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Efeitos colaterais da imunoterapia: por que eles seguem outra lógica

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Quem já fez quimioterapia costuma chegar à imunoterapia esperando a mesma previsibilidade: efeito que vem em dia mais ou menos marcado, com nome conhecido, e que em boa parte termina junto com o tratamento. É uma expectativa razoável, e ela organiza a vida de muita gente durante meses.

Com a imunoterapia esse calendário não existe. O efeito pode surgir na segunda semana ou no oitavo mês, pode atingir um órgão que ninguém estava vigiando, e pode aparecer depois que o tratamento já acabou. Em compensação, a maior parte das pessoas atravessa o tratamento sem nenhum problema sério, sobretudo quem faz uma imunoterapia só.

A diferença toda vem de uma coisa, e ela explica o resto do texto: aqui o efeito colateral é a sua própria defesa inflamando um órgão sadio.

De onde vêm esses efeitos

É comum ouvir na consulta que a pessoa teve “uma reação” ou “uma alergia” ao remédio. A palavra é compreensível, e o que acontece é outra coisa.

A imunoterapia funciona liberando as células de defesa do paciente para atacar o tumor. Essas mesmas células, uma vez liberadas, podem se voltar contra tecidos saudáveis e inflamar o que estava íntegro. O que aparece não é uma reação à substância, como numa alergia. É a defesa da própria pessoa agindo com vigor onde não deveria.

Duas consequências saem daí, e mudam o que se faz quando um efeito aparece.

Não é caso de reduzir a dose. Diferente da quimioterapia, quando surge uma inflamação significativa a conduta não é diminuir a quantidade de medicação, e sim tratar a inflamação. As diretrizes de manejo são explícitas nesse ponto.

Interromper a medicação não desliga o processo. As células liberadas seguem trabalhando por um tempo, e a própria medicação permanece no organismo por meses depois da última aplicação. Daí a característica mais desconcertante desse tratamento: o efeito pode surgir semanas ou meses depois do fim, quando a pessoa já nem liga uma coisa à outra.

Onde aparece, quando, e o que fazer

Não existe calendário, mas existe um padrão. Numa análise que reuniu 23 estudos clínicos e mais de 8 mil pacientes, as manifestações de pele foram das mais precoces e as dos rins das mais tardias, com o restante distribuído entre elas. Na prática isso quer dizer que a coceira das primeiras semanas e a falta de ar do sexto mês são igualmente plausíveis, e que não ter sentido nada nos primeiros ciclos não encerra o assunto.

Quanto ao que fazer, o critério é mais simples do que a lista de órgãos sugere, e vem direto do mecanismo: como se trata de inflamação, o que decide o desfecho é o tempo até ela ser contida. Por isso um punhado de queixas não espera.

Avise no mesmo dia, sem esperar a próxima consulta:

  • Intestino: ir ao banheiro muito mais vezes do que o seu normal, ainda mais se vier sangue ou muco.
  • Respiração e peito: falta de ar que apareceu, tosse seca nova, dor no peito.
  • Fígado: amarelado nos olhos ou na pele, urina cor de chá.
  • Força e músculos: fraqueza nova, pálpebra caindo, visão dupla, dificuldade para engolir. É o conjunto que menos parece grave e o que mais pede avaliação rápida.
  • Glândulas: cansaço que dormir não conserta, junto com enjoo, falta de vontade de comer e tontura ao levantar da cama. Ou, do outro lado, sede que não passa por mais água que se beba, com muita urina e perda de peso em poucos dias.
  • Cabeça: confusão mental, ou qualquer piora rápida do estado geral.

Nenhum desses sinais quer dizer necessariamente algo grave, e a maior parte deles terá explicação simples. Eles apenas não são queixas para deixar de mencionar.

Podem esperar a consulta de rotina, sem deixar de ser ditas: coceira, manchas na pele, cansaço que está igual há semanas, dores nas articulações, alteração de paladar e boca seca.

E há um erro específico que vale nomear: não trate a diarreia por conta própria com remédio para segurar o intestino. Esse tipo de medicação até tem lugar em algumas situações, mas quem decide isso é a equipe, depois de olhar o quadro. Tomado por conta, ele disfarça uma inflamação que precisa de outro tratamento, e o tempo perdido conta.

Um comentário sobre frequência, para calibrar a atenção sem espalhá-la: as manifestações de pele são as mais comuns de todas, seguidas pelas de tireoide e pelas dores articulares. Os quadros verdadeiramente graves são raros. Eventos cardiovasculares ligados a essas medicações ocorreram em torno de 1% dos tratados numa revisão que reuniu centenas de estudos, e a inflamação do músculo cardíaco é ainda menos frequente que isso. O diabetes de instalação rápida, por destruição das células que produzem insulina, aparece entre 0,2% e 1,4% dos casos, segundo um consenso internacional de especialistas publicado em 2025.

O tratamento do efeito é conter a inflamação

Se o problema é defesa inflamando um órgão sadio, o tratamento é conter essa inflamação. Na prática isso quer dizer corticoide, em dose maior do que a que as pessoas costumam associar a esse remédio, com retirada lenta ao longo de semanas. Nos quadros moderados isso se faz em comprimido, em casa. Nos graves, na veia e muitas vezes com internação. A retirada precisa ser gradual porque a inflamação tende a voltar quando a redução é rápida demais, e é por isso que a receita não termina quando o sintoma melhora.

Duas dúvidas aparecem sempre nessa hora.

