Perder peso sem querer é uma das coisas mais frequentes em quem tem câncer, e uma das que mais demoram a virar assunto de consulta. Em casa costuma ser tratada como consequência natural da doença, algo a suportar em silêncio. No consultório, entra de passagem, depois dos exames e da conversa sobre o tratamento, quando sobra tempo. E é aí que se perde alguma coisa, porque o quanto uma pessoa está conseguindo comer e quanto peso ela vem perdendo interferem na forma como ela atravessa o tratamento. Isso pertence à mesma conversa que os exames e a conduta, e não ao que resta dela.
“Ele está comendo pouco” e “ele perdeu sete quilos desde março” são a mesma queixa dita de dois jeitos, e só a segunda muda alguma coisa, porque só ela é um número. O emagrecimento durante o tratamento não é questão estética nem detalhe a ser aceito calado: merece ser levado ao médico com a mesma seriedade com que se leva um exame alterado. Acontece que essa conversa quase nunca começa por aí. Ela começa pela cobrança, dita com carinho ou com impaciência, de que a pessoa precisa se esforçar mais para comer, e aí todo mundo perde tempo, porque a premissa está errada.
Por que o corpo emagrece mesmo quando a comida chega
O emagrecimento do câncer costuma aparecer antes na roupa do que na balança, e vem acompanhado de coisas que a família observa sem saber nomear. A comida preferida passa a ter gosto de metal. O prato volta pela metade depois de poucas garfadas, com sensação de estômago cheio que não corresponde ao que foi comido. Cheiros que antes abriam o apetite passam a enjoar, e a escada de casa cansa mais do que cansava.
Nada disso está sob o controle da vontade, e existe um mecanismo por trás. O tumor e a reação do organismo a ele mantêm uma inflamação constante, e essa inflamação muda a forma como o corpo administra as próprias reservas. Ele passa a desmontar músculo em ritmo maior do que consegue reconstruir, e faz isso mesmo quando a comida está chegando em quantidade razoável, o que explica a cena de quem come e continua emagrecendo. Ao mesmo tempo, o processo age sobre o cérebro e sobre o aparelho digestivo: reduz a fome, altera paladar e olfato, torna o esvaziamento do estômago mais lento e antecipa a sensação de saciedade. São dois movimentos empurrando na mesma direção, um que faz o corpo gastar mais e outro que faz a pessoa conseguir comer menos, e é por isso que aumentar a porção, sozinho, não resolve.
Isso pode acontecer em qualquer tipo de câncer, mas é mais frequente e mais intenso em alguns: tumores de cabeça e pescoço, de esôfago, de estômago, de pâncreas e de pulmão estão entre os que mais provocam perda de peso, em parte porque muitos deles atrapalham diretamente o ato de comer.
Existe um nome técnico para esse conjunto, que às vezes aparece na consulta: caquexia. Ele atinge cerca de metade das pessoas com câncer avançado, e conhecer o nome ajuda a entender por que o enfrentamento é feito de várias frentes ao mesmo tempo. Convém dizer logo, para não assustar quem não precisa: nem toda perda de peso no tratamento é esse processo. Muita gente emagrece alguns quilos num ciclo mais difícil ou depois de uma cirurgia e recupera em seguida, sobretudo quem trata com intenção de cura. A diferença se decide na avaliação, não à distância.
Tirar a culpa não é tirar a importância
Quando a família entende que existe um processo por trás, costuma vir um alívio imediato e um risco logo depois. O alívio é justo: ninguém falhou ali, nem quem não conseguiu comer nem quem não conseguiu fazer comer. O risco é concluir que, se não é culpa de ninguém, então não há o que fazer. É o oposto, porque a perda de peso no câncer quase nunca tem uma causa só. Existe a parte inflamatória, que não se resolve apenas com comida, e existe uma segunda parte, que vem de comer menos do que o corpo precisa e responde bem quando alguém cuida dela. Essa segunda costuma ser maior do que se imagina, e é a que fica sem tratamento quando a casa se convence de que não adianta tentar.
Convém ajustar também a régua do que é sucesso. Em muitos casos a meta realista não é voltar ao peso de antes, e sim frear a perda e preservar a força. Isso não é consolo: manter massa muscular e disposição sustenta a capacidade de tolerar o tratamento, e quem chega às sessões com mais reserva costuma ter menos efeitos adversos graves e menos interrupções. É razoável esperar que isso favoreça o tratamento como um todo, ainda que o efeito da alimentação sobre o resultado final não seja medido de forma tão direta.
O que costuma estar impedindo de comer
Antes de discutir cardápio, a pergunta que rende mais é outra: o que, fisicamente, está atrapalhando. A lista é curta e quase toda tratável.
- Prisão de ventre. Dá sensação de estômago cheio e tira a fome, e é muito comum em quem usa analgésico forte.
- Náusea que persiste fora dos dias de quimioterapia, e não só nas 48 horas seguintes à aplicação.
