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O que faz um oncologista clínico

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

Depois de um diagnóstico de câncer, a frase que a pessoa ouve é quase sempre a mesma: você vai precisar de um oncologista. O que ninguém explica é que existem três especialidades médicas diferentes atendendo por esse nome, que a pessoa provavelmente vai passar por mais de uma delas, e que só uma costuma acompanhá-la do começo ao fim.

Três especialidades, um nome só

Até 2017 havia no Brasil uma especialidade guarda-chuva chamada cancerologia. Ela deixou de existir naquele ano, quando o Conselho Federal de Medicina reorganizou a área e reconheceu, no lugar, especialidades separadas. Hoje a divisão é esta:

  • O oncologista clínico trata o câncer com medicamentos. É o tema deste texto.
  • O cirurgião oncológico opera: retira o tumor e, quando é o caso, os gânglios que precisam ser examinados.
  • O radio-oncologista trata com radiação, planejando onde ela entra, em qual dose e em quantas sessões.

Muita gente vai precisar dos três, em ordens que mudam conforme o tumor. Às vezes se opera primeiro e depois se faz medicamento. Às vezes o medicamento vem antes, justamente para reduzir o tumor e permitir uma cirurgia menor. A ordem escolhida não é acaso, e diz bastante sobre a estratégia.

Há ainda dois pontos que confundem. Os cânceres do sangue, como leucemias, linfomas e mieloma, são tratados tanto pelo hematologista quanto pelo oncologista clínico, conforme a formação de cada profissional e a organização do serviço, e não existe uma divisão rígida ali. E o câncer na criança tem campo próprio, a oncologia pediátrica, que o CFM reconhece como área de atuação com formação específica.

O que ele decide, que é diferente do que ele prescreve

O retrato mais comum do oncologista clínico é o de quem prescreve a medicação. É verdade, e é pouco. O que define o trabalho não é a receita, são as decisões que vêm antes e depois dela, e elas são estas:

  • Qual tratamento, a partir do que o laudo diz. Dois tumores que parecem iguais na tomografia podem exigir tratamentos completamente diferentes, dependendo do que a análise do tecido mostrou. É o que separa os subtipos de câncer de mama, e é o que abre um caminho inteiro no câncer de pulmão em quem nunca fumou, quando o exame encontra a mutação certa.
  • Em que ordem, junto com os outros dois. Essa combinação costuma ser fechada numa reunião em que o oncologista clínico, o cirurgião, o radio-oncologista, o patologista e o radiologista discutem o caso juntos, antes de qualquer coisa começar.
  • Quanto, e quando ajustar. A dose se calcula, mas se corrige o tempo todo, conforme o exame de sangue, o peso, a função dos rins e do fígado, e o que a pessoa está sentindo.
  • Quando trocar. Reconhecer que um tratamento parou de funcionar, e a hora certa de mudar, é uma das partes mais técnicas do trabalho, e depende de ler exames de imagem em série, não um exame isolado.
  • Quando não tratar. Existe decisão de não iniciar e decisão de interromper, e as duas são atos médicos tanto quanto prescrever. Tratar alguém que não vai se beneficiar é um erro com o mesmo peso do erro oposto.

Ele é o médico que fica

Essa é a parte que mais importa na prática e a que menos se explica. O cirurgião entra num momento e sai. O radio-oncologista entra num período e sai. O oncologista clínico é quem atravessa a coisa toda.

Ele é o médico que a pessoa vê com mais frequência, muitas vezes a cada duas ou três semanas durante meses. É quem recebe o telefonema quando aparece febre num sábado. É quem coordena os pedaços e faz a ponte entre as especialidades. E é quem continua depois, porque terminar o tratamento não encerra o acompanhamento: existe um período de seguimento, com consultas e exames espaçados ao longo dos anos, que serve para detectar cedo qualquer retorno e para cuidar do que o tratamento deixou pelo caminho.

É também com ele que se conversa sobre a participação em estudos clínicos, quando existe algum aberto que faça sentido para o caso.

O elo entre quem cuida

Um tratamento oncológico passa por muito mais gente do que a pessoa imagina no começo. Além dos três médicos das especialidades oncológicas, entram no caminho o patologista que lê a biópsia, o radiologista que compara os exames, a enfermagem que aplica e observa, o farmacêutico que prepara, e a depender do caso o dentista antes de começar, o fisioterapeuta na recuperação, o nutricionista, o psicólogo, o serviço social e a equipe de cuidados paliativos.

