O termo nasceu na enfermagem de emergência. Em 1992, um artigo curto na revista Nursing deu nome ao que se via em profissionais que estavam perdendo a capacidade de cuidar, e a literatura passou a descrever aquele quadro por baixa eficácia, cansaço, tristeza, raiva e sintomas físicos, atribuídos ao contato contínuo com pacientes complexos somado à sobrecarga de trabalho. Três anos depois, Charles Figley reuniu os conceitos vizinhos que circulavam com outros nomes e passou a chamar aquilo de o custo do cuidado.
Trinta e quatro anos depois, a fadiga por compaixão tem escala em português, tem literatura brasileira própria em oncologia e continua sem lugar reconhecido na rotina em que acontece. O que a define não é o volume do trabalho, que qualquer profissão tem, e sim a exposição repetida ao sofrimento de outra pessoa, que se soma à carga em vez de se confundir com ela. Ela é descrita na literatura da área como a principal ameaça à saúde mental dos profissionais de saúde, o que é uma afirmação forte e ainda pouco testada. O que já está estabelecido é mais modesto e serve mais: dá para medir, já se mediu aqui, e a medida inclui o que sustenta as pessoas, não só o que as desgasta.
O que cada nome cobre
Burnout tem definição oficial. Na CID-11, a Organização Mundial da Saúde o descreve como síndrome resultante de estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com sucesso, com três dimensões: sensação de exaustão ou de esgotamento de energia, distanciamento mental do próprio trabalho ou sentimentos de negativismo e cinismo em relação a ele, e redução da eficácia profissional. A OMS registra duas coisas que costumam passar despercebidas. O burnout não é classificado como condição médica, e o termo se refere especificamente a fenômenos do contexto ocupacional, não devendo ser aplicado a outras áreas da vida.
A fadiga por compaixão nunca chegou a esse grau de consenso. Na formulação de Figley e Stamm, que é a mais adotada, ela não é um quadro único e sim um fenômeno de três dimensões, e o nome se repete porque batiza tanto o conjunto quanto uma das partes: a fadiga por compaixão propriamente dita, entendida como os efeitos nocivos da exposição secundária à dor e ao sofrimento; o burnout, no sentido restrito de exaustão emocional e desânimo; e a satisfação por compaixão, o prazer que vem de sentir-se capaz de fazer bem o próprio trabalho e de ajudar quem sofre.
A relação entre as duas primeiras segue em disputa aberta na literatura, e a divergência não é de detalhe. Há quem sustente que a fadiga por compaixão é um estágio avançado do burnout, quem trate os dois como um só fenômeno com dois nomes, e quem considere o burnout uma das dimensões da fadiga por compaixão. Os autores da escala mais usada estão nesse terceiro grupo. Vale saber disso antes de ler qualquer estudo da área, porque dois trabalhos podem usar a mesma palavra para coisas que não se sobrepõem.
O instrumento tem versão em português desde 2013
A escala se chama Professional Quality of Life, ou ProQOL, e no formato original tem 30 itens, dez para cada um dos três fatores.
A versão brasileira foi construída por Kennyston Lago e Wanderley Codo, da Universidade de Brasília, e publicada nos Estudos de Psicologia. Passou por duas etapas, uma de tradução conferida com 37 profissionais de saúde e outra de validação estatística com 203 respondentes, e confirmou os três fatores com boa consistência interna. Desde então existe uma forma padronizada de medir isso em português, o que é a condição para que se possa comparar serviços, categorias profissionais e momentos diferentes.
O que se mediu no Brasil
Um estudo transversal publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia aplicou essa escala nas equipes médicas e de enfermagem de um centro de alta complexidade em oncologia em Recife. Responderam 83 dos 144 profissionais convidados, entre 28 médicos, 21 enfermeiros e 34 técnicos de enfermagem, distribuídos por enfermaria de oncologia, cuidados paliativos, pronto atendimento e terapia intensiva. Convém guardar uma data: os questionários foram respondidos entre outubro e dezembro de 2019, antes da pandemia.
