Quase todos os efeitos da quimioterapia ficam entre a pessoa e o próprio corpo. O enjoo, o cansaço, a boca que arde: quem não convive de perto não fica sabendo. A queda de cabelo é a exceção, e é isso que a faz pesar diferente. Ela transforma um diagnóstico que era assunto de casa em assunto de quem cruza na rua.
Talvez por isso seja também o efeito sobre o qual mais circula informação errada. A primeira delas está embutida na própria forma de perguntar: quase todo mundo pergunta quando o cabelo vai cair, e não se vai cair.
Nem toda quimioterapia faz o cabelo cair
Entre as pessoas que fazem quimioterapia, cerca de 65% perdem cabelo. O número diz que é frequente, e diz também que não é regra.
A razão de acontecer é a mesma de todo o resto: a quimioterapia age sobre células que se multiplicam depressa, e o folículo do cabelo é uma delas, como escrevi em quimioterapia: como funciona e por que os efeitos colaterais são esses.
O que decide não é o corpo de quem recebe: é a medicação. Algumas classes provocam queda em mais de 80% de quem as usa; outras ficam entre 10% e 50%. Como essa diferença está no esquema, e o esquema é definido antes da primeira aplicação, essa é uma das poucas coisas do tratamento que dá para saber de antemão. Basta perguntar.
Se a resposta for que o seu esquema derruba o cabelo, a pergunta seguinte também tem resposta concreta. A queda costuma começar poucas semanas depois da primeira aplicação, e o INCA a descreve como total ou parcial, levando em geral de 14 a 21 dias. Ela não acontece fio a fio ao longo de meses: concentra-se nesse intervalo. Isso assusta mais do que se fosse aos poucos, e é justamente por isso que saber a data ajuda, porque impede que o susto seja lido como piora da doença.
A touca gelada
Sabendo que vai acontecer e quando, vem a pergunta que interessa: dá para evitar?
A medida com melhor evidência é a touca gelada, usada durante a aplicação. O couro cabeludo resfriado recebe menos sangue, e menos sangue significa menos medicação chegando ao folículo do cabelo. Loções e tônicos aparecem muito nessa conversa, e o lugar deles é outro: agem sobre o cabelo que volta, não sobre o que está caindo.
É essa frase que costuma acender um alerta. Se a medicação chega menos àquela região, não estaria sobrando ali um lugar protegido para a doença? A dúvida é boa e foi medida: numa análise que reuniu quase dois mil pacientes que usaram a touca e mais de mil que não usaram, metástase no couro cabeludo apareceu em 0,61% do primeiro grupo e 0,41% do segundo, diferença sem significado estatístico.
Resolvida a segurança, sobra a eficácia. Num estudo com mulheres em tratamento para câncer de mama, divididas em dois grupos, metade das que usaram a touca preservou cabelo a ponto de não precisar de peruca ou lenço, contra nenhuma das que não usaram. Metade não é todo mundo, e a comparação é contra zero.
O benefício vai além do tempo do tratamento. Entre as pessoas que ainda tinham falha no cabelo seis meses depois do fim da quimioterapia, o grupo que usou a touca ficou em 13,5% contra 52% do grupo que não usou. Ela reduz, portanto, também a parte da queda que não se resolve sozinha.
Com números assim, a pergunta natural é por que a touca não é padrão em todo lugar. O desconforto explica parte: calafrio em cerca de 4 de cada 10 pessoas, peso na cabeça, e dor de cabeça em cerca de 3 de cada 10. Perto de 1 em cada 5 interrompe o uso no meio do caminho, na maioria das vezes por ver o cabelo caindo mesmo assim. O acesso explica o resto. No Brasil o aparelho tem autorização da ANVISA, mas está disponível em parte dos serviços privados e ainda é raro na rede pública.
Some-se a isso o detalhe que mais faz diferença na prática: a touca protege o cabelo que ainda está na cabeça. Começar no terceiro ciclo é chegar depois que a queda já aconteceu. Por isso esse assunto pertence à consulta em que o tratamento é proposto, e não ao dia em que o cabelo começa a cair.
O couro cabeludo sem cabelo é pele exposta
Quando a queda acontece mesmo assim, ou quando não há touca disponível, aparece um cuidado que quase ninguém antecipa. A cabeça que sempre teve cabelo nunca precisou de proteção solar, e passa a precisar de um dia para o outro.
