Card do artigo: cancer de pele nao melanoma

Câncer de pele não-melanoma: como reconhecer o mais comum de todos

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

O câncer mais comum do Brasil é conhecido por aquilo que ele não é. Chama-se câncer de pele não-melanoma, e o nome já indica o lugar que ele ocupa, o de coadjuvante de um parente mais famoso, apesar de ser quase trinta vezes mais frequente que ele.

O INCA estima cerca de 263 mil casos novos a cada ano, contra aproximadamente 9 mil de melanoma. É o tumor que mais aparece em praticamente todas as regiões do país, e também o que menos se discute.

Dois tumores diferentes sob o mesmo rótulo

Sob esse rótulo cabem dois tumores distintos, que se comportam de maneiras bem diferentes.

O carcinoma basocelular responde por cerca de oito em cada dez casos. Cresce devagar, ao longo de meses ou anos, e quase nunca se espalha para outros órgãos. O carcinoma espinocelular, também chamado de escamoso, representa a maior parte do restante. Cresce mais rápido e tem alguma capacidade de se espalhar, ainda que numa minoria dos casos.

A diferença importa para calibrar a preocupação. Nenhum dos dois costuma ameaçar a vida quando encontrado cedo, e ambos são altamente tratáveis nessa fase. O que os transforma em problema é o tempo.

O basocelular quase não se espalha, e ainda assim precisa de tratamento

Como o basocelular praticamente não produz metástase, é comum ouvir que ele seria um câncer inofensivo. A descrição é enganosa.

Ele é um tumor localmente destrutivo. Deixado sem tratamento por muitos anos, cresce em profundidade e pode atingir cartilagem e osso. Como aparece com frequência no rosto, sobretudo no nariz, nas orelhas e ao redor dos olhos, essa invasão pode comprometer estruturas importantes e deixar sequelas de aparência e de função. Isso hoje é exceção, e é justamente o que se evita tratando cedo.

Como ele se apresenta:

  • uma lesão perolada, translúcida ou brilhante, às vezes com pequenos vasos visíveis na superfície;
  • uma lesão com bordas elevadas e o centro afundado, que pode formar crosta;
  • uma área plana, esbranquiçada ou amarelada, parecida com uma cicatriz, sem que tenha havido corte ou machucado ali;
  • uma lesão escura, acastanhada ou quase preta, que se confunde facilmente com uma pinta comum. Em pessoas de pele mais escura, cerca de metade dos basocelulares se apresenta assim;
  • uma ferida que não cicatriza, ou que cicatriza e volta a abrir no mesmo lugar, e que sangra com facilidade a um pequeno trauma.

Esse último ponto é o sinal mais útil de todos: pele saudável cicatriza. Uma ferida que persiste por semanas no rosto, na orelha ou no couro cabeludo, sem trauma que a explique, precisa ser examinada por um dermatologista.

O espinocelular e o alerta do lábio

O carcinoma espinocelular costuma se apresentar como um nódulo endurecido e áspero ao toque, que cresce ao longo de semanas a meses, ou como uma placa avermelhada e escamosa que forma crosta e sangra. Também pode se manifestar como ferida que não cicatriza, e com alguma frequência dói, o que é menos comum no basocelular.

Ele prefere as áreas de sol acumulado ao longo da vida: face, dorso das mãos, couro cabeludo de quem tem pouco cabelo, orelhas e, num ponto que merece destaque, o lábio inferior. Lesão persistente no lábio, com aspecto rachado, esbranquiçado ou endurecido, que não sara, é um alerta clássico e frequentemente confundido com ressecamento comum.

Sobre a capacidade de se espalhar, a grande maioria dos espinocelulares se resolve com o tratamento local. A disseminação ocorre numa minoria, algo na casa de poucos por cento, e é mais provável em tumores maiores, mais profundos, que já voltaram depois de um tratamento, que surgem em pele previamente irradiada, que aparecem no lábio ou na orelha, ou em quem tem a imunidade baixa.

