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Proteção solar: como se proteger do sol do jeito certo

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Existe uma diferença grande entre passar protetor solar e estar protegido. A maioria das pessoas aplica entre 20% e 50% da quantidade que o produto precisa para entregar o que promete no rótulo, segundo a Academia Americana de Dermatologia. Na prática, quem passa um FPS 50 dessa forma está andando por aí com uma proteção bem menor do que imagina.

Isso importa porque a proteção solar é uma das raras medidas de prevenção de câncer que já foram testadas em estudo, e não apenas deduzidas. A radiação solar é reconhecida como causa comprovada de câncer de pele, e usar bem as ferramentas de proteção muda o risco de forma concreta.

Por que a proteção solar vale o esforço

A radiação ultravioleta está no grupo dos agentes com prova definitiva de que causam câncer em seres humanos, a mesma categoria do tabaco. Vale entender o que essa classificação significa: ela mede a força da evidência, não o tamanho do risco. Ninguém está dizendo que tomar sol equivale a fumar, e sim que a relação entre ultravioleta e câncer de pele deixou de ser hipótese há muito tempo.

Os números brasileiros mostram o tamanho do problema. O câncer de pele não-melanoma é o câncer mais frequente do país, com cerca de 263 mil casos novos por ano segundo o INCA. O melanoma cutâneo é bem menos comum, cerca de 9 mil casos ao ano, mas é o mais letal caso a caso, e é por isso que concentra tanta atenção.

O dado mais interessante, porém, vem de um estudo australiano conhecido como Nambour. Mais de 1.600 adultos foram distribuídos aleatoriamente entre duas orientações: aplicar protetor solar todos os dias nas áreas mais expostas, ou usá-lo apenas quando quisessem. Dez anos depois do fim do estudo, o grupo do uso diário tinha 11 melanomas contra 22 do outro grupo. E, entre os melanomas invasivos, aqueles que já ultrapassaram a camada mais superficial da pele, foram 3 casos contra 11.

Os autores pediram cautela na leitura, porque o número de casos foi pequeno. Considerando todos os melanomas juntos, o resultado ficou no limite da incerteza; foi nos invasivos que o efeito apareceu de forma mais firme. Ainda assim, é uma das poucas vezes em que uma medida de prevenção do câncer foi posta à prova desse jeito.

O benefício não se restringe ao melanoma. A proteção solar também reduziu o câncer de pele não-melanoma nos estudos, e faz sentido que seja assim, porque a radiação ultravioleta é a mesma causa por trás dos principais tumores de pele.

O protetor solar: escolher e usar direito

O protetor é a peça mais conhecida da proteção solar, e a que mais gera dúvida. As orientações abaixo seguem o Consenso Brasileiro de Fotoproteção, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que é a referência no assunto no país. Na escolha, três coisas merecem atenção no rótulo:

  • Fator de proteção 30 ou mais. É o mínimo recomendado pela dermatologia brasileira. Um FPS 30 barra cerca de 97% da radiação UVB, e vale lembrar que nenhum protetor bloqueia tudo, então um número alto no rótulo não é licença para relaxar no resto.
  • Amplo espectro. A expressão indica que o produto cobre os dois tipos de radiação que chegam à pele: a UVB, que queima e é a mais ligada ao câncer, e a UVA, que penetra mais fundo e também contribui para os tumores e para o envelhecimento.
  • Resistente à água, para quem vai transpirar ou entrar na água. Aqui cabe um detalhe pouco conhecido: resistente à água não quer dizer à prova d’água. A resistência vale por 40 ou 80 minutos, conforme o que estiver no rótulo.

A quantidade é onde a maior parte da proteção se perde. A referência da dermatologia é de cerca de 30 mililitros para o corpo todo, o equivalente a duas colheres de sopa, e ao menos uma colher de chá só para o rosto e o pescoço. É bem mais do que a maioria das pessoas costuma usar.

A outra metade da questão é a reaplicação. O protetor perde efeito ao longo do dia com o suor, a água e o atrito da roupa e da toalha, e a recomendação é reaplicar a cada duas horas, e sempre depois de nadar ou de suar bastante. Passar uma vez de manhã cobre bem menos tempo do que se imagina.

As barreiras que não escorrem

Nenhum protetor trabalha sozinho, e as barreiras físicas têm uma vantagem que o creme não tem: elas não vencem, não escorrem e não dependem de reaplicação.

