% no grupo que não fez o programa.
- O risco de a doença voltar, ou de surgir um novo câncer, caiu cerca de 28%.
- O risco de morrer caiu 37%.
- Houve menos retorno do tumor, especialmente no fígado.
Para se ter ideia do tamanho disso: um ganho dessa ordem, obtido com exercício, é comparável ao de vários medicamentos oncológicos. A diferença é que este “remédio” não tem bula, é barato e o efeito colateral é ficar mais forte.
Já havia, antes, dezenas de ensaios clínicos menores mostrando que o exercício reduz a fadiga, preserva o condicionamento e melhora a qualidade de vida, foi o que levou as sociedades médicas a recomendá-lo. O CHALLENGE foi o primeiro a dar o passo seguinte e provar que o benefício chega ao que mais importa: o tempo de vida.
Não é só o intestino
O câncer de intestino foi o que ganhou a prova mais forte, mas o padrão se repete em outros tumores. No câncer de mama, por exemplo, estudos que acompanham grandes grupos de mulheres mostram que as mais ativas têm um risco de morrer da doença cerca de 40% menor do que as mais sedentárias.
Vale uma ressalva honesta: esses estudos de câncer de mama são de observação, não ensaios clínicos como o do intestino. Ou seja, mostram uma associação muito consistente, mas com um grau de certeza um pouco menor. Ainda assim, quando um mesmo achado aparece em tumores diferentes e por caminhos diferentes, a mensagem fica difícil de ignorar: movimento e câncer não combinam, e é o câncer que leva a pior.
E durante o tratamento? Contra a fadiga
Talvez você esteja pensando: “mas eu mal tenho energia para levantar da cama”. Esse é justamente o ponto mais contraintuitivo, e mais importante.
A fadiga é o sintoma mais comum de quem faz quimioterapia ou radioterapia, e um dos mais incapacitantes. Durante anos, o conselho era descansar. Hoje sabemos que, na dose certa, acontece o contrário: o exercício é uma das formas mais eficazes de combater a fadiga do tratamento, mais até do que muitos medicamentos. Parece um paradoxo, mover-se para cansar menos, mas é o que a ciência mostra de forma repetida.
Não à toa, em 2022 a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) publicou a primeira diretriz recomendando formalmente a incorporação do exercício durante o tratamento do câncer, e não apenas depois dele.
Quanto, e com que cuidado
A boa notícia é que não é preciso virar atleta. A referência das diretrizes gira em torno de 150 minutos por semana de atividade moderada, o equivalente a uma caminhada rápida de cerca de meia hora na maioria dos dias, somada a um pouco de exercício de força para preservar a musculatura.
Mas aqui vem o ponto mais importante de todo este texto, e ele precisa ficar muito claro: isto não é para fazer por conta própria. Cada pessoa tem indicações específicas, não só de quanto, mas de que tipo de exercício é seguro e útil no seu caso. Isso muda conforme o tipo e a fase do tumor, cirurgias recentes, as contagens do sangue, a presença de doença nos ossos e o seu condicionamento atual. O que ajuda uma pessoa pode machucar outra.
Por isso, o exercício em oncologia deve ser iniciado e ajustado com o acompanhamento e a orientação da sua equipe: o seu oncologista e, idealmente, um profissional de educação física ou fisioterapia com experiência em pacientes com câncer. Não comece nem aumente a intensidade por conta própria. Bem indicado, é um dos maiores aliados do tratamento; na hora errada ou do jeito errado, pode fazer mal.
O verdadeiro “tratamento alternativo”
Aqui está o ponto que amarra tudo. O exercício não cura o câncer sozinho, e não substitui a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia ou os demais tratamentos. Ele soma a eles. É complementar, não alternativo no sentido de troca.
E talvez seja essa a lição mais útil desta conversa: o “tratamento alternativo” que de fato funciona é justamente aquele que se soma à medicina, não o que promete substituí-la. Quem te oferece algo para largar o tratamento está te oferecendo risco. Quem te incentiva a somar bons hábitos ao tratamento está te oferecendo mais chance.
Se você procura algo além dos remédios que realmente ajude, ele existe, tem nome, tem ciência e cabe no seu dia: movimento. Não é milagre. É medicina.
Como oncologista, o movimento é uma das recomendações que mais faço, sempre junto do tratamento e ajustada a cada paciente. Se você procura um oncologista para conduzir ou acompanhar o seu tratamento, estou à disposição para uma consulta.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Courneya KS, et al. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer (CHALLENGE). New England Journal of Medicine, 2025.
- Ligibel JA, et al. Exercise, Diet, and Weight Management During Cancer Treatment: ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, 2022.
- Holmes MD, et al. Physical activity and survival after breast cancer diagnosis. JAMA, 2005.