Câncer de bexiga: sintomas, tipos, tratamento e quando tem cura

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

A urina ficou avermelhada numa manhã, sem dor nenhuma, e no dia seguinte voltou ao normal. Como não doeu e passou, é comum deixar para lá.

Em resumo

  • Sangue na urina, muitas vezes sem dor, é o sinal mais comum do câncer de bexiga, e o exame central da investigação é a cistoscopia.
  • O tratamento depende da camada da bexiga que o tumor atingiu: cerca de 3 em cada 4 casos são não músculo-invasivos, os chamados superficiais, e 1 em cada 4 já invade o músculo.
  • O tumor superficial tem boa chance de cura, mas volta com frequência e pede acompanhamento com cistoscopias e, em parte dos casos, tratamento dentro da bexiga com BCG.
  • O tumor que invade o músculo pode ser curado em parte dos casos, com cirurgia ou preservação da bexiga e, em muitos casos, medicamentos antes e depois da cirurgia.

Sangue visível na urina, sem dor, que aparece e some, é o sinal mais comum do câncer de bexiga. Ele tem outras causas, como infecção urinária, pedra nos rins ou um tumor de rim, e é a investigação que separa uma causa da outra.

O que é o câncer de bexiga

Mais de 90% dos cânceres de bexiga nascem do urotélio, o revestimento interno da bexiga. Daí o nome que aparece no laudo, carcinoma urotelial. No Brasil, o INCA estima 13.110 casos novos por ano entre 2026 e 2028, 9.040 em homens e 4.070 em mulheres.

O cigarro é o principal fator de risco, ligado a cerca de metade dos casos. O segundo é a exposição prolongada, no trabalho, a certas substâncias químicas usadas na indústria. Há também quem tenha a doença sem nenhum desses fatores.

Como se faz o diagnóstico

Diante de sangue na urina, o exame que esclarece é a cistoscopia, em que uma câmera fina entra pela uretra e mostra o interior da bexiga. Ultrassom e tomografia ajudam, mas podem não mostrar um tumor pequeno e não bastam para afastar a doença.

Quando a cistoscopia mostra uma lesão, o passo seguinte é a ressecção transuretral, a RTU. Feita pela uretra, sem corte na pele, ela retira o tumor visível e entrega o material ao patologista. A RTU é ao mesmo tempo diagnóstico e primeiro tratamento. Às vezes precisa ser repetida.

Não músculo-invasivo ou músculo-invasivo: até onde o tumor chegou

O laudo da RTU diz até onde o tumor chegou na parede da bexiga. Cerca de 3 em cada 4 pessoas têm, no diagnóstico, um tumor não músculo-invasivo, o chamado tumor superficial, restrito ao revestimento ou à camada logo abaixo dele. Ele tem boa chance de cura, mas recidiva com frequência. O acompanhamento dura anos. As outras têm um tumor músculo-invasivo, que já atingiu a camada muscular da parede. Aqui a cura também é possível, sobretudo quando não há metástases, e o tratamento costuma somar cirurgia ou radioterapia a medicamentos.

O tumor superficial

O laudo também classifica o tumor em baixo ou alto grau, conforme o quanto as células parecem agressivas ao microscópio. O alto grau tende mais a voltar e avançar. O risco de cada caso é estimado sobretudo pelo grau, pela profundidade, pelo tamanho e pelo número de lesões.

Nos tumores de baixo risco, além da RTU, pode ser aplicada uma dose única de quimioterapia dentro da bexiga logo depois da ressecção. No risco intermediário, a quimioterapia dentro da bexiga é em geral a primeira opção, e o BCG é uma alternativa.

No alto risco, o tratamento padrão é o BCG, por um a três anos. Ele começa com aplicações semanais e segue com doses de manutenção em intervalos espaçados. O BCG é uma forma de imunoterapia: é a mesma bactéria atenuada da vacina contra a tuberculose, colocada dentro da bexiga por uma sonda, e provoca uma reação de defesa local que ajuda a evitar a volta do tumor. Sintomas parecidos com os de uma infecção urinária são frequentes durante o tratamento. Complicações graves atingem menos de 5 em 100.