  • Roupa. Aqui vale saber o que cada tecido faz. Uma camiseta branca fina de algodão protege pouco, o equivalente a um fator 7, e cai para cerca de 3 quando está molhada. Tecidos escuros, de trama fechada, ou com proteção UV declarada no rótulo, protegem muito mais: um tecido com UPF 50 barra 98% da radiação.
  • Chapéu de aba larga, que cobre também as orelhas e a nuca, regiões esquecidas com frequência e onde o câncer de pele aparece bastante.
  • Óculos de sol com proteção ultravioleta, pelos olhos e pela pele fina das pálpebras.
  • Sombra, principalmente nos horários de maior intensidade.

Dois pontos práticos completam o quadro. O primeiro é o dia nublado, que engana: boa parte da radiação ultravioleta atravessa as nuvens, e dá para se queimar em céu encoberto. O segundo é o índice ultravioleta, que aparece nos aplicativos de previsão do tempo. A Organização Mundial da Saúde recomenda proteção sempre que ele estiver em 3 ou mais, o que em boa parte do Brasil acontece na maioria dos dias do ano.

As crianças, onde a proteção rende mais

A infância é a fase em que a proteção solar tem o maior retorno ao longo da vida, porque as queimaduras solares dessa época se associam a mais risco de melanoma na vida adulta, e o efeito da exposição vai se somando ao longo dos anos.

O Consenso Brasileiro de Fotoproteção e a Sociedade Brasileira de Pediatria orientam que bebês com menos de seis meses fiquem fora do sol direto, protegidos por sombra, guarda-sol, chapéu e roupa, e não por protetor solar, que passa a ser indicado a partir dos seis meses, de preferência do tipo físico. Quando não houver sombra nem roupa disponível, admite-se aplicar uma quantidade mínima nas áreas expostas. Para as crianças maiores valem as mesmas barreiras dos adultos, com a diferença de que aqui também se está formando um hábito para a vida inteira.

E aqui cabe dizer uma coisa em voz alta, porque muita gente lê textos como este com um peso na consciência: queimadura de sol que já aconteceu não é sentença, e o objetivo aqui não é cobrar de ninguém o que foi feito ao sol na juventude. O risco se constrói ao longo de décadas, e o que se faz a partir de agora continua contando.

O bronzeado não é proteção

Um mito atrapalha bastante quem quer se cuidar: a ideia de que existe um bronzeado de base que protegeria a pele. Não existe. A cor do bronzeado é, ela mesma, a resposta de uma pele que já sofreu dano.

O bronzeamento artificial merece o mesmo aviso. As câmaras de bronzeamento são fonte concentrada da mesma radiação que causa câncer, e no Brasil o seu uso estético está proibido desde 2009. Detalhei os números desse risco, e o que faz uma pinta merecer atenção, no texto sobre os sinais do melanoma.

Proteção não substitui o olho no espelho

A proteção solar reduz bastante o risco, mas não zera, e nem todo melanoma vem do sol. Existem tipos que não têm relação com a exposição solar, como o melanoma acral, que aparece nas palmas das mãos, nas solas dos pés e sob as unhas, em pessoas de todos os tons de pele.

Por isso as duas coisas caminham juntas. De um lado, a prevenção de todo dia, com protetor, roupa, chapéu e sombra. De outro, o hábito de olhar a própria pele e procurar um dermatologista diante da pinta que mudou, que destoa das demais ou que passou a sangrar ou coçar. É ele quem avalia a lesão com o dermatoscópio e define se algo precisa ser removido e examinado.

Proteger-se do sol não exige abrir mão da praia, da piscina ou de uma caminhada ao ar livre. Exige constância em coisas pequenas e baratas, num país ensolarado onde o câncer de pele é o tumor mais comum, e onde essas medidas simples estão ao alcance de qualquer pessoa.


Como oncologista, acompanho de perto o peso que o câncer de pele avançado tem na vida de quem o enfrenta, e é por isso que insisto na prevenção. Para a checagem periódica da pele, para escolher o produto que combina com a sua pele e para qualquer lesão suspeita ou que esteja mudando, o caminho é procurar um dermatologista. E, caso um melanoma venha a ser confirmado, sobretudo em fase mais avançada, estou à disposição para avaliar o caso e conduzir o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.
  • International Agency for Research on Cancer (IARC). Solar and Ultraviolet Radiation. IARC Monographs, volume 100D, 2012.
  • Green AC, Williams GM, Logan V, Strutton GM. Reduced Melanoma After Regular Sunscreen Use: Randomized Trial Follow-Up. Journal of Clinical Oncology, 2011.
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Consenso Brasileiro de Fotoproteção.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Fotoproteção na criança.
  • American Academy of Dermatology. Sunscreen FAQs, 2026.
  • Skin Cancer Foundation. Sun-Protective Clothing, 2026.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Radiation: The ultraviolet (UV) index, 2022.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC 56/2009.

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