Quando uma mulher decide marcar a primeira mamografia, costuma esbarrar numa dúvida antes mesmo do exame: a partir de que idade ela deveria começar. O médico fala numa idade, uma reportagem fala em outra, e uma amiga conta que fez mais cedo.
Essa diferença de recomendação tem uma explicação, e ela não vem de descuido de ninguém. O mesmo exame é olhado de dois ângulos, um que pensa em cada mulher e outro que pensa na população inteira, e cada ângulo leva a um número. Entender qual é qual é o que ajuda você a decidir o seu calendário, junto com o seu médico. É desse calendário que trato aqui, o de quem está bem e quer se cuidar. Sentir um caroço é outra conversa, que tratei em o que fazer ao encontrar um nódulo na mama.
A partir de que idade começar
Para a mulher de risco habitual, quer dizer, sem história familiar forte nem alteração genética conhecida, a idade de referência é os 40 anos. É quando as três sociedades médicas da área no Brasil, as de Mastologia, de Radiologia e de Ginecologia, recomendam o primeiro exame de rastreamento.
O sistema público se aproximou disso em 2025. Até então, o SUS oferecia o rastreamento organizado só dos 50 aos 69 anos. Em setembro daquele ano, o Ministério da Saúde estendeu a mamografia às mulheres na faixa dos 40 aos 49 anos, sem exigir que tenham sintomas, por decisão tomada com o profissional de saúde. Essa faixa concentra cerca de 23% dos casos de câncer de mama no país.
Na prática, aos 40 anos já existe indicação para começar a conversa sobre o exame, e existe caminho para fazê-lo, tanto na rede privada quanto no SUS. O que mudou no serviço público, e por quê, eu contei em o que as novas diretrizes do SUS mudaram no rastreamento.
Por que a partir dos 40, e não antes
Antes dos 40 anos, no risco habitual, o câncer de mama é bem menos frequente, e as mamas costumam ser mais densas, com mais tecido glandular. Essa densidade deixa a imagem da mamografia menos nítida e faz aparecer mais achados que, quando investigados, acabam não sendo nada. O resultado é um exame que encontra pouco câncer verdadeiro e gera mais sustos, mais exames extras e mais biópsias sem necessidade.
É por isso que, para quem não tem risco aumentado, começar antes dos 40 não é o que se recomenda. Os 40 anos são o ponto em que a balança começa a pender a favor do exame: o câncer fica comum o suficiente e o ganho de encontrá-lo cedo passa a compensar os alarmes falsos. Para quem tem risco alto na família, a conta é outra, e o começo costuma ser mais cedo, como você vê mais adiante.
De quanto em quanto tempo: todo ano ou a cada dois?
A frequência é o que mais gera dúvida, porque os números que você encontra divergem de verdade.
As sociedades médicas da área recomendam a mamografia anual, todos os anos, dos 40 aos 74 anos. O raciocínio olha para a mulher individual: um tumor pode surgir e crescer no intervalo entre um exame e o seguinte, e repetir a cada ano deixa menos tempo para que ele passe despercebido.
O sistema público organiza o rastreamento por outra lógica: dos 50 aos 74 anos, a cada dois anos. Aqui o que conta é a população inteira. Num programa que precisa alcançar milhões de mulheres, o intervalo de dois anos alcança mais gente. E há um ganho para cada uma: espaçar o exame reduz os alarmes falsos e as biópsias que não confirmam nada, sem deixar escapar a maior parte dos tumores em fase inicial. Para as mulheres de 40 a 49, o SUS passou a garantir o acesso, mas deixou a decisão de fazer, e de quando repetir, para a conversa entre a mulher e o seu profissional.
As duas recomendações têm bons motivos por trás, e a diferença está no que cada uma prioriza. Para a sua decisão, o que pesa é conversar com o seu médico sobre o seu caso. A resposta certa para você depende também da sua idade, da sua história e da densidade das suas mamas, que muda o quanto a mamografia enxerga e só o exame revela.
