Por que os jovens estão desenvolvendo mais câncer?

Por que os jovens estão desenvolvendo mais câncer?

Mudanças no estilo de vida brasileiro, em relação a outras épocas, pode estar entre as principais causas do fenômeno

Dizem que as pessoas estão vivendo mais. E com razão: inclusive, quase tudo parece ter sido postergado. Se em 1980 um cidadão brasileiro de vinte anos já era considerado homem feito, e uma mulher da mesma idade, vista como madura – em ambos os casos, casados e com filhos– hoje não é estranho que a consolidação de uma vida adulta se dê depois da terceira década de vida.

O que comentar então de um “quarentão” nos anos de 1980? Certamente, este sujeito já tinha passado da metade de sua vida: estava ali, naquele segundo terço de existência, com claríssima aparência de meia-idade, tendo de conviver com um mundo que mudava mais rapidamente do que ele poderia acompanhar.

Vez ou outra, alguém superava em muito a expectativa de vida. Segundo o IBGE, este número chegava a meros 62 anos de idade em 1980. Por isso, aquele que alcançava a oitava década era quase um sobrevivente. Uma relíquia familiar, na figura do avô ou da avó que representavam um passado há muito superado.

Ora, cinco décadas se passaram, e cá estamos, com uma média de vida que, segundo o último censo nacional, aumentou em pelo menos 15 anos desde então. Isso significa que chegar aos oitenta não é mais um golpe de sorte: é uma dádiva, por certo, com a diferença que é muito mais recorrente e natural. 

O “sessenta é o novo quarenta”, o “oitenta é o nosso sessenta”… mas o câncer, conhecido por tanto tempo como uma “doença de velhos”, fez o movimento contrário de tudo o que descrevemos acima. Tudo bem: o velho daquela época pode ser considerado, sob certos aspectos, como o “jovem” de hoje.

Mas falo exatamente de uma juventude que, em ambos os períodos, não deixava de ser tidos como “jovens”. Ter entre vinte e trinta anos não significava meia idade nem mesmo há cinquenta anos atrás: muito menos quando se fala em câncer.

Atualmente, a doença já é a segunda maior causa de morte entre os jovens brasileiros de 15 a 29 anos: depois de fatalidades como acidentes de trânsito. E isso se deve, principalmente, a causas comportamentais e ambientais.

Aparentemente, o desenvolvimento científico (químico, tecnológico e biológico) dá, mas também pode tirar. Nas últimas cinco décadas, a medicina passou pelo maior avanço jamais visto em sua história. Só que junto com ela, o resto do mundo também transformou-se completamente.

A começar pela alimentação, é fácil imaginar que quando um país passa de rural a urbano, a qualidade da produção alimentar tende a cair: cada família não produz mais seus alimentos in natura, tendo controle sobre o processo, mas compra-os em grandes redes industriais, repletos de químicos adicionados.

Até mesmo os carros, privilégio que nem todos tinham a 1980, fazem com que o volume de atividade física seja menor no dia a dia. O trabalho, menos braçal e mais virtual, também economiza em matéria de exercício físico. O crescimento das cidades, por sua vez, mexe na qualidade do ar e da água.

Para piorar, entra o fator “estresse”: sono ruim, prejudicado pelo vício em telas, somado à má alimentação, a um trabalho sedentário e à artificialização do dia a dia, deixa-nos… exaustos. Causas adjacentes, como o aumento do uso de substâncias, também assumem papéis importantes neste aumento dos casos de câncer, cada vez mais cedo na vida.

Não é tão simples correlacionar diretamente tais mudanças aos casos da doença que se ampliam, mas é fácil entendê-las como fortes candidatas a desestabilizadoras da saúde, podendo levar a diferentes manifestações de mau funcionamento físico –cada vez mais cedo.

Portanto, por mais que o tempo passe e a sociedade, com seu estilo de vida, sofra uma alteração profunda, o caminho para buscar uma boa saúde é sempre o mesmo: levar uma vida que seja a mais humana possível, sempre conectada à realidade que nos é mais natural -botar a mão na massa, perceber a passagem do tempo, mover o seu corpo, respirar fundo o frescor da natureza.Porque apesar de tudo ter mudado… nós ainda somos os mesmos!