Já foram feitas tomografias, exames de sangue e às vezes uma endoscopia, e nenhum mostrou onde o câncer começou. O que se tem é a biópsia de um linfonodo ou de uma metástase, com células de câncer. A família costuma perguntar como é possível ter metástase sem ter um tumor.
Em resumo
- O câncer de sítio primário desconhecido é uma metástase confirmada por biópsia cuja origem não aparece mesmo depois de uma investigação completa.
- A investigação junta exame clínico, exames de imagem e a análise do patologista, que muitas vezes aponta a origem mais provável.
- Em cerca de 1 em cada 5 casos, o perfil do tumor permite tratá-lo como o câncer de origem provável, como mama, ovário ou próstata.
- Nos demais, o tratamento segue uma estratégia própria, e a análise genética do tumor pode indicar um tratamento dirigido para alguns pacientes.
Na maioria das vezes, o tumor de origem existe, mas não aparece nos exames. Como uma metástase é tratada conforme o tumor de onde saiu, sem essa origem o diagnóstico passa a ser câncer de sítio primário desconhecido, também chamado de primário oculto.
Por que a origem às vezes não aparece
Esse câncer tende a dar metástases cedo, quando o tumor de origem ainda é pequeno. Assim, a metástase pode ficar visível antes do tumor que a originou.
Com exames melhores, a origem passou a ser encontrada com mais frequência, e hoje esse diagnóstico é pouco frequente: a diretriz europeia estima menos de 5% dos cânceres.
Como é a investigação
A investigação começa pela conversa, pelo exame clínico, por exames de sangue e de imagem. Os demais exames são escolhidos conforme as pistas de cada caso, como a endoscopia quando há suspeita no aparelho digestivo.
A história de cada paciente pesa bastante. Segundo a diretriz europeia, cerca de 1 em cada 4 pessoas com suspeita desse diagnóstico já teve um câncer antes, e nelas a primeira hipótese é a volta daquele tumor. O PET-CT, quando indicado, encontra a origem em cerca de um terço dos casos.
O patologista costuma dar a pista principal. Ele aplica na amostra colorações especiais, a imuno-histoquímica, que revelam proteínas próprias de cada tipo de célula. Elas muitas vezes apontam a origem mesmo quando nenhuma imagem a mostra. Algumas combinações sugerem intestino, outras pulmão, mama ou próstata.
Essas marcas ajudam, mas não são perfeitas. Um tumor que perdeu parte das características da célula de origem pode não exibir a marca esperada. Na diretriz europeia, por exemplo, só cerca de 6 em cada 10 adenocarcinomas de pulmão pouco diferenciados ou metastáticos mostram a proteína que costuma identificar o pulmão. Por isso o laudo do patologista é lido junto com a clínica e a imagem.
É também essa análise que mostra se o tumor é um carcinoma, o tipo mais comum de câncer, ao qual o termo se aplica. Linfomas, sarcomas e melanomas sem origem achada seguem tratamento próprio, e quando a biópsia mostra um tumor neuroendócrino, o tratamento segue o dos tumores neuroendócrinos.
Existem ainda testes que comparam o padrão de atividade dos genes do tumor com o de cânceres conhecidos, para estimar a origem. Os estudos ainda discordam sobre o ganho deles.
Quando o perfil aponta para uma origem
O perfil junta onde estão as metástases, o sexo do paciente e o tipo de célula visto pelo patologista. Em cerca de 1 em cada 5 pacientes, esse conjunto aponta com segurança para um tipo de câncer, e o tratamento passa a seguir o dele. Entre os exemplos:
- mulher com metástase só em linfonodos da axila, tratada como câncer de mama;
- mulher com doença no peritônio, a membrana que reveste o abdome, com um tipo de célula típico do ovário, tratada como câncer de ovário;
- carcinoma escamoso, o tipo de célula que reveste a boca e a garganta, em linfonodos do pescoço, fora da região logo acima da clavícula, tratado como câncer de cabeça e pescoço;
- homem com metástases ósseas do tipo que forma osso, ou com PSA elevado, tratado como câncer de próstata;
- tumor com o perfil do intestino na análise do patologista, tratado como câncer de intestino;
- doença restrita a um ou poucos locais, todos tratáveis com cirurgia ou radioterapia, que recebe tratamento local.
Na mulher com metástase só na axila, a ressonância das mamas encontra o tumor de origem em cerca de dois terços dos casos, e aí o diagnóstico passa a ser câncer de mama.
Numa minoria dos casos com perfil definido, o tratamento pode ter intenção de cura.
E quando não há um perfil definido
Nos demais, que são a maioria, o tratamento costuma ser uma quimioterapia combinada que inclui um medicamento da família da platina, com intensidade ajustada ao estado geral de cada paciente. Aqui, a cura é rara, e o tratamento busca segurar o crescimento da doença. Em quem está muito debilitado, o foco pode ser só o controle dos sintomas.
Uma análise genética ampla pode encontrar alterações com tratamento dirigido, e os estudos ainda avaliam o ganho dessa estratégia. Participar de um estudo clínico também pode ser uma opção.
Se é o seu caso, traga para a consulta os exames já feitos, e definimos juntos o tratamento, seja qual for o perfil do tumor.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
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