Muita gente convive há anos com uma queixa que já tem nome. A pessoa diz “minha gastrite” do mesmo jeito que diria “minha pressão”, toma um omeprazol quando aperta, evita comer tarde da noite e segue a vida. Na maior parte das vezes, ela está certa.
O que sustenta esse acerto também é o que cria o ponto cego. O estômago tem um repertório curto de queixa, e o INCA lista, entre os sinais que devem levar à investigação, dor na boca do estômago, má digestão, dificuldade para engolir, refluxo e perda de peso e de apetite. É isso o que o órgão sabe dizer, e ele usa as mesmas palavras para uma indigestão e para um tumor. Como o rótulo veio cedo e explicava tudo, ele quase nunca é revisto depois.
Por isso a pergunta que decide alguma coisa raramente é qual sintoma a pessoa tem. É há quanto tempo, em quem, e o que mudou.
Por que o diagnóstico costuma vir tarde
Na maioria dos casos, o câncer de estômago é descoberto em estágio avançado, e a razão que o INCA registra na Estimativa 2026 é a ausência de sintomas específicos nas fases iniciais. O tumor dá sinais desde cedo. Os sinais que ele dá são os mesmos de coisas comuns.
A resposta intuitiva a isso é decorar uma lista de sinais de alarme, e ela funciona menos do que se imagina. Uma revisão sistemática reuniu 15 estudos e 57.363 pessoas investigadas por queixas digestivas altas, das quais 458, ou 0,8%, tinham um câncer do trato digestivo alto. A capacidade dos sinais de alarme de identificar quem tinha a doença variou de 0% a 83% entre os estudos.
A ausência de sinal de alarme não é garantia de nada. Esperar emagrecer, vomitar ou sangrar para procurar ajuda deixa passar muita coisa. E o caminho contrário também é verdadeiro, e é a parte tranquilizadora: entre pessoas investigadas justamente por queixa digestiva, menos de 1 em 100 tinha câncer. Azia isolada, empachamento isolado, um enjoo de vez em quando: isso quase sempre é o que parece ser.
Quem tem mais risco
Se a queixa não distingue, o que distingue é quem a tem.
O câncer de estômago está longe de ser raro no Brasil. A Estimativa 2026 do INCA projeta 22.530 casos novos por ano até 2028, sendo 13.830 em homens e 8.700 em mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, é o quinto tipo mais frequente do país, e o quarto entre os homens. Em 2023, foram registrados 14.823 óbitos pela doença.
Esses casos se distribuem de forma desigual pelo mapa. As maiores taxas do país estão na região Sul, em ambos os sexos. Entre os homens, é o segundo câncer mais incidente da região Norte e o terceiro do Nordeste. Morar em uma parte do Brasil ou em outra muda o quanto essa hipótese pesa diante da mesma queixa.
Depois vem a idade, que o INCA lista entre os fatores de risco que não se pode mudar. A doença se concentra a partir da meia-idade. Uma queimação nova aos 30 anos e uma queimação nova aos 55 são eventos clínicos diferentes, ainda que sejam a mesma sensação.
O H. pylori e o câncer de estômago
Entre tudo o que aumenta o risco, uma infecção está isolada à frente das demais: o Helicobacter pylori, uma bactéria que vive no estômago e provoca inflamação crônica. O INCA a descreve como o principal fator de risco conhecido para o câncer gástrico, com uma ressalva que importa muito para quem acabou de descobrir que tem a bactéria: ela é uma causa necessária, mas não suficiente. Em português corrente, ela está presente em quase todos os casos, e mesmo assim a imensa maioria de quem a carrega nunca vai adoecer.
O H. pylori infecta cerca de 40% da população mundial, segundo o consenso brasileiro sobre o tema, e o câncer de estômago não acontece em 40% das pessoas. Do outro lado da conta, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer estima que cerca de 9 em cada 10 casos de câncer gástrico fora da porção mais alta do órgão ocorram em quem teve a infecção. Os demais acontecem sem ela, então não ter a bactéria tranquiliza, mas não dispensa quem tem sintoma de investigar.
Entre os outros fatores reconhecidos pelo INCA estão o tabagismo, o consumo de álcool, o excesso de gordura corporal, o consumo de alimentos conservados no sal e exposições ocupacionais a poeiras e metais pesados.
E há um segundo grupo, diferente em natureza: condições que já são um degrau no caminho. A gastrite atrófica crônica e a metaplasia intestinal aparecem escritas no laudo da endoscopia; a anemia perniciosa é um diagnóstico de sangue, ligado à falta de vitamina B12. Encontrar qualquer uma delas descreve um estômago que merece acompanhamento em vez de alta, e nenhuma significa que exista um câncer. Uma parcela menor dos casos tem origem hereditária, ligada sobretudo ao gene CDH1, e aí a história familiar costuma ser chamativa: vários parentes próximos, muitas vezes jovens. Esse é o desenho de família que descrevi em câncer que anda na família.