Em quem ainda não fez BCG, existe hoje a opção de somar a ele uma imunoterapia na veia, o durvalumabe, aplicado a cada quatro semanas por cerca de um ano. No estudo que levou a essa opção, a combinação reduziu a chance de a doença voltar em comparação com o BCG sozinho, à custa de mais efeitos colaterais. O ganho só apareceu quando o BCG foi feito com a fase de manutenção. A indicação é avaliada caso a caso, entre urologista e oncologista.

Em todos os grupos, o acompanhamento é feito com cistoscopias periódicas. Uma lesão nova encontrada cedo costuma ser resolvida com outra RTU.

Quando o tumor volta apesar do BCG, há outras opções. Uma é a quimioterapia dentro da bexiga, com gencitabina sozinha ou combinada com docetaxel. Outra, nos tumores de alto risco com carcinoma in situ, uma forma plana do tumor que cresce rente à superfície, é deixar o BCG e passar para outra imunoterapia na veia, o pembrolizumabe, conduzida pelo oncologista. A retirada da bexiga fica, em geral, para recidivas repetidas.

O tumor que invade o músculo

Quando o tumor atinge o músculo, mas segue localizado, busca-se a cura. O caminho mais usado é a cistectomia radical, a retirada da bexiga com os linfonodos (gânglios) próximos, seguida da reconstrução de uma forma de a urina sair do corpo. A alternativa é a preservação da bexiga, que combina uma RTU o mais completa possível com quimioterapia e radioterapia. Ela serve melhor a casos selecionados, como o tumor único, sem carcinoma in situ extenso, sem obstrução dos rins e com a bexiga funcionando bem.

Essa escolha costuma passar por uma discussão multidisciplinar, com urologista, oncologista e radioterapeuta, e é decidida junto com o paciente.

Nos pacientes que vão à cirurgia, os medicamentos podem vir antes e depois dela. A quimioterapia com cisplatina antes da cistectomia melhora a sobrevida, e hoje pode ser associada à imunoterapia, que continua depois da operação. Nem todos podem receber cisplatina. Em geral, o motivo são os rins. Para eles, a combinação é de imunoterapia com um remédio que carrega a quimioterapia até a célula do tumor, também antes e depois da cirurgia. O resultado da cirurgia também pesa na escolha.

Quando a doença está avançada

Quando já há metástases, os medicamentos passam a ser o centro do tratamento. Eles incluem imunoterapia, quimioterapia e remédios que carregam a quimioterapia até a célula do tumor, muitas vezes combinados. Pode ser pedida uma análise molecular do tumor, que em alguns casos abre a opção de um comprimido dirigido.


O urologista conduz a RTU, o BCG e a cirurgia. A quimioterapia e a imunoterapia na veia, e o tratamento da doença metastática, são a parte que conduzo com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

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  • National Cancer Institute. Bladder Cancer Treatment (PDQ): Health Professional Version, 2025.
  • European Association of Urology. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer, 2026.
  • European Association of Urology. EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer, 2026.
  • Balar AV, Kamat AM, Kulkarni GS, et al. Pembrolizumab monotherapy for the treatment of high-risk non-muscle-invasive bladder cancer unresponsive to BCG (KEYNOTE-057): an open-label, single-arm, multicentre, phase 2 study. The Lancet Oncology, 2021.
  • De Santis M, Palou Redorta J, Nishiyama H, et al. Durvalumab in combination with BCG for BCG-naive, high-risk, non-muscle-invasive bladder cancer (POTOMAC): final analysis of a randomised, open-label, phase 3 trial. The Lancet, 2025.
  • Advanced Bladder Cancer Meta-analysis Collaboration. Neoadjuvant chemotherapy in invasive bladder cancer: a systematic review and meta-analysis. The Lancet, 2003.
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  • Vulsteke C, Adra N, Danchaivijitr P, et al. Perioperative Enfortumab Vedotin and Pembrolizumab in Bladder Cancer. The New England Journal of Medicine, 2026.
  • Bajorin DF, Witjes JA, Gschwend JE, et al. Adjuvant Nivolumab versus Placebo in Muscle-Invasive Urothelial Carcinoma. The New England Journal of Medicine, 2021.
  • James ND, Hussain SA, Hall E, et al. Radiotherapy with or without chemotherapy in muscle-invasive bladder cancer. The New England Journal of Medicine, 2012.

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