Card do artigo: quimioterapia vermelha e branca

Quimioterapia vermelha e branca: o que esses nomes querem dizer

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Terminei a vermelha, agora começo a branca.

Quem faz tratamento ouve essa frase antes de ouvir qualquer explicação sobre ela, quase sempre de outro paciente que já está ali há mais tempo. Quimioterapia vermelha e branca é como o assunto se organiza entre quem passa pela mesma sala, e é assim que ele chega em casa.

Os apelidos viajam bem, e circulam tanto que instituições de referência precisaram publicar textos explicando o que significam. O que quase nunca acompanha a viagem é de onde eles saíram. E é isso que explica por que um dos dois ainda diz alguma coisa e o outro deixou de dizer pelo caminho.

De onde saíram esses nomes

Na experiência de quem atende, a frase vem dos esquemas de câncer de mama.

Esses esquemas combinam, em sequência, um medicamento de aspecto avermelhado e depois outros que são incolores. Quem passa por esses tratamentos vê a diferença com os próprios olhos, uma etapa por vez, e a vermelha e a branca viraram o jeito natural de nomear as duas fases. Ali o apelido é preciso, porque descreve exatamente o que está acontecendo com aquela pessoa.

É um caminho que muita gente percorre. As diretrizes do Ministério da Saúde para o câncer de mama trazem justamente um esquema com essa forma, primeiro a antraciclina e depois o taxano, e mama é o tumor mais frequente entre mulheres no Brasil, excluídos os de pele não melanoma. É muita gente passando pela mesma sequência, na mesma sala, conversando entre si. O vocabulário saiu dali e se espalhou.

O que se perdeu no meio do caminho é que ele descrevia aquela sequência, não a quimioterapia em geral. Quando um homem com câncer de intestino ou uma pessoa com linfoma usa os mesmos nomes, está usando uma palavra emprestada de um protocolo que não é o dele.

O que sobreviveu à viagem

A vermelha continua funcionando, e por um motivo concreto: ela nomeia uma família real de medicamentos, as antraciclinas, cuja solução é avermelhada. O apelido não é impressão de ninguém, é o que se vê entrar na veia.

A urina pode ficar avermelhada por um ou dois dias depois da aplicação. A cor vem do medicamento e não é sinal de sangue na urina, embora costume assustar na primeira vez. Quando dura mais que isso, ou vem acompanhada de dor ou ardência para urinar, pode não ser só a cor do medicamento, e a equipe precisa saber.

Essa família viaja junto com o nome. Duas das mais conhecidas são a doxorrubicina e a epirrubicina, e a primeira é usada em leucemias, linfomas, câncer de pulmão, de ovário, de tireoide, sarcomas e alguns tumores da infância, além do câncer de mama onde a frase nasceu. Quem tem linfoma e diz que faz a vermelha está dizendo algo verdadeiro.

O apelido para aí, e é pouco. A cor identifica a família e não diz qual medicamento é, em que dose, combinado com o quê, nem por quantos ciclos.

O que não sobreviveu

Fora daquela sequência, a branca não nomeia nada.

Ela nasceu por oposição: se aquela era a vermelha, esta era a outra. Ali, dentro do esquema, a outra tinha nome e família própria. Solta no mundo, virou o nome de tudo o que entra na veia sem cor.

O A.C.Camargo descreve a branca como “diversas classes de medicamentos que não apresentam nenhuma cor”, e cita ciclofosfamida, taxanos, gencitabina e vinorelbina. A lista junta famílias sem parentesco entre si, que só têm em comum o fato de serem transparentes.

Por isso duas pessoas que dizem fazer a branca podem estar em tratamentos que não se parecem em nada. A palavra descreve a aparência do soro, e é até aí que ela vai.

A crença que pegou carona

A palavra não parou aí na cabeça de quem a usa. Junto com o apelido pegou carona uma leitura: a de que a vermelha seria a quimioterapia forte e a branca, a fraca.