A ceratose actínica, o aviso que costuma vir antes

Muitos espinocelulares não aparecem do nada. Antes deles surge a ceratose actínica, uma lesão áspera, avermelhada ou acastanhada, geralmente pequena, que se percebe mais pelo tato do que pela vista, como uma lixa fina na testa, no nariz, nas orelhas, no couro cabeludo ou no dorso das mãos.

Ela é a marca do sol acumulado, e é muito comum depois de certa idade. Cada lesão isolada, sozinha, diz pouco. O que preocupa é o conjunto: quem tem uma costuma ter várias, e a área de pele ao redor foi igualmente castigada pelo sol ao longo de décadas. É esse território inteiro que carrega risco aumentado com o passar do tempo.

Na prática, trata-se disso com relativa facilidade. O dermatologista pode tratar lesão a lesão, com a crioterapia, que congela a lesão com nitrogênio líquido, ou tratar a área toda, com medicações aplicadas na pele por algumas semanas ou com terapia fotodinâmica, que combina um creme e uma luz aplicada no consultório. Qual método usar é decisão dele, e depende de quantas lesões existem e de onde estão.

Quem precisa olhar a pele com mais atenção

Alguns fatores concentram o risco desses tumores, e conhecê-los serve para orientar o cuidado, sem cobrar de ninguém o sol que já tomou.

  • Sol acumulado ao longo da vida. É o fator dominante aqui, e explica por que esses tumores aparecem sobretudo depois dos 50 ou 60 anos, e com mais frequência em quem trabalhou anos ao ar livre.
  • Pele que queima com facilidade e bronzeia pouco, em geral acompanhada de olhos e cabelos claros.
  • Imunidade baixa. O efeito é grande: pessoas transplantadas, que usam medicamentos para evitar a rejeição do órgão, têm risco de câncer de pele muitas vezes maior que o da população geral, com predomínio do espinocelular. Quem está nessa situação merece acompanhamento dermatológico regular, e não apenas quando surge uma lesão.
  • Já ter tido um câncer de pele, o que por si só indica seguimento dermatológico periódico.
  • Cicatrizes de queimadura antigas, feridas crônicas e áreas que receberam radioterapia no passado, onde o espinocelular pode surgir anos depois.

Como se faz o diagnóstico

A avaliação começa no exame da pele pelo dermatologista, com o dermatoscópio. Ele orienta a suspeita, sem fechar o diagnóstico.

Quem fecha é a biópsia: o dermatologista retira um fragmento da lesão, ou ela inteira quando é pequena, e o material vai para o microscópio. É esse exame que diz se existe câncer e de qual tipo, o que muda a conduta. Costuma ser feito no próprio consultório, com anestesia local, sem necessidade de internação.

A regra do ABCDE, útil para avaliar pintas e reconhecer o melanoma, não é a régua certa por aqui, inclusive porque parte dos basocelulares é escura e imita uma pinta. O que manda neste grupo é outra coisa: a lesão que cresce, que sangra, que forma crosta de novo e de novo ou que não cicatriza. Se o seu caso é uma pinta suspeita, o texto sobre os sinais do melanoma trata exatamente disso.

Como se trata

Na maior parte dos casos o tratamento é local e, na maior parte das vezes, definitivo. A base dele é a cirurgia, feita pelo dermatologista ou pelo cirurgião: retira-se a lesão com uma margem de segurança, e o material é examinado ao microscópio.

Para tumores do rosto, lesões que já voltaram e situações de maior risco, a dermatologia reserva a cirurgia micrográfica de Mohs, que remove o tumor por camadas e examina as margens durante o próprio procedimento, o que confirma se a retirada foi completa e poupa ao máximo a pele sadia ao redor.

Existem ainda opções para lesões superficiais e de baixo risco, como a crioterapia, a curetagem e medicações aplicadas sobre a pele, além da radioterapia, útil quando a cirurgia não é viável. Aqui vale uma diferença pouco comentada: nessas técnicas não se examina o tecido retirado, então não há como confirmar ao microscópio se a remoção foi completa, o que torna o acompanhamento da área ainda mais importante. A escolha entre elas é do dermatologista que avalia a lesão.

