Você marcou o exame porque estava na hora. Não sentia nada, não havia queixa nenhuma, e semanas depois chegou um resultado dizendo HPV positivo.
Positivo para quê, se não há sintoma nenhum? A pergunta é a certa, e a resposta está numa mudança que quase ninguém explicou às mulheres.
O exame mudou, a coleta não
Durante décadas, o preventivo funcionou assim: o material recolhido do colo do útero ia para o microscópio, e alguém procurava ali células com aparência alterada. Encontrar a alteração era o objetivo.
Desde 2024 o SUS passou a usar outro exame como principal, e ele procura outra coisa: o próprio HPV, o vírus capaz de provocar aquelas alterações. A troca faz sentido quando se olha a ordem em que as coisas acontecem. O vírus chega primeiro. A alteração na célula, quando chega, vem anos depois dele. Procurar o vírus é, portanto, chegar mais cedo, quando ainda não há nada para encontrar no microscópio.
Para você, quase nada muda. A coleta é a mesma consulta de sempre, com o mesmo material recolhido do colo do útero. O que mudou foi o que o laboratório faz com ele. A diretriz brasileira prevê ainda a autocoleta, feita pela própria mulher, como forma de alcançar quem não chega ao serviço.
E é por isso que encontrar o HPV não é a notícia de que algo deu errado: é a função do exame. Isso muda tanto o peso da palavra positivo que a diretriz determina que você seja avisada antes mesmo da coleta de que um resultado positivo não indica necessariamente presença de lesões ou mesmo câncer. Se ninguém te disse isso, a falha não foi sua.
As palavras que podem aparecer no papel
Esse aviso quase nunca chega, e o resultado chega com um vocabulário que ninguém traduziu. São três exames diferentes, feitos em momentos diferentes, e o papel pode trazer um, dois ou os três.
HPV positivo vem do teste que procura o vírus. Diz que o HPV está presente, e nada sobre as suas células.
ASC-US, LSIL e HSIL vêm da citologia, que é o preventivo de sempre. Descrevem como as células aparecem no microscópio, do achado mais duvidoso ao mais definido.
NIC 1, NIC 2 e NIC 3 vêm da biópsia, um fragmento minúsculo colhido durante a colposcopia. O número diz até onde a alteração chegou na espessura do tecido: o NIC 1 fica na camada mais superficial, o NIC 3 ocupa quase toda ela. Nenhum dos três atravessou o limite do tecido. É essa travessia que define um câncer.
O que decide o próximo passo é qual dessas famílias apareceu, e com qual tipo de vírus.
O caminho depende do tipo do vírus
Diante dos tipos 16 ou 18, a indicação é ir direto à colposcopia, sem exame intermediário, porque a diretriz registra que esses dois causaram 77% dos casos de câncer de colo do útero. A colposcopia é um exame de consultório, parecido com o preventivo: uma lente aumenta muito a imagem do colo do útero, e permite colher aquele fragmento se algo chamar atenção.
Com outros tipos oncogênicos, não se marca nada de imediato. O laboratório aproveita o material que você já deixou e faz uma citologia com ele, chamada reflexa justamente por isso. Vindo uma daquelas siglas, a colposcopia é indicada. Vindo normal, não. Só quando a coleta foi feita por você mesma é que uma nova amostra precisa ser recolhida no serviço.
Citologia normal não encerra o assunto
Não ir à colposcopia agora está longe de significar que o assunto acabou, porque o que decide aqui é o tempo. A maior parte das infecções por HPV é transitória: o corpo elimina o vírus em um a dois anos, e nada acontece. O que preocupa é a infecção que fica, porque é a permanência do vírus, ano após ano, que vai empurrando a célula para a alteração.
Daí a regra que quase ninguém conhece: depois de 24 meses de persistência de tipos não 16-18, você vai para a colposcopia mesmo com a citologia normal. E um teste negativo compra cinco anos até a rodada seguinte, porque erra menos do que a citologia sozinha.
O vírus, o tempo e o parceiro
Infecção que some sozinha levanta a pergunta seguinte: some com o quê? Não existe remédio que elimine o HPV. O que existe contra ele é a vacina, aplicada antes da exposição, sobre a qual escrevi em vacina contra o HPV: quem deve tomar e por quê. Depois que o vírus chegou, quem o elimina é o seu próprio organismo, na maioria das vezes.
Essa eliminação acontece em silêncio e pode levar anos, o que tem uma consequência prática pouco dita: o exame não data nada. Ele informa que o HPV está presente agora, não quando chegou, e uma infecção adquirida há dez anos aparece igual a uma de ano passado. Um resultado positivo, portanto, não aponta ninguém. O que ele não descarta é a lesão, e é ela que se trata quando existe.
Se a biópsia trouxe NIC
Antes de decidir qualquer coisa, ajuda saber o que costuma acontecer com essas lesões quando são apenas observadas. Uma revisão reuniu 89 estudos e mediu exatamente isso em mulheres acompanhadas sem tratamento.
O NIC 1 regrediu sozinho em cerca de 60% delas, e chegou a câncer em 0,03%, dois casos em mais de sete mil mulheres. O NIC 2 regrediu em cerca de 55%, proporção que sobe para 66% entre as mulheres de até 30 anos, com progressão a câncer em 0,3%.
Esses números descrevem quem foi acompanhada, e não quem foi tratada. Servem para dimensionar o tamanho do problema, e deixam de pé a pergunta que interessa: tratar ou acompanhar o seu.
O que ainda não está definido no Brasil
Essa é justamente a pergunta que a diretriz brasileira ainda não responde. A publicada em 2025 é a Parte I, sobre rastreamento, e ela declara que as condutas a partir da colposcopia com doença presente serão tratadas na Parte II, ainda não publicada.
A escolha entre tratar e acompanhar um NIC é, portanto, individual, feita com o ginecologista, considerando o grau da lesão, a sua idade e o desejo de engravidar. Um texto não substitui essa conversa, e nem deveria.
Também não substitui a consulta que um sintoma pede, e essa independe do que diga o papel: sangramento fora do período menstrual, depois da relação ou após a menopausa merece avaliação seja qual for a data do último exame, e isso está na própria diretriz.
Se você recebeu um resultado alterado, quem conduz a investigação é o ginecologista, e levar o papel à próxima consulta resolve a maior parte das dúvidas deste texto. Se um diagnóstico de câncer já tiver sido confirmado, estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento ao seu lado.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I. Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
- Loopik DL, Bentley HA, Eijgenraam MN, et al. The Natural History of Cervical Intraepithelial Neoplasia Grades 1, 2, and 3: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Lower Genital Tract Disease, 2021.