- Feridas na boca e candidíase, o sapinho, além de boca seca. Transformam comer em dor.
- Alteração de paladar, com o gosto metálico que torna intragável justamente a comida preferida.
- Dificuldade para engolir, comida que trava ou engasgo. Este merece atenção rápida e não deve esperar a consulta agendada.
- Dor mal controlada, que sozinha tira o apetite de qualquer pessoa.
- Tristeza persistente, que se manifesta como falta de fome com a mesma facilidade com que se manifesta como choro.
Cada um desses itens tem conduta própria, e vários melhoram em poucos dias quando alguém os nomeia na consulta. Há ainda alterações no sangue, como cálcio elevado ou tireoide funcionando abaixo do normal, o hipotireoidismo, que produzem exatamente falta de apetite, náusea e prisão de ventre, e que aparecem em exames simples.
Vale dizer onde esse conjunto costuma ser tratado com mais método, porque é a parte que mais gente desconhece: a equipe de cuidados paliativos trata exatamente náusea, prisão de ventre, dor na boca e falta de apetite, e trabalha ao lado do tratamento do câncer, não no lugar dele nem depois dele.
O que a alimentação ainda consegue fazer
Resolvido o que atrapalha, entra a parte que depende de organização. O que as equipes de nutrição costumam orientar vai na direção contrária da insistência: porções menores e mais frequentes, comida à mão para aproveitar as janelas em que o apetite aparece, mesmo em horários estranhos, e preferência por alimentos que concentrem energia e proteína em pouco volume, já que o problema costuma ser o volume que cabe.
Existem também suplementos nutricionais, hipercalóricos e hiperproteicos, que cumprem esse papel de entregar muito em pouco volume, e quem define se cabem, qual e quanto é a equipe, não a prateleira da farmácia. Há ainda medicamentos que podem ser considerados em algumas situações para ajudar o apetite, avaliados caso a caso. E há uma coisa a evitar: retirar alimentos por conta própria quando se está emagrecendo costuma acelerar a perda, e qualquer restrição merece ser conversada antes com quem acompanha.
O nutricionista entra cedo, e não no fim
Existe uma ideia disseminada de que o nutricionista serve a quem quer melhorar a dieta, e que no câncer ele entra quando o quadro já está avançado. É o inverso, e pelo motivo já dito: é ele quem separa quanto da perda vem da parte que ainda responde e quanto vem da parte que não responde, e quem ajusta a estratégia para cada uma.
Ele também acerta duas contas que quase ninguém acerta sozinho, e a primeira costuma surpreender. A necessidade de proteína de quem está em tratamento oncológico é bem maior do que a de uma pessoa saudável, chegando ao dobro em algumas situações, e proteína não se distribui sozinha ao longo do dia: concentrar tudo no almoço rende menos do que espalhar por todas as refeições. A segunda é a de energia, que muda ao longo do percurso, para mais ou para menos, de um jeito que a intuição não alcança e que nem sempre acompanha o apetite. Errar essas duas contas rende muito esforço com pouco resultado, o que alimenta justamente a sensação de que não adianta tentar.
O que levar para a próxima consulta
Duas informações mudam bastante a conversa, e as duas dependem de quem vive a rotina. A primeira é o número. Pese-se sempre na mesma balança e no mesmo horário, uma vez por semana, e anote. Uma perda que passa de cinco por cento do peso em poucos meses, sem que você estivesse tentando emagrecer, é informação relevante e merece ser dita em voz alta, mesmo que a conversa não tenha começado por aí.
A segunda é o que está atrapalhando, com nome e com tempo. Chegar dizendo que a boca arde há duas semanas, que o intestino não funciona há quatro dias e que tudo tem gosto de metal entrega três coisas para tratar. Dizer apenas que está sem fome não entrega nenhuma.
Emagrecer no câncer não é sinal de que alguém está desistindo, e não conseguir comer não é falha de esforço. Também não é algo a aceitar calado, porque a alimentação é uma das frentes em que a família participa do tratamento com efeito real. Tirar a culpa da mesa serve para liberar a atenção de todo mundo para as duas coisas que funcionam: descobrir o que está impedindo de comer hoje e organizar a oferta de um jeito que caiba naquele corpo. Para quem quiser ver o outro lado dessa conversa, descrevi como isso é reconhecido e acompanhado ao longo do tratamento num texto mais técnico. Trato pessoas em tratamento oncológico e acompanho peso, força e apetite de perto, porque isso decide quanto tratamento é possível fazer. Estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você e sua família, e para articular com a equipe o que cerca a alimentação.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Fearon K, Strasser F, Anker SD, et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. The Lancet Oncology, 2011;12(5):489-495.
- Arends J, Strasser F, Gonella S, et al. Cancer cachexia in adult patients: ESMO Clinical Practice Guidelines. ESMO Open, 2021;6(3):100092.