Reabilitação pulmonar: por que treinar o pulmão antes e depois da cirurgia

Reabilitação pulmonar: por que treinar o pulmão antes e depois da cirurgia

Nem tudo o que trata vem em comprimido. No câncer de pulmão existe uma intervenção que não é medicamento e que, mesmo assim, reduz complicações depois da cirurgia e encurta o tempo de internação. Chama-se reabilitação pulmonar, e o que a sustenta não é impressão clínica: são estudos randomizados, reunidos em revisões sistemáticas com alto grau de confiança.

Ainda assim, é comum que o assunto nem chegue ao paciente, que sai da consulta sabendo o nome da cirurgia e o esquema de quimioterapia, mas sem ninguém ter falado do que ele mesmo pode fazer pelo próprio pulmão nas semanas que antecedem tudo isso.

O que é reabilitação pulmonar

Reabilitação pulmonar não é “fazer caminhada”. É um programa estruturado, conduzido por equipe de fisioterapia, que combina três frentes:

  • Treino físico, aeróbico e de força, com carga ajustada à capacidade da pessoa e progredida ao longo das semanas;
  • Treino respiratório, incluindo exercícios para expandir os pulmões, fortalecer a musculatura da respiração e aprender a tossir e eliminar secreção de forma eficiente, algo que faz diferença enorme no pós-operatório;
  • Educação e orientação, sobre como economizar energia nas atividades do dia, controlar a falta de ar e, quando é o caso, apoiar a parada do cigarro.

A diferença entre isso e “se exercitar por conta” está justamente na supervisão, na progressão da carga e no fato de o programa ser desenhado para o pulmão daquela pessoa, com as limitações que ela tem.

Antes da cirurgia: o dado mais forte de todos

Aqui está a informação que mais me interessa transmitir, porque é contraintuitiva e tem evidência sólida.

Treinar antes da cirurgia, no período que costuma ser de espera e ansiedade, muda o que acontece depois dela. Uma revisão sistemática da Colaboração Cochrane reuniu 10 estudos randomizados, com 636 pacientes com câncer de pulmão que iriam operar, e comparou quem fez treino pré-operatório com quem não fez.

Dois resultados se destacam:

  • O risco de ter uma complicação pulmonar depois da cirurgia caiu para menos da metade (risco relativo de 0,45). É o resultado mais sólido de toda a revisão.
  • O tempo de internação hospitalar foi, em média, 2,24 dias menor.

Vale a transparência: os próprios autores recomendam cautela na interpretação, por risco de viés em parte dos estudos incluídos. Ainda assim, para uma intervenção sem medicamento, é um resultado que poucos tratamentos de suporte conseguem mostrar.

Complicação pulmonar depois de uma cirurgia de pulmão não é detalhe. É pneumonia, é dificuldade para expandir o pulmão operado, é dreno que permanece por mais tempo, é recuperação que atrasa e adia o passo seguinte do tratamento. Reduzir isso pela metade, treinando semanas antes, é um ganho concreto.

A outra metade do preparo: parar de fumar

Se a pessoa ainda fuma quando recebe o diagnóstico, este é o momento em que parar rende mais, e vale dizer isso sem nenhum tom de cobrança. Não se trata de acertar contas com o passado, e sim de aproveitar a janela que ainda está aberta.

Uma meta-análise que reuniu 6 estudos randomizados e 15 estudos observacionais mostrou que parar de fumar antes de uma cirurgia reduz as complicações no pós-operatório, com redução de risco de 41% nos estudos randomizados. E há um detalhe que costuma motivar mais do que qualquer sermão: cada semana adicional sem fumar aumentou o benefício em cerca de 19%.

Ou seja, não é tudo ou nada, e não é tarde demais. Cada semana conta, e esse efeito se soma ao do treino físico. É por isso que o apoio para parar de fumar faz parte dos programas de reabilitação, em vez de ser tratado como assunto separado.

