Card do artigo: cancer de esofago dificuldade para engolir

Câncer de esôfago: quando a comida trava, e o que muda o risco

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Quase ninguém marca consulta dizendo que não consegue engolir. A pessoa vem por outro motivo, e a informação aparece no meio da conversa: parou de comer carne porque dá trabalho, passou a beber água a cada garfada, começou a cortar o alimento em pedaços menores do que cortava antes. Nada disso foi decidido num dia. Foi acontecendo.

Foi acontecendo porque, por dentro, a mudança também é lenta. O esôfago é um tubo, e um tubo que estreita aos poucos vai sendo compensado aos poucos: mastiga-se mais, molha-se mais, escolhe-se o que desce fácil. Quando a queixa enfim vira uma frase dita para alguém, o estreitamento costuma já estar adiantado.

O câncer de esôfago não está entre os mais frequentes, e ainda assim o INCA estima 11.390 casos novos por ano no Brasil para o triênio 2026-2028, sendo 8.750 em homens e 2.640 em mulheres. Essa diferença entre os sexos é grande e não é acaso: ela aponta para as causas, que são o tabaco, o álcool, a bebida muito quente, o refluxo de longa data e o excesso de peso. Nenhuma delas é uma surpresa do destino, e é aí que ainda dá para interferir.

Engasgar e travar não são a mesma queixa

Em casa, as duas queixas recebem o mesmo apelido. Engasgar é tossir ao beber, sentir que o líquido foi pelo caminho errado, precisar pigarrear depois de cada gole. Isso acontece no instante de engolir, lá na garganta, e tem outras causas e outro caminho de investigação, que muitas vezes passa pela avaliação fonoaudiológica.

Travar é diferente. A pessoa engole normalmente e, alguns segundos depois, sente o alimento parado atrás do osso do peito, até que ele desça ou volte. Essa é a queixa do esôfago, e é dela que este texto trata. Quem aponta o ponto no meio do peito está descrevendo um tubo, não uma garganta.

O que faz a dificuldade para engolir preocupar

Travar uma vez com um pedaço mal mastigado de carne acontece com muita gente e não significa nada. O que muda o peso da queixa é a progressão. A dificuldade que preocupa começa no alimento sólido, semanas depois pega o pastoso e, mais adiante, o líquido também para. Ela não vai e volta. Ela avança.

O segundo elemento é a perda de peso, e ela costuma vir junto porque a pessoa passa a comer menos sem perceber que está comendo menos. Emagrecer sem estar tentando é sinal para levar a sério em qualquer contexto, e aqui ele tem uma explicação mecânica bem direta. Dificuldade progressiva para engolir somada a emagrecimento é a combinação que pede endoscopia, e não a próxima consulta de rotina.

Por que a ordem é sempre essa

A sequência do sólido para o líquido não é detalhe de anamnese. Ela é a descrição do que está acontecendo por dentro. Um tumor de esôfago cresce para dentro do canal e vai fechando a passagem, então fica retido primeiro o que é grande e firme, depois o que é pastoso, e só com o canal muito estreito o líquido também para. A luz do tubo vai se fechando.

Isso explica por que a ordem dos sintomas informa mais do que a intensidade deles. Quem engasga com água hoje e come um bife amanhã tem outro problema. Quem há três meses só consegue comer sopa tem um estreitamento.

São dois tumores diferentes dentro do mesmo tubo

O carcinoma de células escamosas nasce do revestimento próprio do esôfago e é mais comum na porção alta e média. O adenocarcinoma nasce lá embaixo, junto ao estômago, a partir de um revestimento que ali não deveria estar. São doenças diferentes. Os dois estreitam o mesmo canal e por isso dão o mesmo sintoma, o que explica por que a diferença raramente chega ao paciente.

Ela importa mesmo assim, e por dois motivos que aparecem adiante: os fatores de risco não pesam igual nos dois, e o tratamento tampouco é o mesmo.

