Mesotelioma pleural: o que é, como aparece e como se trata hoje

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Muita gente ouve a palavra mesotelioma pleural pela primeira vez já no laudo da biópsia. É um tumor raro, pouco comentado fora do consultório, e o nome não ajuda: não lembra pulmão nem nada do que vinha sendo investigado até ali.

Em resumo

  • O mesotelioma pleural é um tumor raro da pleura, a membrana que reveste o pulmão por fora.
  • O amianto é o fator de risco mais conhecido, mas em muitos pacientes nenhuma exposição é encontrada.
  • Ele costuma se manifestar por falta de ar e líquido em volta de um pulmão, e o exame desse líquido muitas vezes não basta para o diagnóstico, que em geral exige biópsia da pleura.
  • O subtipo escrito no laudo pesa no prognóstico e na escolha do tratamento.
  • O tratamento é feito principalmente com medicamentos, e a imunoterapia passou a fazer parte dele desde o início.

O mesotelioma também cresce de um jeito diferente. A maior parte dos cânceres do tórax forma uma massa arredondada, que a tomografia mostra e da qual se pode colher material com uma agulha. O mesotelioma cresce como um revestimento: espalha-se pela pleura em placas e espessamentos, e o primeiro sinal visível costuma ser o líquido que essa pleura doente passa a produzir. É por isso que o diagnóstico demora, e é também por isso que retirá-lo por inteiro numa cirurgia é tão difícil.

O que é o mesotelioma, e por que ele não é um câncer de pulmão

A pleura é formada por duas folhas finas, uma colada ao pulmão e outra à parede do tórax, revestidas por um tipo de célula chamado mesotélio. O mesotelioma nasce dessas células. Ele envolve o pulmão por fora, mas não nasce dentro dele, e por isso se comporta e se trata de forma diferente do câncer de pulmão.

O mesotélio também reveste o abdômen e o coração, e o tumor pode surgir nesses lugares. Num levantamento nacional dos Estados Unidos, com mais de 19 mil casos, cerca de oito em cada dez estavam na pleura. O mesotelioma do peritônio, a membrana do abdômen, tem investigação e tratamento próprios.

No Brasil, o que se sabe do mesotelioma vem dos atestados de óbito, porque ele não entra na estimativa anual de câncer do INCA. Entre 1980 e 2003, a taxa de mortalidade pela doença quase dobrou no país. Outro estudo calculou que cerca de um terço desses óbitos nem aparece no sistema oficial de registro.

“Mesotelioma benigno” é um nome que ficou para trás. Boa parte das lesões que já foram chamadas de mesotelioma localizado ou benigno é outro tumor, o tumor fibroso solitário da pleura, que não nasce do mesotélio, na maioria das vezes é benigno e, nesse caso, se resolve com a retirada cirúrgica.

O que se sabe sobre a causa

O fator de risco mais conhecido é o amianto, uma fibra mineral usada durante décadas na construção civil e na indústria. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classifica todas as suas formas como cancerígenas, e o mesotelioma está entre os tumores que ele causa. Quando existe, a exposição costuma ter ocorrido muito antes: numa revisão com mais de mil casos de origem ocupacional, 96% tiveram um intervalo de pelo menos 20 anos entre o início da exposição e a doença.

Em parte dos pacientes, porém, nenhuma exposição é encontrada. Num estudo francês com 437 casos, cerca de um terço dos diagnósticos em mulheres e uma parcela menor nos homens não pôde ser atribuída ao amianto. Ter tido contato com o material aumenta o risco, mas não determina a doença, e não ter tido contato não afasta o diagnóstico.

Fora do amianto, as causas conhecidas são poucas. Radioterapia feita anos antes para outro câncer aumenta o risco, mas o efeito é pequeno, e menos de 5% dos pacientes têm uma alteração hereditária num gene chamado BAP1.

Como ele costuma aparecer

Os sintomas mais comuns são falta de ar, dor no peito e perda de peso, e costumam se instalar ao longo de meses. Boa parte da falta de ar vem do líquido acumulado em volta do pulmão, o derrame pleural, que no mesotelioma costuma ser de um lado só.

Derrame pleural tem muitas causas, quase todas bem mais comuns que o mesotelioma, como insuficiência cardíaca e pneumonia. Pesa mais a combinação de derrame que volta depois de drenado com dor persistente do mesmo lado.

Por que o diagnóstico costuma exigir biópsia

O primeiro passo é quase sempre retirar o líquido com uma agulha, o que alivia a falta de ar e permite analisá-lo. No mesotelioma, porém, as células do tumor nem sempre aparecem nesse líquido. Numa revisão sistemática sobre o exame do líquido pleural, ele identificou o mesotelioma em menos de um terço dos casos. Um exame negativo não afasta a suspeita.