Depois da cirurgia: recuperar o fôlego

O segundo momento em que a reabilitação entra é a recuperação. Outra revisão Cochrane analisou pessoas que treinaram nos 12 meses seguintes à retirada de parte do pulmão.

Quem fez o programa caminhou, em média, 57 metros a mais no teste de caminhada de seis minutos do que quem não fez. Esse é um daqueles números que valem ser traduzidos: são quase 60 metros de diferença em seis minutos de caminhada, o tipo de ganho que aparece na vida real como subir uma ladeira sem parar ou atravessar o supermercado sem sentar.

Houve ainda melhora na capacidade cardiorrespiratória medida em teste de esforço, no componente físico da qualidade de vida e na falta de ar, que costuma ser o sintoma que mais limita e mais assusta depois de uma ressecção pulmonar.

E quem não vai operar?

Aqui é preciso honestidade sobre o alcance da evidência. Os números acima vêm de estudos com pacientes cirúrgicos, e não se pode simplesmente transferi-los para quem faz quimioterapia, radioterapia ou tratamento-alvo.

O que se pode dizer com segurança é que manter-se ativo durante o tratamento oncológico traz benefícios consistentes em fadiga, condicionamento e qualidade de vida, e que a fisioterapia respiratória ajuda no manejo da falta de ar. Escrevi sobre a evidência do exercício no câncer em geral no texto sobre exercício físico durante o tratamento.

O ponto prático é o mesmo nos dois cenários: corpo parado piora, e a alternativa não é heroísmo, é acompanhamento adequado.

Como isso começa, na prática

Alguns pontos que valem levar para a consulta:

  • Quanto antes, melhor. Nos estudos, os programas pré-operatórios foram feitos nas semanas que antecederam a cirurgia. Aquele intervalo entre o diagnóstico e a data da operação, que costuma ser vivido como espera passiva, é justamente a janela útil.
  • Precisa ser supervisionado. Quem conduz é a equipe de fisioterapia, e o programa é ajustado à sua capacidade e às suas limitações, inclusive respiratórias e cardíacas.
  • É seguro. Nas revisões analisadas, eventos adversos relacionados ao treino foram raros, com apenas um relatado no conjunto dos estudos de pós-operatório.
  • Continua depois. A reabilitação não termina na alta hospitalar, e boa parte do ganho de fôlego acontece nos meses seguintes.

Se você quiser rever o que é o câncer de pulmão e como ele costuma se apresentar, tratei disso nos textos sobre sinais de alerta do câncer de pulmão e sobre câncer de pulmão em quem nunca fumou.

O que a reabilitação não faz

Para a expectativa ficar no lugar certo, vale dizer também o que ela não é. Reabilitação pulmonar não trata o câncer, não substitui cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou tratamento dirigido, e não garante que nenhuma complicação vá acontecer. Ela também não é um teste de força de vontade: quem não consegue treinar por causa da própria doença não está falhando em nada.

O que ela faz é melhorar as condições em que o corpo enfrenta o tratamento, e isso já é bastante. Em oncologia quase nada age sozinho, e uma parte relevante do resultado vem justamente dessas medidas que não cabem numa receita.


No tratamento do câncer de pulmão, uma parte do resultado depende do que se faz fora do consultório, nas semanas que antecedem a cirurgia e nos meses que a seguem. Se você ou alguém da sua família está nesse caminho e quer entender como incluir a reabilitação pulmonar no plano de tratamento, estou à disposição, como oncologista, para avaliar o caso e encaminhar o que for necessário.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Granger CL, Cavalheri V. Preoperative Exercise Training for People with Non-Small Cell Lung Cancer. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2022.
  • Cavalheri V, et al. Exercise Training Undertaken by People Within 12 Months of Lung Resection for Non-Small Cell Lung Cancer. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019.
  • Mills E, et al. Smoking Cessation Reduces Postoperative Complications: A Systematic Review and Meta-analysis. The American Journal of Medicine, 2011.