O problema é que quase ninguém vive isso como uma equipe. O paciente vive uma sequência de consultas, em endereços diferentes, com pessoas que não se falam na frente dele. Alguém precisa segurar esse fio, receber o que cada um viu e decidir o que aquilo muda no plano. Esse alguém costuma ser o oncologista clínico, e é aí que ele deixa de ser só quem prescreve e passa a ser quem coordena.

Isso tem uma forma organizada, que é a discussão do caso em reunião com as outras especialidades, antes de o tratamento começar ou quando ele precisa mudar de rumo. E tem uma forma cotidiana, menos visível e igualmente importante: o resultado que chega de um serviço e precisa ser interpretado à luz do que outro serviço está fazendo, a medicação que um especialista introduz e que interage com o tratamento, o sintoma que parece de uma coisa e é de outra.

Vale saber que essa articulação existe, e que ela é parte do trabalho, não uma cortesia. Quando ela falha, o paciente é quem sente: exames repetidos à toa, informações que não chegam de um lado ao outro, e decisões tomadas sem que quem conduz o caso soubesse.

Onze anos até a primeira consulta

A formação de um oncologista clínico no Brasil tem um caminho fixo, e vale conhecê-lo porque ele explica por que a especialidade é reconhecida como tal.

São seis anos de faculdade de medicina. Depois, dois anos de residência em clínica médica, que é pré-requisito obrigatório e não tem atalho: não existe acesso direto à oncologia clínica. Só então vêm os três anos de residência na especialidade. São onze anos no total, e os dois anos de clínica médica no meio explicam uma característica que os pacientes notam: ele foi formado antes como médico de adulto inteiro. Isso conta na hora de distinguir o que é efeito do tratamento do que é outra coisa acontecendo ao mesmo tempo, e de decidir o que precisa entrar na conta antes de seguir. As condições crônicas que a pessoa já tinha continuam com quem as acompanha, e a tendência é essa divisão ficar mais nítida, não menos, à medida que cada área se aprofunda.

Como confirmar a especialidade de um médico

Existe um número chamado RQE, sigla de Registro de Qualificação de Especialista. É o registro que comprova, junto ao conselho, que aquele médico tem formação reconhecida naquela especialidade, e é diferente do número do CRM, que todo médico tem.

Essa informação é pública e existe exatamente para poder ser consultada. Dá para verificar sem cadastro, no portal do Conselho Federal de Medicina, pela ferramenta de busca de médico, ou no site do conselho regional do estado. Aparece o nome, a situação do registro e em qual especialidade a pessoa tem o RQE.

Não é um exercício de desconfiança, é o mesmo tipo de informação pública que existe em qualquer profissão regulamentada. E ajuda a entender uma coisa que confunde muita gente: um médico pode trabalhar com pacientes oncológicos sem ser oncologista clínico, e as duas coisas são legítimas em contextos diferentes.

A quem perguntar o quê

Uma consequência prática de tudo isso, para quem está no meio do tratamento e não sabe a quem dirigir cada dúvida:

  • Sobre o remédio, os efeitos, a dose e o próximo passo do tratamento: o oncologista clínico.
  • Sobre a cirurgia, a cicatriz, o que foi retirado e o que o exame da peça mostrou: o cirurgião.
  • Sobre as sessões de radiação, a marcação na pele e os efeitos na área irradiada: o radio-oncologista.
  • Sobre dor, náusea persistente, sono, apetite e o cansaço que não passa: vale trazer ao oncologista clínico, que decide se resolve ali ou se chama a equipe de cuidados de suporte.

E se você está nos primeiros dias depois do diagnóstico, ainda montando o quebra-cabeça de para onde ir, reuni o que costuma ajudar nesse começo em outro texto.


Sou médico oncologista clínico e é esse o trabalho que faço: escolher e conduzir o tratamento com medicamentos, coordenar com a cirurgia e a radioterapia quando elas entram, e acompanhar o seguimento depois. Estou à disposição para conduzir o seu tratamento junto com você e com a sua família.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.162, de 2017: reconhecimento das especialidades de Oncologia Clínica e Cirurgia Oncológica.
  • Conselho Federal de Medicina. Registro de Qualificação de Especialista (RQE): consulta pública de médicos e especialidades.
  • Comissão Nacional de Residência Médica, Ministério da Educação. Pré-requisitos dos programas de residência médica em Oncologia Clínica.

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