Por isso o diagnóstico em geral depende de uma biópsia da própria pleura, feita de preferência por toracoscopia: uma câmera introduzida no tórax por um pequeno corte, que permite ver a pleura e retirar fragmentos de mais de um ponto.

No laboratório, o patologista usa a imuno-histoquímica, um conjunto de exames que mostra quais proteínas a célula produz, para separar o mesotelioma de outros tumores que se espalham pela pleura e de inflamações benignas que podem imitá-lo.

O que o subtipo escrito no laudo muda

O laudo traz um de três subtipos, conforme o aspecto das células ao microscópio. O epitelioide é o mais frequente: cerca de sete em cada dez casos numa grande base europeia. Os outros dois, o sarcomatoide e o bifásico, que mistura os dois padrões, dividem o restante.

O subtipo epitelioide está associado a uma evolução mais lenta, e o sarcomatoide a uma doença mais agressiva. Os subtipos também respondem de forma diferente aos tratamentos, e por isso essa palavra do laudo entra na escolha do primeiro tratamento.

Mesotelioma tem cura? Como se trata hoje

Na maior parte dos casos o mesotelioma não tem cura com os tratamentos atuais, e o objetivo passa a ser outro: controlar a doença pelo maior tempo possível, aliviar os sintomas e preservar a qualidade de vida. A expectativa de vida varia muito de uma pessoa para outra, conforme o subtipo, a extensão da doença e a resposta ao tratamento. No seguimento de cinco anos do CheckMate 743, o principal estudo de imunoterapia nessa doença, uma parte dos pacientes seguia viva.

O tratamento principal é feito com medicamentos. No primeiro tratamento, o que os médicos chamam de primeira linha, as estratégias principais hoje são:

  • a imunoterapia combinada, com nivolumabe e ipilimumabe, sem quimioterapia, testada no estudo CheckMate 743;
  • a quimioterapia com platina e pemetrexede associada ao pembrolizumabe, outra imunoterapia, combinação testada no estudo IND.227.

O subtipo pesa nessa escolha. Nos estudos, o ganho com a imunoterapia combinada foi maior nos subtipos não epitelioides, e a diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica de 2025 dá preferência a ela nesse grupo, com a quimioterapia associada ao pembrolizumabe também como opção. No epitelioide, as duas estratégias são opções, e a quimioterapia sem imunoterapia também pode ser considerada. A decisão leva em conta a idade, as outras doenças, o estado geral e a preferência de quem vai ser tratado. Ainda não há resultado de estudo que compare essas estratégias diretamente entre si.

Nem todo paciente terá os mesmos efeitos. A imunoterapia pode inflamar órgãos sadios, como a tireoide, o fígado, a pele ou o intestino, o que em geral se controla quando é reconhecido cedo, como detalhei ao falar dos efeitos colaterais da imunoterapia. A quimioterapia pode trazer cansaço, náusea e queda das células do sangue, com intensidade muito variável de uma pessoa para outra.

A cirurgia ocupa um lugar menor do que muita gente espera. O estudo britânico MARS 2, publicado em 2024, incluiu pacientes cujo tumor podia ser retirado e comparou uma cirurgia ampla da pleura, associada à quimioterapia, com a quimioterapia isolada. O grupo operado viveu menos e teve mais complicações graves. A diretriz americana de 2025 passou a recomendar que essa cirurgia não seja oferecida apenas porque o tumor parece retirável, ficando para casos muito selecionados, em geral de doença inicial do subtipo epitelioide, decididos em equipe com o cirurgião torácico.

O líquido que volta a se acumular tem solução própria. Uma opção é a pleurodese, em que se usa talco para colar as duas folhas da pleura e impedir que o líquido retorne. A outra é o cateter pleural, um tubo fino que fica no tórax e permite drenar o líquido em casa. Num estudo britânico com derrames causados por diferentes cânceres, as duas aliviaram a falta de ar de forma parecida, e a escolha depende de cada caso.

A radioterapia entra sobretudo para aliviar a dor, e o controle dos sintomas começa junto com o primeiro tratamento.


No mesotelioma, boa parte das decisões depende do que a biópsia e o laudo mostram, e é a partir daí que costumo entrar, no tratamento e no acompanhamento, junto com o cirurgião e o patologista. Quem já tem o diagnóstico confirmado pode contar comigo, como oncologista, para planejar o tratamento e seguir com ele ao longo dos anos.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

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