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Câncer de pulmão de pequenas células: o tipo mais agressivo, e o que mudou no tratamento

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

O câncer de pulmão de pequenas células é o menos comum dos tumores de pulmão, cerca de 15% dos casos, e também o mais agressivo. Ele se multiplica e se espalha em semanas, não em meses, e por isso costuma ser diagnosticado quando a doença já saiu do pulmão. Também é tratado de um jeito diferente do tipo mais comum de câncer de pulmão, cujos sinais gerais reuni em outro texto.

Há uma segunda parte nessa história, e é boa: depois de décadas quase sem novidades, os últimos anos trouxeram avanços reais no tratamento dessa doença.

O que torna as pequenas células diferentes

Os cânceres de pulmão se dividem, em linhas gerais, em dois grandes grupos. O mais comum, de não pequenas células, responde por cerca de 85% dos casos e é onde estão as tais mutações que abrem tratamentos dirigidos a alvos, um assunto que tratei no texto sobre o câncer de pulmão em quem nunca fumou. O outro grupo é o de pequenas células, o tema deste texto.

Três características definem o câncer de pulmão de pequenas células:

  • É fortemente ligado ao cigarro. Quase a totalidade dos casos ocorre em quem fuma ou fumou, numa proporção que passa de 95%. Isso não é dito para culpar ninguém, e sim porque explica parte do comportamento do tumor e reforça que parar de fumar continua valendo em qualquer momento.
  • Cresce e se espalha rápido. É um tumor de multiplicação veloz. Por isso, quando é diagnosticado, em cerca de 7 de cada 10 casos ele já se espalhou para fora do pulmão, o que se chama de doença extensa.
  • O tratamento é diferente. Justamente por se espalhar cedo, o câncer de pulmão de pequenas células raramente é tratado com cirurgia. O eixo do tratamento são os medicamentos, quimioterapia e imunoterapia, somados à radioterapia em parte dos casos.

Há também um lado que joga a favor: por se multiplicar rápido, esse tumor costuma ser muito sensível ao tratamento no início, com respostas expressivas logo nos primeiros ciclos. O desafio é a doença tender a voltar, e é exatamente aí que a medicina avançou nos últimos anos.

Como os sinais aparecem

Os sintomas se sobrepõem aos do câncer de pulmão em geral: tosse que não passa ou muda de padrão, escarro com sangue, falta de ar, dor no peito, rouquidão, perda de peso e cansaço. A diferença está no tempo. Como o tumor cresce rápido, esses sinais costumam surgir e piorar em semanas, não em meses.

Há ainda uma particularidade do tipo pequenas células: ele pode produzir substâncias que desregulam o corpo à distância, causando quadros como sódio baixo no sangue, fraqueza muscular ou alterações hormonais, às vezes antes mesmo de o tumor dar sintomas respiratórios. São as chamadas síndromes paraneoplásicas, e podem ser a primeira pista.

Vale a mesma ressalva de sempre, para não gerar alarme: tosse e cansaço têm, quase sempre, causas banais. O que pede avaliação sem demora é o sintoma respiratório que aparece e avança depressa, principalmente em quem fuma ou fumou.

Como se faz o diagnóstico

Diante da suspeita, o caminho até o diagnóstico costuma ser rápido, e com razão, porque aqui o tempo conta. Em geral começa com uma tomografia do tórax, que mostra o tumor e ajuda a planejar a coleta de material. A confirmação vem de uma biópsia, muitas vezes obtida por broncoscopia, um exame em que uma câmera fina percorre as vias respiratórias e retira um fragmento para análise no microscópio.

Feito o diagnóstico, o passo seguinte é o estadiamento, isto é, mapear até onde a doença chegou, porque é isso que define o tratamento. Costuma envolver exames de imagem do corpo, como tomografia ou PET, e uma avaliação do cérebro por ressonância, já que este é um tumor com tendência a se espalhar para lá. Na prática, esse mapeamento separa duas situações: a doença limitada, restrita ao tórax e a uma área que cabe num campo de radioterapia, e a doença extensa, quando já foi além disso. É essa divisão que orienta tudo o que vem depois.