A primeira é se o corticoide atrapalha o tratamento do câncer, já que ele reduz a atividade do sistema imune. A preocupação é legítima, e a resposta é que a inflamação não tratada é o risco maior e mais imediato: por isso ela se trata quando precisa ser tratada. As diretrizes de manejo orientam usar a menor dose que resolva, pelo menor tempo necessário, e quem calibra isso é a equipe que prescreve.

A segunda é se ter um efeito desses significa parar para sempre. Nem sempre. A retomada é decidida caso a caso, pesando a gravidade do que aconteceu, o órgão envolvido e o quanto o tratamento estava ajudando. Há situações em que o retorno não é indicado, e outras em que ele acontece assim que a inflamação está controlada. Vale saber de antemão que, entre quem retoma, cerca de três em cada dez apresentam de novo o mesmo tipo de inflamação, segundo um levantamento internacional de registros de efeitos adversos. Isso não é motivo para não retomar, e sim para avisar cedo se o sintoma reaparecer.

O que se resolve e o que pode ficar

A mesma lógica explica por que uma parte desaparece e outra não. Onde houve apenas inflamação, o tecido se recupera e a função volta. Onde a inflamação queimou a fábrica de um hormônio, não há o que recuperar, e o que falta passa a ser reposto.

Num acompanhamento prolongado de pacientes que fizeram imunoterapia depois de uma cirurgia de melanoma, boa parte das manifestações que ainda existiam três meses após o fim do tratamento acabou desaparecendo ao longo dos anos seguintes. As glândulas são a exceção conhecida: quando a tireoide para de funcionar, ela geralmente não volta, e a reposição passa a fazer parte da rotina, sem prazo para acabar. Isso costuma soar como má notícia e merece proporção: é um comprimido por dia, com ajuste por exame de sangue, num quadro que se controla bem.

Fora das glândulas, a queixa que mais costuma persistir é a dor nas articulações, que em alguns estudos seguiu presente em cerca de metade de quem a teve. Também tem tratamento, e vale dizer que ela existe para que ninguém a atribua simplesmente à idade ou ao cansaço de ter passado por um tratamento.

O aviso que vale para o resto da vida

Há uma consequência do mecanismo que quase não é dita e que talvez seja a informação mais útil deste texto.

Como a defesa continua ativa depois que a medicação para, o alerta também não tem data de validade. Um quadro novo pode ter relação com uma imunoterapia encerrada meses ou anos antes, e quem estiver atendendo você naquele momento provavelmente não vai fazer essa ligação sozinho, porque nada no seu exame aponta para lá.

Então: diga que fez imunoterapia a qualquer médico que atendê-lo, inclusive anos depois de ter terminado e inclusive num pronto-socorro. Você é a única pessoa presente em todos os seus atendimentos, e essa frase muda o raciocínio de quem está do outro lado.

Três outras informações ajudam na consulta com a sua própria equipe, e todas dependem de quem vive a rotina: quando o sintoma começou, porque três dias e três semanas levam a condutas diferentes; o quanto mudou em relação ao seu normal, principalmente no intestino, já que “fui ao banheiro quatro vezes hoje, e o normal para mim é uma” entrega muito mais do que “estou com diarreia”; e o que você tomou por conta, incluindo chá e suplemento, porque várias dessas coisas alteram exatamente os exames que serão usados para entender o quadro.

Nada disso significa que algo vá dar errado. A maior parte das pessoas faz imunoterapia sem complicação séria, e a atenção descrita aqui existe porque, quando alguma coisa acontece, o que decide o desfecho é o tempo até tratar. Quem entende o que a imunoterapia faz e por que ela não serve para todo mundo costuma conviver melhor com esse tipo de vigilância, porque enxerga o que está sendo trocado.

Trato pacientes em imunoterapia e acompanho de perto essa parte do tratamento. Estou à disposição, como oncologista, para conduzir esse tratamento junto com você e sua família.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Schneider BJ, Naidoo J, Santomasso BD, et al. Management of Immune-Related Adverse Events in Patients Treated With Immune Checkpoint Inhibitor Therapy: ASCO Guideline Update. Journal of Clinical Oncology, 2021.
  • Tang SQ, Tang LL, Mao YP, et al. The Pattern of Time to Onset and Resolution of Immune-Related Adverse Events Caused by Immune Checkpoint Inhibitors in Cancer: A Pooled Analysis of 23 Clinical Trials and 8,436 Patients. Cancer Research and Treatment, 2021.
  • Dolladille C, Ederhy S, Sassier M, et al. Immune Checkpoint Inhibitor Rechallenge After Immune-Related Adverse Events in Patients With Cancer. JAMA Oncology, 2020.
  • Goodman RS, Lawless A, Woodford R, et al. Extended Follow-Up of Chronic Immune-Related Adverse Events Following Adjuvant Anti-PD-1 Therapy for High-Risk Resected Melanoma. JAMA Network Open, 2023.
  • Patrinely JR Jr, Johnson R, Lawless AR, et al. Chronic Immune-Related Adverse Events Following Adjuvant Anti-PD-1 Therapy for High-risk Resected Melanoma. JAMA Oncology, 2021.
  • Zhu L, Cheung YM, Chiang C, et al. Consensus-based disease definitions for endocrine immune-related adverse events of immune checkpoint inhibitors. Journal for ImmunoTherapy of Cancer, 2025.
  • Nielsen DL, Juhl CB, Nielsen OH, et al. Immune Checkpoint Inhibitor-Induced Cardiotoxicity: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Oncology, 2024.

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