Uma minoria de casos foge desse roteiro. São os tumores que cresceram muito, invadiram estruturas profundas ou se espalharam, e que já não se resolvem com cirurgia ou radioterapia. Para eles existe hoje a imunoterapia, um anticorpo que bloqueia o PD-1, um freio que o tumor usa para escapar do sistema imune. No estudo que consolidou essa opção, o EMPOWER-CSCC-1, cerca de metade dos pacientes respondeu ao tratamento, e as respostas costumam durar bastante. É um avanço dos últimos anos, ainda pouco divulgado, justamente por atingir a fração menor dos casos.

Há também uma situação intermediária que costuma passar despercebida. Mesmo quando o tumor foi inteiramente removido, alguns casos de espinocelular são considerados de alto risco pelas características da cirurgia e da lesão. Nesse grupo, o estudo C-POST mostrou que acrescentar imunoterapia depois da cirurgia e da radioterapia reduz de forma expressiva a chance de a doença voltar. É uma avaliação que cabe ao oncologista, e que vale ser feita antes de considerar o assunto encerrado.

Quando procurar avaliação

Antes da lista, uma ressalva que evita noites mal dormidas: a imensa maioria das manchas, casquinhas e marcas que aparecem na pele ao longo da vida é benigna. O objetivo aqui não é fazer você auditar cada centímetro do corpo, e sim reconhecer o padrão que destoa.

Procure um dermatologista se notar:

  • uma ferida que não cicatriza em algumas semanas, ou que cicatriza e reabre no mesmo ponto;
  • uma lesão nova que está crescendo, sobretudo no rosto, nas orelhas, no couro cabeludo, no lábio ou no dorso das mãos;
  • uma lesão que sangra com facilidade ou forma crosta que se refaz sempre no mesmo lugar;
  • áreas ásperas e avermelhadas que aparecem em pele muito exposta ao sol.

Do lado da prevenção, tudo o que reduz a exposição à radiação ultravioleta reduz o risco desses tumores. Reuni o que funciona, e como usar cada recurso do jeito certo, no texto sobre proteção solar.

Este é um câncer de números enormes e, em geral, de desfechos muito bons, e é essa combinação que define o que está em jogo. Deixado por anos, cobra cirurgias maiores e sequelas. Encontrado cedo, costuma se resolver com um procedimento pequeno, feito no consultório, e a distância entre um cenário e outro costuma ser apenas o tempo até alguém olhar a lesão.


A maior parte desses casos começa e termina no consultório do dermatologista, e é a ele que você deve levar uma ferida que não cicatriza, uma lesão que cresce ou a checagem periódica da pele. Como oncologista, entro numa fração menor dessa história: a dos tumores que avançaram e a dos casos operados que, por serem de alto risco, merecem discutir um tratamento adicional para reduzir a chance de recidiva. Se você está em uma dessas duas situações, estou à disposição para avaliar o caso junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.
  • American Cancer Society. Basal and Squamous Cell Skin Cancer: Signs and Symptoms.
  • Cameron MC, Lee E, Hibler BP, et al. Basal cell carcinoma: epidemiology, pathophysiology, clinical and histological subtypes, and disease associations. Journal of the American Academy of Dermatology, 2019.
  • Caudill J, Thomas JE, Burkhart CG. The risk of metastases from squamous cell carcinoma of the skin. International Journal of Dermatology, 2023.
  • American Academy of Family Physicians. Management of Actinic Keratoses and Keratinocyte Carcinomas. FP Essentials, 2026.
  • Hughes BGM, Guminski A, Bowyer S, et al. A phase 2 open-label study of cemiplimab in patients with advanced cutaneous squamous cell carcinoma (EMPOWER-CSCC-1): final long-term analysis of groups 1, 2, and 3, and primary analysis of fixed-dose treatment group 6. Journal of the American Academy of Dermatology, 2024.
  • Rischin D, Porceddu S, Day F, et al. Adjuvant Cemiplimab or Placebo in High-Risk Cutaneous Squamous-Cell Carcinoma. New England Journal of Medicine, 2025.

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