O que mudou no tratamento

Por muito tempo, o tratamento do câncer de pulmão de pequenas células ficou praticamente parado, apoiado na quimioterapia à base de platina, eficaz no começo, mas com a doença voltando cedo. Esse cenário mudou, e vale separar por situação.

Na doença limitada, restrita ao tórax, o tratamento combina quimioterapia e radioterapia com intenção de cura. A novidade importante veio do estudo ADRIATIC: acrescentar a imunoterapia com durvalumabe após a quimiorradioterapia prolongou de forma significativa a sobrevida, elevando a mediana de cerca de 33 para quase 56 meses. Foi descrito como o primeiro avanço relevante nessa fase da doença em cerca de três décadas.

Na doença extensa, já espalhada, o tratamento não usa a radioterapia com intenção de cura da doença limitada. O eixo passou a ser a quimioterapia combinada com a imunoterapia: o atezolizumabe (estudo IMpower133) ou o durvalumabe (estudo CASPIAN) são administrados junto com a quimioterapia e mantidos depois que ela termina. Somar a imunoterapia dessa forma ampliou o controle da doença e a sobrevida em relação à quimioterapia isolada.

Para os casos que voltam após esse primeiro tratamento, chegou um medicamento de mecanismo inédito, o tarlatamabe (estudo DeLLphi-301). Ele é um anticorpo de dupla ligação: de um lado, reconhece uma marca na superfície da célula tumoral, chamada DLL3; de outro, prende-se a uma célula de defesa do próprio paciente, o linfócito T. Ao conectar as duas, faz a célula de defesa reconhecer e atacar o tumor.

O ponto que quero deixar não é uma promessa, é uma correção de expectativa: o câncer de pulmão de pequenas células é grave e agressivo, mas deixou de ser uma doença sem novidades. Depois de anos de estagnação, voltou a ter avanços que mudam o rumo de parte dos pacientes.

Rastreamento e prevenção

Como o tumor cresce depressa, o câncer de pulmão de pequenas células é mais difícil de flagrar cedo do que os tipos de crescimento lento. Ainda assim, o rastreamento com tomografia de baixa dose, indicado a quem fuma ou fumou bastante, é a melhor ferramenta disponível para encontrar cânceres de pulmão antes dos sintomas, e detalhei quem deve fazê-lo no texto sobre o rastreamento de câncer de pulmão.

A medida que mais reduz o risco continua sendo não fumar, e parar de fumar em qualquer idade. Não se trata de acerto de contas com o passado, e sim da decisão de saúde que mais muda o futuro, inclusive durante o tratamento, quando parar ainda traz benefício.

Quando procurar avaliação

Vale buscar avaliação médica sem demora se você, principalmente se fuma ou já fumou:

  • tem tosse, falta de ar ou escarro com sangue que apareceram e vêm piorando em poucas semanas;
  • notou perda de peso, cansaço intenso ou outros sintomas sem explicação, de instalação rápida;
  • recebeu num exame a suspeita de um tumor no pulmão e quer entender de que tipo se trata e o que fazer.

Neste tipo de câncer, agir rápido diante de um quadro que avança depressa faz parte do tratamento.


Cuido de câncer de pulmão, incluindo o de pequenas células, e a imunoterapia, que teve papel central nos avanços recentes desta doença, é parte do meu dia a dia. Se você recebeu esse diagnóstico e quer avaliar o tratamento, estou à disposição, como oncologista, para conduzir o caso junto com você. E se você tem sintomas que apareceram e progridem rápido, não deixe para depois: procure avaliação médica sem demora.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

  • Cheng Y, et al. Durvalumab after Chemoradiotherapy in Limited-Stage Small-Cell Lung Cancer (ADRIATIC). New England Journal of Medicine, 2024.
  • Horn L, et al. First-Line Atezolizumab plus Chemotherapy in Extensive-Stage Small-Cell Lung Cancer (IMpower133). New England Journal of Medicine, 2018.
  • Paz-Ares L, et al. Durvalumab plus Platinum-Etoposide in First-Line Extensive-Stage Small-Cell Lung Cancer (CASPIAN). The Lancet, 2019.
  • Ahn MJ, et al. Tarlatamab for Patients with Previously Treated Small-Cell Lung Cancer (DeLLphi-301). New England Journal of Medicine, 2023.

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