A palavra metástase chega de dois jeitos. Às vezes aparece anos depois de um tratamento, num exame de controle. Muitas vezes vem já no primeiro diagnóstico, quando os exames mostram que o câncer, ao ser descoberto, já estava em mais de um lugar. Nos dois casos, a primeira dúvida costuma ser a mesma: são vários cânceres diferentes?
Em resumo
- Metástase é o mesmo câncer que se espalhou para uma parte distante do corpo, e por isso leva o nome do tumor de origem: câncer de mama no osso continua sendo câncer de mama.
- O tratamento segue principalmente o tipo de câncer de onde a metástase veio.
- Metástase não é sinônimo de doença terminal: muitas vezes o objetivo é manter o câncer sob controle, e há pessoas que vivem anos assim.
- Em algumas situações, como na maioria dos tumores de testículo e em casos selecionados em que todas as metástases podem ser retiradas ou tratadas no local, o tratamento ainda pode buscar a cura.
Na maior parte das vezes, não. Uma lesão no fígado de quem tem câncer de intestino, por exemplo, costuma ser feita das mesmas células do tumor do intestino. Elas se soltaram de onde nasceram, viajaram pelo sangue ou pela linfa e voltaram a crescer em outro órgão, às vezes depois de ficarem paradas por anos. Ao microscópio, a metástase continua parecida com o tumor de origem, e não com o órgão onde foi parar.
Quando o câncer chega só aos gânglios perto do tumor, o laudo também pode usar a palavra metástase. A situação, porém, é outra. O câncer metastático, também chamado de estádio 4, é o que chegou a uma parte distante do corpo, como o osso, o fígado ou o pulmão.
Por que a metástase leva o nome do tumor de origem
O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos usa um exemplo direto: um câncer de mama que chega ao pulmão é um câncer de mama metastático, e não um câncer de pulmão, e é tratado como câncer de mama em estádio 4. Metástase no osso, portanto, não é câncer de osso.
O câncer de mama, o de próstata e o de pulmão respondem a medicamentos diferentes, e essa resposta acompanha as células para onde elas forem. Uma metástase no fígado de um câncer de mama é tratada com os remédios do câncer de mama. Por isso, diante de uma lesão nova, muitas vezes se faz uma biópsia, para confirmar que se trata mesmo de metástase e de onde ela veio. Em alguns casos o tumor de origem não é encontrado, e esse quadro tem nome próprio, câncer de sítio primário desconhecido, com investigação e tratamento específicos.
Onde a metástase costuma aparecer
Os lugares mais comuns são o osso, o fígado e o pulmão, e cada tipo de câncer tem os seus caminhos preferidos, embora a metástase possa aparecer em praticamente qualquer parte do corpo. O câncer de intestino vai sobretudo para o fígado, depois para o pulmão e para o peritônio, a membrana que reveste o abdômen. O de mama pode chegar ao osso, ao cérebro, ao fígado e ao pulmão. São os padrões mais frequentes, não regras: outros caminhos acontecem.
A metástase nem sempre dá sintomas, e muitas vezes é encontrada num exame de acompanhamento. Quando dá, os sinais dependem do lugar. No osso, o mais comum é dor no local, e as complicações que mais preocupam são a fratura no ponto enfraquecido, o cálcio alto no sangue e a compressão da medula na coluna. Esta última é uma emergência. No fígado, podem aparecer pele e olhos amarelados ou inchaço na barriga. No pulmão, falta de ar. No cérebro, dor de cabeça, convulsão ou tontura.
Metástase tem cura?
Ter metástase não quer dizer estar em fase terminal. Na maior parte dos tumores, porém, a doença espalhada não desaparece de vez, e o tratamento passa a ser contínuo, ajustado ao longo do tempo. Existem tratamentos para a maior parte dos tipos de câncer metastático, e muitas vezes o objetivo é controlar a doença, impedindo ou desacelerando o seu crescimento. Há pessoas que vivem anos com o câncer bem controlado. No melanoma metastático, por exemplo, há hoje pacientes tratados com a combinação de duas imunoterapias que completaram dez anos de acompanhamento.
Em algumas situações, o tratamento ainda pode buscar a cura. O exemplo mais conhecido é o tumor de testículo. A maioria dos homens com a doença espalhada fica curada com um tratamento que tem a quimioterapia como base. Outro é o dos pacientes com poucas metástases que podem ser retiradas por inteiro. Essa situação é mais estudada no câncer de intestino com metástases no fígado ou no pulmão: segundo a diretriz europeia de 2023, uma parte desses pacientes vive muitos anos e alguns ficam curados, embora a maioria tenha a doença de volta depois da cirurgia.
Há ainda os casos com poucas metástases, até cinco, com o tumor de origem controlado e todas as lesões passíveis de tratamento no local. No estudo SABR-COMET, randomizado e ainda pequeno, com 99 pacientes, tratar cada lesão com radioterapia muito concentrada, além do tratamento habitual, deixou uma minoria dos pacientes mais de cinco anos sem sinal da doença. A estratégia ainda está em estudo.
O tempo de vida depende antes de tudo do tipo de tumor de origem, e também de onde e de quanto ele se espalhou.
Como se trata
O tratamento principal costuma ser o do corpo todo, com os medicamentos indicados para o tumor de origem: quimioterapia, hormonioterapia, terapia-alvo, imunoterapia ou a combinação delas, conforme o tipo e as características do tumor. Estudos clínicos com tratamentos novos também podem ser uma opção.
A esse tratamento podem se somar os tratamentos locais, dirigidos a uma metástase específica: cirurgia, radioterapia ou técnicas que destroem a lesão por calor. Às vezes servem para aliviar um sintoma. A radioterapia alivia, ao menos em parte, a dor de cerca de 6 em cada 10 pacientes com metástase óssea tratados, e em vários tumores se usam também medicamentos que fortalecem o osso e reduzem as complicações. No cérebro, a lesão que dá sintomas recebe tratamento local mesmo durante o tratamento do corpo todo: para até quatro lesões, a radiocirurgia, uma radioterapia muito concentrada no alvo, é uma das opções, e lesões maiores ou que comprimem o tecido em volta podem ser operadas.
Em casos selecionados, com poucas metástases, os tratamentos locais servem para controlar a doença por mais tempo ou, em alguns tumores, buscar a cura. Essa indicação costuma ser discutida em equipe, caso a caso.
A diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica de 2024 recomenda que pacientes com tumores avançados tenham acesso a uma equipe de cuidados paliativos desde cedo, junto com o tratamento do câncer, e não apenas quando ele deixa de funcionar.
Diante de uma metástase, a primeira pergunta é de onde veio o tumor. A partir dela se decide o que tratar no corpo todo e o que tratar no lugar onde a lesão está. Conduzo esse tratamento como oncologista, e se você ou alguém da sua família recebeu essa notícia, posso avaliar o caso e definir esse plano com vocês.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
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