Entre as categorias profissionais, os médicos tiveram a menor satisfação por compaixão, e a diferença se sustentou na análise. A subescala de fadiga por compaixão apontou para outro lado: quem pontuou mais alto foi a enfermagem, também com diferença sustentada, e o mesmo aconteceu com a exaustão emocional. Não houve diferença entre as categorias no burnout nem no desligamento do trabalho, medidos por duas escalas diferentes, ainda que o resumo do artigo destaque o número dos médicos nesse último item.
Entre os setores, o desenho mudou. A maior satisfação por compaixão ficou com os cuidados paliativos e a menor com o pronto atendimento, que pontuou abaixo de qualquer categoria profissional. O desligamento do trabalho foi menor nos paliativos e maior na terapia intensiva. E a fadiga por compaixão propriamente dita não diferiu entre os setores: o que separou as pessoas nessa subescala foi a profissão, não o lugar onde ela é exercida.
O achado dos paliativos é o mais contraintuitivo do conjunto, porque é o setor com a convivência mais constante com a morte. Duas leituras cabem, e a segunda não anula a primeira: é plausível que a formação em comunicação e o modo de trabalhar em equipe que caracterizam os cuidados paliativos protejam quem está ali, e é plausível que quem escolhe e permanece nesse serviço já chegue diferente. O que sustenta a hipótese protetora é que ela não aparece só nesse centro: um estudo de validação da escala com 161 profissionais brasileiros de cuidados paliativos encontrou o mesmo perfil, com satisfação por compaixão alta e burnout baixo. Ainda assim, o estudo de Recife é de uma única instituição, os grupos comparados são pequenos, com dezesseis pessoas nos paliativos e nove na terapia intensiva, e a comparação foi feita entre todos os grupos de uma vez, sem teste que isole um par contra outro.
O quadro mais amplo da literatura brasileira tem os dois polos. Uma revisão de escopo publicada em 2026 na Acta Paulista de Enfermagem reuniu 12 artigos sobre enfermagem oncológica e encontrou, de modo geral, alta satisfação por compaixão e alta satisfação no trabalho, com maior escolaridade e maior realização profissional associadas a mais satisfação, e registrou também que fadiga, insatisfação e burnout são comuns o bastante para justificar avaliação. Uma revisão integrativa publicada em 2023 na Revista Bioética foi além da enfermagem e reuniu 18 artigos sobre profissionais de oncologia de várias formações, com o mesmo eixo.
Uma meta-análise de 2022 com enfermeiros de oncologia mostra bem como esses polos convivem. Ela revisou 15 estudos e 2.509 profissionais de vários países e, nos seis em que deu para estimar prevalência, encontrou 22,89% com satisfação por compaixão baixa, ou seja, a grande maioria não estava nesse patamar, e ao mesmo tempo 62,79% com burnout e 66,84% com estresse traumático secundário em nível moderado a alto. Gostar do que se faz e estar desgastado por isso não são estados que se excluem, e é justamente por medir as duas coisas ao mesmo tempo que a escala serve.
O luto que não tem onde acontecer
Kenneth Doka descreveu em 1989 uma categoria que explica boa parte do silêncio em torno disso: o luto não reconhecido, aquele que decorre de uma perda que não pode ser abertamente admitida, publicamente pranteada nem socialmente apoiada. A morte de um paciente cai quase inteira nessa categoria. Não há vínculo que a sociedade reconheça como suficiente para justificar luto, não há ritual, e o próximo paciente já está esperando.
O que se relata quando alguém pergunta está descrito. Um grupo canadense entrevistou 20 oncologistas de três centros sobre a morte de pacientes e publicou os resultados em uma série de artigos. Apareceram impotência, autodúvida, tristeza, sensação de fracasso e um senso de responsabilidade que às vezes começava antes da morte, a partir de um resultado de exame ruim. As perdas descritas como mais difíceis tinham motivos relacionais: proximidade com o paciente e a família, pacientes jovens, pacientes acompanhados por anos e mortes inesperadas. Entre as reações relatadas estavam mudança em decisões de tratamento, distração e afastamento emocional e físico dos pacientes. Os autores registraram ainda o pano de fundo em que tudo isso acontecia, uma cultura profissional com estigma em torno da morte, que trata emoção como fraqueza e se organiza em torno da cura.