Nada na cor sustenta isso. O A.C.Camargo escreve que a cor vem das características físico-químicas dos componentes e não influencia os efeitos colaterais. Quem determina o peso de um tratamento é a dose, a combinação de medicamentos e o protocolo de cada tumor.

Saber que vai fazer a vermelha faz muita gente esperar o pior por semanas, com base num apelido que não descreve nem o medicamento nem o que ele vai provocar. Do outro lado existe a superstição gêmea, a de que sentir pouco efeito colateral significaria que o tratamento não está funcionando.

Os efeitos esperados de cada esquema já são conhecidos antes da primeira aplicação. É sobre eles que a conversa rende.

O que ficou para trás

Os nomes descrevem duas etapas de uma sequência. Tudo o que não cabe nessas duas etapas ficou para trás quando o vocabulário saiu da sala.

O calendário ficou. A quimioterapia se organiza em ciclos, e um ciclo é um período de tratamento seguido de um período de descanso, que serve para o corpo repor as células saudáveis atingidas junto. O ciclo não é só a aplicação. O intervalo de vinte e um dias é o mais conhecido, mas existem ciclos de duas e de quatro semanas, aplicações semanais e comprimidos tomados todo dia. Também não há um total padrão de sessões: o médico define quando as aplicações terminam em função das características da doença.

O tratamento sem cor nenhuma também ficou para trás. Existe quimioterapia em comprimido, tomada em casa, e ela é quimioterapia do mesmo jeito que a da poltrona de infusão.

E aqui o nome cobra na direção contrária. Nem todo comprimido usado no câncer é quimioterapia. Há também terapia-alvo e hormonioterapia, que agem por outro mecanismo e têm outros efeitos. Uma pessoa que toma comprimido em casa pode estar em qualquer um dos três, e quem resolve essa dúvida é o nome do medicamento.

O nome é o que abre a porta

Quem sai de uma consulta com dúvida costuma procurar a resposta sozinho, no celular, à noite. É nessa hora que o apelido cobra o preço.

Digitar “efeitos colaterais da quimioterapia branca” é buscar resposta sobre uma categoria que não existe. O que vier de volta pode ser sobre um medicamento que a pessoa não recebe, com efeitos que não são os dela. Muito do que existe escrito sobre a branca descreve o esquema de mama de onde o apelido saiu, que pode não ter relação com o tratamento dela. A busca devolve um resultado enviesado, porque a pergunta partiu de um nome que não identifica nada.

Com o nome do medicamento acontece o contrário. Ele abre o material das instituições de referência, permite entender o que esperar daquele esquema em particular, e é a mesma palavra que qualquer profissional vai reconhecer em qualquer serviço. É também o que permite reconhecer, com os sinais de alarme de quem está em tratamento, o que merece uma ligação e o que pode esperar a próxima consulta.

É o nome do princípio ativo que serve para isso, e não o da marca: é ele que aparece igual em qualquer serviço e em qualquer material. Costuma estar escrito no papel que o serviço entrega no início do tratamento, e uma foto no celular resolve, mesmo que seja difícil de pronunciar, o que costuma acontecer.

Os apelidos podem continuar existindo. Eles são confortáveis, e no lugar onde nasceram descrevem bem o que está acontecendo. Fora dali, quem responde por você é o nome do medicamento, e ele cabe na gaveta ou no celular, ao lado do apelido.

Estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • A.C.Camargo Cancer Center. Entenda a diferença entre quimioterapia vermelha e branca. São Paulo, 2022.
  • Instituto Nacional de Câncer. Quimioterapia. Rio de Janeiro, 2023.
  • Ministério da Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Mama. Conitec, 2024.
  • National Cancer Institute. Chemotherapy to Treat Cancer. NCI, 2025.
  • National Cancer Institute. Doxorubicin Hydrochloride. NCI, 2025.
  • U.S. National Library of Medicine. Doxorubicin. MedlinePlus, 2012.

Precisa de uma avaliação?

Atendo em Porto Alegre e em Canoas. Se você quer agendar uma consulta comigo, entre em contato pelo WhatsApp ou veja os locais de atendimento.