Tratar a bactéria muda o risco
Idade não se altera. A região onde se vive, quase nunca. A bactéria, sim: ela se trata com antibióticos, em um esquema de dez a quatorze dias.
E tratá-la reduz o risco, o que foi medido. Dentro de uma revisão sistemática publicada em 2025, oito ensaios randomizados com pessoas saudáveis infectadas pela bactéria mostraram cerca de um terço menos casos de câncer de estômago entre as que receberam tratamento, e cinco ensaios registraram menos mortes pela doença.
O estudo mais direto foi desenhado para quem tem um parente de primeiro grau com câncer de estômago. Quase 1.700 participantes foram acompanhados por cerca de nove anos depois de sorteados para receber o tratamento ou placebo. Câncer gástrico apareceu em 1,2% dos tratados e em 2,7% de quem recebeu placebo. Entre os que de fato eliminaram a bactéria, e aqui já não se trata do sorteio, a diferença foi maior: 0,8% contra 2,9% dos que seguiram infectados.
Esses estudos foram feitos, em geral, em países onde a doença é bem mais comum que aqui. O próprio consenso brasileiro registra que, em regiões de risco intermediário, faixa em que o Brasil se enquadra, não há evidência robusta para tratar a população inteira. O benefício segue existindo por aqui, apenas menor em termos absolutos, e por isso o alvo aqui é mais estreito.
Quando fazer endoscopia
Não existe programa de rastreamento do câncer de estômago no Brasil, e essa é uma posição declarada. O INCA escreve que não há evidência científica de que rastrear esse câncer traga mais benefícios do que riscos, e que por isso ele não é recomendado até o momento.
Sobre o H. pylori, o consenso brasileiro publicado em 2026 pelo Núcleo Brasileiro para Estudo do Helicobacter pylori e Microbiota e pela Federação Brasileira de Gastroenterologia chega à mesma conclusão quanto a testar a população geral, e aponta o esforço para quem tem risco maior.
O mesmo documento orienta endoscopia com biópsias para:
- quem tem sinais de alarme em qualquer idade, ou seja, perda de peso sem explicação, anemia, sangramento ou dificuldade para engolir;
- quem tem 40 anos ou mais e sintomas do estômago;
- quem não melhorou com o tratamento inicial;
- familiares de primeiro grau de pacientes com câncer gástrico, a partir dos 30 anos.
Para o familiar mais jovem, entre 20 e 29 anos, a orientação muda: pesquisar a bactéria por um teste que não exige endoscopia, como o teste respiratório.
O omeprazol e os remédios da mesma família precisam ser suspensos catorze dias antes de qualquer teste do H. pylori, porque tomá-los pode fazer o resultado dar negativo com a bactéria presente. A recomendação é das mais firmes do consenso brasileiro, e pega justamente quem chega a este assunto tomando remédio para o estômago há anos. Essa pausa se combina com quem pediu o exame.
O que muda quando se descobre cedo
O momento do diagnóstico não é indiferente. O câncer de estômago descoberto ainda restrito à parede do órgão é uma doença muito mais tratável, com cirurgia de intenção curativa. O que separa esse cenário do outro costuma ser tempo.
Perder peso sem querer, sem estar fazendo nada para isso, merece explicação independentemente do que o estômago esteja dizendo, e tratei disso em perda de peso no câncer. Queixa de estômago e de intestino também se confundem o tempo todo, nas consultas e nas buscas, embora o intestino tenha sinais próprios e um caminho de prevenção que o estômago não tem, reunidos em câncer de intestino: sinais de alerta e prevenção.
A maior parte das queixas do estômago é exatamente o que aparenta ser, e seguirá sendo. Não é para vigiar cada sensação do corpo. A queixa que não passa, a que mudou de padrão depois de anos estável e a que aparece pela primeira vez em quem já tem idade e história para isso: essas merecem uma consulta.
Se você tem uma queixa antiga do estômago que nunca foi investigada, ou se descobriu que tem o H. pylori e não sabe o que fazer com isso, converse com seu médico ou com um gastroenterologista: a investigação começa por eles. E, se um diagnóstico de câncer de estômago já foi confirmado, estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você e sua família.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.
- Instituto Nacional de Câncer. Câncer de estômago: versão para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: INCA, 2025.
- Coelho LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arquivos de Gastroenterologia, 2026.
- Plummer M, Franceschi S, Vignat J, et al. Global burden of gastric cancer attributable to Helicobacter pylori. International Journal of Cancer, 2015.
- Ford AC, Yuan Y, Park JY, et al. Eradication Therapy to Prevent Gastric Cancer in Helicobacter pylori-Positive Individuals: Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials and Observational Studies. Gastroenterology, 2025.
- Choi IJ, Kim CG, Lee JY, et al. Family History of Gastric Cancer and Helicobacter pylori Treatment. The New England Journal of Medicine, 2020.
- Vakil N, Moayyedi P, Fennerty MB, Talley NJ. Limited value of alarm features in the diagnosis of upper gastrointestinal malignancy: systematic review and meta-analysis. Gastroenterology, 2006.