Essa divisão não é uma peculiaridade brasileira. Nos Estados Unidos acontece o mesmo: o painel de saúde pública do governo recomenda a mamografia a cada dois anos a partir dos 40, enquanto sociedades médicas, como a de radiologia, defendem o exame anual, também a partir dos 40. Na Europa, a maior parte dos programas públicos faz o rastreamento a cada dois anos, começando por volta dos 50. Em quase todo lugar, quem organiza um programa para a população inteira tende ao intervalo maior, e quem olha para a detecção mais precoce de cada mulher tende ao exame anual. Muda o país, e a decisão continua a mesma que a sua: conversada com o médico, para o seu caso.
Até quando continuar
Não há uma idade fixa para parar. As sociedades recomendam manter a mamografia anual até os 74 anos. Dos 75 em diante, a decisão passa a ser individual: o exame continua valendo enquanto a mulher tem boa saúde e uma expectativa de vida que justifique procurar um câncer que levaria anos para dar problema. O sistema público segue a mesma direção, com rastreamento organizado até os 74 e avaliação caso a caso depois disso.
Dito de outro jeito, quem chega aos 70 e poucos anos com saúde não tem motivo para abandonar o exame só pela idade do documento.
O que o autoexame e o toque não substituem
A mamografia é o exame que encontra o câncer de mama antes de ele dar qualquer sinal, e é por isso que ela tem um calendário próprio, que não depende de você sentir nada.
Conhecer as próprias mamas ajuda, e ajuda de verdade: é o que faz você perceber uma mudança e procurar avaliação. O exame das mamas no consultório também soma. Mas nenhum dos dois alcança um tumor tão cedo quanto a mamografia, quando ele ainda é pequeno demais para ser sentido pela mão. Por isso nenhum dos dois substitui a mamografia no prazo certo: quem se examina em casa ainda precisa do exame na hora certa, porque a mão não alcança o que a imagem alcança.
Quando o seu calendário é diferente
Tudo o que está aqui é para quem tem risco habitual. Uma parte das mulheres começa antes e faz um acompanhamento mais próximo, às vezes com ressonância além da mamografia. É o caso de quem tem história familiar forte de câncer de mama ou de ovário, ou uma mutação conhecida como a dos genes BRCA. Esse calendário é montado caso a caso, e escrevi sobre quem deve investigar a parte genética, e o que ela muda, em genética e câncer de mama: o que é o BRCA e quando fazer o teste. Se essa história existe na sua família, leve-a ao seu médico antes dos 40, porque ela pode adiantar o seu início.
O que fazer com isso
Se você tem 40 anos ou mais e nunca fez a mamografia, ou faz de forma irregular, o passo prático é simples: converse com o seu médico e marque. Ele vai pesar o seu caso e o que faz sentido para você, dentro do que a rede que você usa oferece. O exame é rápido, e a razão de tanto cuidado com o calendário é simples: câncer de mama encontrado cedo é, na grande maioria das vezes, muito mais tratável.
Se em algum momento um exame trouxer um diagnóstico, aí sim entra a oncologia, e eu estou à disposição, como oncologista, para conduzir o tratamento junto com você.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
Referências
Brasil. Lei nº 15.284, de 19 de dezembro de 2025. Garante a realização de mamografia de rastreamento pelo Sistema Único de Saúde a mulheres a partir dos 40 anos.
Ministério da Saúde. Ministério da Saúde garante acesso a mamografia a partir dos 40 anos. gov.br, setembro de 2025.
Colégio Brasileiro de Radiologia, Sociedade Brasileira de Mastologia, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Recomendações para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Femina, 2023.
Comissão Nacional de Mamografia (SBM, CBR, FEBRASGO). Nota técnica sobre o rastreamento do câncer de mama no Brasil, 2025.
US Preventive Services Task Force. Screening for Breast Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA, 2024.
European Commission Initiative on Breast Cancer (ECIBC). European guidelines on breast cancer screening and diagnosis.