Um estudo posterior da mesma pesquisadora, com 22 oncologistas de três centros em Israel, organizou os sintomas relatados em quatro planos: comportamental, com choro e alteração do sono; cognitivo, com autodúvida e ruminação; físico, com dor no peito e fadiga; e emocional, com tristeza, ansiedade, desamparo, culpa, alívio e irritabilidade.
Do lado brasileiro e multiprofissional, um estudo publicado em 2022 na Psicologia, Saúde & Doenças aplicou o ProQOL em uma equipe de oncologia no norte de Minas Gerais, selecionou 20 profissionais que pontuaram para fadiga por compaixão, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêutico e auxiliares de farmácia, e os entrevistou. Cinco conjuntos de vivências organizaram o material: dor e angústia diante do sofrimento e da morte; vínculo e empatia construídos pela convivência longa; sofrimento e mecanismos de defesa, com estratégias como compartimentar e esquecer seletivamente; ambivalência afetiva e satisfação, com gratificação vinda do reconhecimento e da melhora de quem se cuida; e ressignificação, com relatos de crescimento pessoal e mudança na hierarquia do que se considera importante.
Os três são estudos qualitativos, com poucas dezenas de entrevistados, e os 20 brasileiros já tinham sido rastreados como fatigados antes de serem chamados. Eles descrevem o que existe, com que sentido e em que circunstâncias, e não com que frequência. São catálogo, não estatística.
O mesmo diagnóstico aparece em outra família de perdas. Um ensaio publicado em 2017 nos Annals of Family Medicine trata das perdas que o próprio ofício acumula ao longo de uma carreira, mudanças de papel e de identidade profissional, e sustenta que o luto no ambiente de trabalho não é sancionado em lugar nenhum e pode contribuir para o desgaste. É ensaio, não pesquisa original, e vale lê-lo como argumento.
Onde a evidência aponta
O dado mais direto é recente. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 na International Nursing Review reuniu 11 estudos controlados, com 763 participantes da enfermagem, todos medidos pelo próprio ProQOL. As intervenções eram programas de treinamento em enfrentamento, bem-estar emocional e resiliência, com média de seis semanas e nove encontros. Houve aumento da satisfação por compaixão e redução da fadiga e do burnout, e os autores acrescentam que ainda faltam estudos com seguimento longo para saber quanto disso permanece.
A revisão Cochrane sobre estresse ocupacional em profissionais de saúde, atualizada em 2023, é o retrato mais amplo que existe, com 117 estudos randomizados e mais de onze mil participantes, e aponta redução do estresse em prazos curto e médio com intervenções dirigidas ao indivíduo, ressalvando que os estudos reunidos são pequenos e frágeis demais para fechar a conta. Do lado das medidas organizacionais, a referência é uma meta-análise de 2017 do JAMA Internal Medicine, com 19 estudos controlados e 1.550 médicos: o efeito global foi pequeno, e as medidas dirigidas à organização, como carga horária e estrutura da jornada, renderam mais que as dirigidas ao indivíduo, o que levou os autores a concluir que o burnout é um problema da organização de saúde como um todo. Ali o desfecho foi burnout em médicos, e não fadiga por compaixão em equipes de oncologia.
O que sobra é modesto e é real. O fenômeno está descrito há mais de trinta anos, tem instrumento validado em português, tem literatura brasileira própria na oncologia e traz o polo positivo medido junto ao negativo. Programas estruturados de poucas semanas aumentaram a satisfação por compaixão e reduziram a fadiga em estudos controlados. E a direção que a evidência sugere não é a que a intuição daria: no único conjunto em que as duas frentes foram comparadas, começar pelas condições de trabalho rendeu mais do que começar pela resiliência de cada um.
O luto de quem cuida quase não tem onde acontecer. O da família tem, e é o que se sabe reconhecer com mais antecedência: começa antes da morte, é mensurável durante o tratamento e aponta quem tende a sofrer mais depois, o que dá meses de aviso a quem estiver olhando. Reuni o que a evidência mostra sobre reconhecê-lo, e o que ela ainda não mostra sobre modificá-lo, no texto sobre luto antecipatório na oncologia.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
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