O que o tabaco faz, e o que o álcool faz

O tabaco entra nos dois tipos, e essa é a parte que costuma se perder. Numa análise que reuniu vários estudos do consórcio internacional BEACON, fumar praticamente dobrou o risco de adenocarcinoma de esôfago, com razão de chances de 1,96, e de adenocarcinoma da junção com o estômago, com 2,18. O aumento foi proporcional à quantidade acumulada de cigarros ao longo da vida. No escamoso, o tabaco pesa há décadas.

O mesmo trabalho traz a parte que interessa a quem já fumou: comparado a quem seguia fumando, quem havia parado dez anos ou mais tinha risco menor de adenocarcinoma. Parar continua mudando o número depois de muito tempo de cigarro.

O álcool se comporta de outro jeito, e a diferença é grande o bastante para valer a explicação. Numa análise de onze estudos do mesmo consórcio, beber sete doses ou mais por dia associou-se a um risco quase dez vezes maior de carcinoma escamoso. Para o adenocarcinoma, nenhum aumento. O álcool age no tipo que nasce do revestimento próprio do esôfago, e quem fuma e bebe carrega os dois fatores no mesmo órgão.

Refluxo, peso e o esôfago de Barrett

Do lado do adenocarcinoma o caminho começa em algo muito mais banal: azia. Numa análise conjunta de cinco estudos, com 1.128 casos de adenocarcinoma de esôfago e 4.057 pessoas sem a doença, o risco cresceu junto com a duração dos sintomas de azia e regurgitação. A razão de chances foi de 2,80 para quem tinha sintomas havia menos de dez anos, 3,85 entre dez e vinte anos, e 6,24 acima de vinte anos.

O que o refluxo de longa data faz é trocar o revestimento da parte baixa do esôfago por um tecido parecido com o do intestino, e essa troca é o esôfago de Barrett. O excesso de peso entra por aqui, aumentando o refluxo. Ter azia não é ter câncer, e a maior parte das pessoas com refluxo nunca terá: o Barrett tem um acompanhamento próprio, definido pelo gastroenterologista, e a maioria não evolui. O que não faz sentido é conviver por vinte anos com azia sem nunca ter investigado.

Essa porção baixa do esôfago é vizinha do estômago, e as duas doenças chegam a se confundir no início. O que acontece do outro lado dessa fronteira está em quando o sintoma parece só gastrite.

A temperatura da bebida é um fator por si só

Falta o terceiro fator do lado escamoso, e ele não é uma bebida específica. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, que é o braço da Organização Mundial da Saúde para esse tema, revisou o assunto e classificou como provavelmente cancerígenas para o esôfago as bebidas consumidas muito quentes, acima de 65 °C. A agência resumiu o achado assim: é a temperatura, e não as bebidas em si, que parece ser a responsável.

No mesmo trabalho, o café deixou de ser classificado como possível cancerígeno. É a mesma conclusão vista por outro ângulo: o problema não estava na bebida. A explicação em estudo é a agressão térmica repetida de um revestimento que precisa se refazer muitas vezes ao longo dos anos.

E o chimarrão?

É a pergunta inevitável aqui no Sul, e a resposta não é a que costuma circular. Para o mate bebido em temperatura que não é muito alta, a agência não encontrou evidência conclusiva. O chimarrão entra pela técnica, não por ser mate: a bomba leva o líquido quente direto ao fundo da boca e daí ao esôfago, sem o intervalo que uma xícara dá para esfriar.

E existe medida sul-americana. Dois grandes estudos de caso e controle da região foram reunidos numa análise única, com 1.400 pessoas com carcinoma escamoso e 3.229 pessoas sem a doença, incluindo participantes do Brasil. O risco cresceu conforme o total de mate consumido ao longo da vida, e a associação ficou mais forte quanto mais quente a bebida relatada. No mate morno, o efeito não se separou do acaso. E o que aumentou o risco foi o acumulado da vida inteira, não a quantidade tomada por dia.

