Ki-67 alto é grave? O que esse número do laudo quer dizer

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

No laudo da biópsia, o Ki-67 vem como uma porcentagem, geralmente ao lado do tipo de tumor e dos receptores. O número mede quantas células do tumor estavam se dividindo no momento da biópsia. Um valor alto costuma indicar um tumor de crescimento mais rápido, mas, sozinho, ele não diz se o caso é grave nem decide o tratamento. E o que conta como “alto” muda de um tipo de tumor para outro.

O que o exame mede

O Ki-67 é uma proteína que a célula produz enquanto está em processo de divisão e que desaparece quando ela está em repouso. O patologista usa uma técnica de coloração, a imuno-histoquímica, e conta quantos núcleos aparecem marcados. Se 30 em cada 100 estão marcados, o laudo traz 30%.

A medida tem limites conhecidos. O valor muda conforme a região do tumor examinada, e um grupo internacional de patologistas mostrou que laboratórios diferentes, analisando o mesmo material, chegam a números diferentes, sobretudo na faixa intermediária.

No câncer de mama

É onde o Ki-67 mais aparece. O mesmo grupo internacional concluiu que ele ajuda a estimar o risco de a doença voltar num grupo específico: tumores iniciais com receptor de estrogênio positivo e HER2 negativo. Mesmo nesse grupo, só os extremos são confiáveis, até 5% ou a partir de 30%. Entre um e outro, o número não deve, sozinho, mudar uma conduta.

Em um grande estudo de tratamento após a cirurgia, o Ki-67 alto indicou maior risco de a doença voltar, mas não mostrou quem se beneficiaria da medicação testada: o benefício apareceu com Ki-67 alto ou baixo. Ao contrário do que se espera, estudos observacionais mostram que tumores de mama com Ki-67 alto tendem a responder mais à quimioterapia feita antes da cirurgia.

Os receptores hormonais, o HER2 e o estágio pesam mais na decisão do que o Ki-67. O texto sobre os tipos de câncer de mama mostra como essas peças se combinam.

Nos tumores neuroendócrinos

Nesses tumores, o Ki-67 entra na própria classificação da Organização Mundial da Saúde e, junto com a contagem de células em divisão, define o grau do tumor. Nos tumores do aparelho digestivo, abaixo de 3% é grau 1, de 3% a 20% é grau 2 e acima de 20% é grau 3. Quando os dois critérios discordam, vale o que dá o grau mais alto.

Um Ki-67 de 15%, que no câncer de mama fica na faixa sem conclusão, num tumor neuroendócrino já define o grau 2. O que cada grau muda no tratamento está no texto sobre tumor neuroendócrino.


Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Gerdes J, et al. Cell cycle analysis of a cell proliferation-associated human nuclear antigen defined by the monoclonal antibody Ki-67. J Immunol, 1984.
  • Nielsen TO, et al. Assessment of Ki67 in Breast Cancer: Updated Recommendations From the International Ki67 in Breast Cancer Working Group. J Natl Cancer Inst, 2021.
  • Harbeck N, et al. Adjuvant abemaciclib combined with endocrine therapy for high-risk early breast cancer: updated efficacy and Ki-67 analysis from the monarchE study. Ann Oncol, 2021.
  • Tao M, et al. Ki-67 labeling index is a predictive marker for a pathological complete response to neoadjuvant chemotherapy in breast cancer: A meta-analysis. Medicine (Baltimore), 2017.
  • Nagtegaal ID, et al. The 2019 WHO classification of tumours of the digestive system. Histopathology, 2020.

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