O motivo é duplo. Além de a pele ficar descoberta, alguns quimioterápicos aumentam a sensibilidade ao sol: o INCA registra que certos remédios do tratamento podem causar escurecimento da pele exposta aos raios solares. Ou seja, a área acabou de ficar exposta e ao mesmo tempo ficou mais reativa.
As orientações do próprio INCA são diretas: protetor solar fator 30 nas áreas expostas, evitar o sol entre 10 e 16 horas, e usar chapéu ou boné para proteger a face e a cabeça. Chapéu resolve melhor que protetor num couro cabeludo recém-descoberto, porque cobre sem precisar de reaplicação. Escrevi sobre o resto em proteção solar.
Quando volta, e por que volta diferente
O cabelo volta. Na maior parte das vezes o recrescimento acontece entre 3 e 6 meses depois do fim da quimioterapia, e ele não depende de nada que se passe ou se tome para começar.
Volta, porém, costuma voltar diferente, e isso não é impressão de quem se olha no espelho: a literatura descreve mudança de textura e de cor no cabelo novo. Liso que nasce ondulado, cacheado que nasce mais frouxo, fios brancos onde antes não havia. Quase sempre é transitório, e o cabelo tende a retomar as características antigas com o tempo. Ninguém costuma avisar disso, e o susto de descobrir sozinho era evitável.
Numa minoria, o recrescimento não é completo. Quando ainda falta cabelo seis meses depois do fim do tratamento, deixa de ser demora e passa a ter nome e conduta próprios. A chance varia bastante conforme a medicação usada: num estudo com quase 400 mulheres tratadas para câncer de mama, ficou em torno de 23% com um dos taxanos e 10% com outro.
Loções, vitaminas e tônicos: o que tem lastro
A vontade de acelerar o recrescimento é natural, e a farmácia responde a ela com muita coisa. Nem tudo ali se sustenta, e uma parte pode atrapalhar.
O minoxidil tópico é o que tem o dado mais direto. Ele não deve ser usado durante a quimioterapia, e sim depois que ela termina: num estudo, iniciá-lo alguns meses após o fim encurtou o tempo até o recrescimento de cerca de 137 para 87 dias. Ele acelera o cabelo que ia nascer de qualquer jeito, e não cria folículo onde o folículo se perdeu. Existe também a versão em comprimido, em dose baixa, usada em alguns casos depois do tratamento, e essa é decisão de consultório e não de balcão de farmácia.
A biotina é o suplemento mais vendido para cabelo e um dos que menos se sustentam. Uma revisão que procurou evidência do seu uso encontrou benefício apenas em quem tem deficiência real da vitamina ou doenças específicas do fio. Fora dessas situações, falta evidência de que ajude. Ela não está proibida, mas merece um aviso: a agência reguladora americana registra que a biotina interfere em exames feitos por um método específico de laboratório, entre eles os de tireoide, os marcadores cardíacos e parte dos marcadores tumorais. O hemograma que acompanha cada ciclo não entra nessa lista. Contar à equipe que está tomando resolve, e evita que um resultado estranho seja lido como doença.
O laser de baixa potência, ou fotobiomodulação, foi testado em 2025 num ensaio que dividiu em dois grupos mulheres em quimioterapia com taxano, todas usando a touca. Cobertura do couro cabeludo e espessura do fio não diferiram entre os grupos.
Os medicamentos hormonais usados na calvície comum não são recomendados por especialistas em quem teve câncer de mama, por preocupação de segurança. É uma das situações em que a automedicação sai cara.
Quem chega aos seis meses com falha importante ganha em ser avaliado por um dermatologista, de preferência com experiência em pacientes oncológicos, porque a conduta depende de exame do couro cabeludo e não de tentativa e erro.
O cabelo é o efeito colateral que menos interfere no tratamento e um dos que mais interferem na vida, e é o único com uma medida preventiva própria. Leve as perguntas para a consulta antes de começar: qual é a chance no meu esquema, o serviço tem a touca, e o que fazer se o recrescimento demorar.
Se você está começando um tratamento agora, ou acompanha alguém que está, estou à disposição, como oncologista, para conduzir esse percurso junto com você e sua família.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
- Instituto Nacional de Câncer. Quimioterapia. INCA, 2023. Disponível em gov.br/inca.
- Wikramanayake TC, Haberland NI, Akhtari A, et al. Prevention and Treatment of Chemotherapy-Induced Alopecia: What Is Available and What Is Coming? Current Oncology, 2023.
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