A conduta que sai daí é pequena. O INCA orienta consumir bebidas quentes em temperatura inferior a 60 °C, e dá uma régua doméstica para chegar lá: depois que a água atinge o ponto de fervura, esperar em torno de cinco minutos antes de servir. Ninguém precisa de termômetro. Não é abandonar o hábito, é esperar esfriar.

Existe exame para pegar cedo?

Não existe rastreamento de câncer de esôfago, e o INCA é explícito: não há evidência científica de que rastrear traga mais benefícios do que riscos. Isso quer dizer que não há exame de rotina indicado para quem não tem sintoma, mesmo para quem soma vários dos fatores acima.

O que existe é o diagnóstico precoce, e ele se mede pelo tempo entre o primeiro sintoma e a endoscopia. O exame é a endoscopia digestiva alta: uma câmera fina desce pela boca, o médico olha o revestimento do esôfago por dentro e, havendo algo suspeito, retira ali mesmo um fragmento para análise no microscópio. É feito com sedação. É ele que fecha ou afasta o diagnóstico.

O INCA registra que, na maioria das vezes, a dificuldade de engolir já sinaliza doença em estágio avançado. Não é uma frase para assustar quem travou uma vez com um pedaço de pão. É a razão pela qual uma disfagia que progride não deve esperar: o tempo até a endoscopia é a parte desse relógio que ainda dá para encurtar.

E se o diagnóstico se confirmar

A biópsia diz se há câncer e, no mesmo laudo, qual dos dois tipos é. Depois vêm os exames que dizem até onde a doença chegou, dentro da parede do esôfago e fora dela, porque é a extensão que define o tratamento muito mais do que o tamanho do tumor.

O tratamento combina cirurgia, radioterapia e tratamento medicamentoso em arranjos diferentes, e a escolha depende do estágio e daquela distinção entre escamoso e adenocarcinoma, que volta a importar aqui. É uma decisão de equipe, tomada junto com cirurgião, radioterapeuta e endoscopista, e não uma decisão de um profissional só.

O esôfago avisa tarde. Antes do aviso sobra mais coisa a fazer do que depois dele: parar de fumar, olhar o refluxo que dura anos, esperar os cinco minutos, prestar atenção ao peso que cai sozinho, e não deixar que uma dificuldade que vem avançando vire assunto da consulta do ano que vem.


Se você já tem um diagnóstico de câncer de esôfago, ou está investigando um achado da endoscopia, estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você. Se o que existe agora é a dificuldade para engolir, procure seu médico com máxima brevidade para realizar a investigação necessária.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O acompanhamento de cada caso deve ser feito com o seu médico assistente.

Referências

Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.

Instituto Nacional de Câncer. Câncer de esôfago. Rio de Janeiro: INCA, 2025.

Cook MB, Kamangar F, Whiteman DC, et al. Cigarette smoking and adenocarcinomas of the esophagus and esophagogastric junction: a pooled analysis from the international BEACON consortium. Journal of the National Cancer Institute, 2010.

Freedman ND, Murray LJ, Kamangar F, et al. Alcohol intake and risk of oesophageal adenocarcinoma: a pooled analysis from the BEACON Consortium. Gut, 2011.

Cook MB, Corley DA, Murray LJ, et al. Gastroesophageal reflux in relation to adenocarcinomas of the esophagus: a pooled analysis from the Barrett’s and Esophageal Adenocarcinoma Consortium (BEACON). PLoS One, 2014.

Loomis D, Guyton KZ, Grosse Y, et al. Carcinogenicity of drinking coffee, mate, and very hot beverages. The Lancet Oncology, 2016.

Lubin JH, De Stefani E, Abnet CC, et al. Maté drinking and esophageal squamous cell carcinoma in South America: pooled results from two large multicenter case-control studies. Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, 2014.

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