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Cateter para quimioterapia: o que é, como é colocado e quanto tempo fica

Dr. Juliano Cé Coelho, oncologista clínico
Oncologista clínico · CRM-RS 34989 · RQE 29213

O enfermeiro tenta a veia do braço e não consegue. Tenta a outra. Na terceira tentativa, alguém comenta que talvez seja hora de pensar num cateter.

Muita gente ouve falar do assunto assim, no meio do tratamento, e sai da sessão achando que alguma coisa saiu do previsto. A veia do braço tem um limite, e chegar nele depois de meses de punção faz parte do que se espera.

O que é o cateter

O modelo mais usado em quimioterapia é um reservatório do tamanho de uma moeda, colocado sob a pele do tórax e ligado por um tubo fino a uma veia grande, perto do pescoço. Ele fica inteiro por dentro, coberto pela pele. Nos serviços, o nome que circula é port-a-cath, ou só port.

Depois de instalado, a agulha da sessão entra no reservatório. Por fora fica uma saliência discreta abaixo da clavícula, que a pessoa aprende a localizar com o dedo.

Existe também o PICC, um cateter fino que entra por uma veia do braço e avança até o tórax. Ele é mais simples de colocar e de retirar, e a diferença que mais pesa na rotina é a manutenção. O PICC tem um curativo por fora, que precisa de troca e de limpeza no serviço toda semana. O port fica sob a pele fechada e não pede nada disso entre um ciclo e outro. A escolha entre eles cabe à equipe, que pesa quanto tempo o tratamento deve durar e o que o serviço faz com mais frequência.

Por que ele foi proposto para você

Boa parte dos tratamentos vai do começo ao fim pela veia do braço, sem que o assunto apareça. Quando ele aparece, costuma ser num de dois momentos. Os dois são rotina.

O primeiro é antes da primeira sessão, na consulta em que o esquema é definido. Alguns tratamentos pedem o cateter desde o começo: os que correm em infusão contínua por dois ou três dias, com uma bomba portátil que a pessoa leva para casa, e os que incluem medicações capazes de machucar o tecido em volta caso escapem da veia. O segundo momento é no meio do caminho, depois de algumas sessões, quando as punções passam a falhar.

Quem passa pelo segundo costuma interpretar mal o que está acontecendo. A proposta chega junto com uma sessão difícil, o braço já está dolorido, e a leitura natural é a de que o tratamento se complicou. O que mudou foi a veia, não a doença.

Por que a veia do braço se esgota

A medicação cobra o seu preço na parede da veia. Algumas quimioterapias inflamam o vaso ao passar, e algumas machucam o tecido em volta se escapam dele, motivo pelo qual dor ou ardência no ponto da agulha não espera o fim da sessão, como escrevi em quimioterapia: como funciona e por que os efeitos colaterais são esses.

A repetição cobra o resto. Cada punção deixa a veia um pouco menos disponível para a seguinte, e depois de alguns meses o enfermeiro precisa de mais tentativas para conseguir o mesmo acesso. É esse acúmulo que a proposta do cateter vem interromper.

Como ele é colocado

A instalação é um procedimento cirúrgico pequeno, feito por um cirurgião. Não é a cirurgia do câncer, nem faz parte dela. A técnica varia conforme o serviço, e essa escolha pertence a quem opera.

O incômodo que se costuma relatar é dos dias seguintes, no ponto operado, e cede como cede o de qualquer incisão pequena. Vermelhidão que aumenta, dor que piora em vez de melhorar ou febre depois do procedimento merecem contato com a equipe.

Como é conviver com ele

O medo se concentra antes da instalação. Num levantamento com 618 pacientes de 17 hospitais, a satisfação com o port ficou em 8,25 de 10. Um estudo japonês observou algo que faz sentido para quem atende: a ansiedade prévia era maior justamente em quem chegava com veia ruim, e a satisfação depois foi alta em todos, independentemente do motivo da indicação.

O dispositivo também não desaparece da vida. Mais da metade das pessoas relata alguma preocupação com ele, e uma parte procura cobri-lo. O incômodo prático mais lembrado no dia a dia costuma ser o cinto de segurança passando por cima da região.

Entre um ciclo e outro, o que ele pede é uma lavagem periódica no serviço, para não obstruir. A orientação antiga era mensal, e ela foi se alongando à medida que os estudos apareceram: intervalos de dois e de três meses não produziram mais obstrução nem mais infecção, e um trabalho que acompanhou 87 pessoas com lavagem a cada três meses não registrou nenhuma infecção nem trombose sintomática. Muitos serviços hoje trabalham nesse intervalo maior, o que faz diferença para quem mora longe.

Quanto tempo ele fica

O cateter acompanha o tratamento, e a permanência varia de poucos meses a alguns anos conforme o plano. A saída faz parte do combinado desde o início: numa análise de 4.954 retiradas, 98,5% aconteceram depois de o tratamento terminar, num procedimento parecido com o de colocar.

O que pode dar errado, e o sinal

O 1,5% restante são as retiradas que não estavam no plano. A causa principal é infecção, em cerca de 2% dos dispositivos, e o mau funcionamento vem depois, em menos de 1%.

A outra complicação é a trombose, um coágulo na veia onde o cateter está. Aqui a evidência não fecha, e prefiro dizer isso a escolher um lado: a meta-análise que reuniu 22 estudos aponta menos trombose com o port, e a coorte que mediu no mundo real encontrou taxas parecidas nos dois, 9% no PICC e 7% no port. Acontece nos dois, e tem tratamento.

Na prática o que interessa é reconhecer cedo. Febre, vermelhidão, dor ou saída de secreção sobre o dispositivo pedem contato com a equipe no mesmo dia. Braço inchado de um lado só, principalmente com dor, também. Esses e os demais sinais que não esperam a próxima consulta estão em sinais de alarme no paciente em tratamento oncológico.


Recusar o cateter é possível, e em tratamento curto com veia preservada pode ser a decisão certa. O que ajuda a decidir é saber quantas punções o seu esquema vai pedir e o que ele carrega, e essa conta a equipe faz com você, seja antes da primeira sessão, seja no dia em que a veia avisar que chegou ao limite.

Se ficou dúvida sobre a indicação no seu caso, ela cabe na próxima consulta. Estou à disposição, como oncologista, para acompanhar o tratamento junto com você.

Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.

Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS

Referências

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  • Diaz JA, Rai SN, Wu X, et al. Phase II Trial on Extending the Maintenance Flushing Interval of Implanted Ports. Journal of Oncology Practice, 2017.
  • Yang WJ, Song MG, Seo TS, et al. Safety of 3-month flushing interval for prevention of occlusion in totally implantable venous access ports: an analysis focused on intraluminal clots. The Journal of Vascular Access, 2025.
  • Thomas T, Clark C, Backler C, et al. ONS/ASCO Guideline on the Management of Antineoplastic Extravasation. JCO Oncology Practice, 2026.
  • Su J, Liu L, Xie Y, Wang J. Complications associated with the removal of totally implantable venous access devices (TIVADs): a retrospective analysis of 4,954 breast cancer patients in a single institution. BMC Surgery, 2024.
  • Lin L, Li W, Chen C, et al. Peripherally inserted central catheters versus implantable port catheters for cancer patients: a meta-analysis. Frontiers in Oncology, 2023.
  • Nie S, Wang L, Li X, et al. Satisfaction and health-related quality of life in cancer patients with chest ports: a cross-sectional multicenter parallel mixed-methods study. The Journal of Vascular Access, 2026.
  • Fornaro C, Piubeni M, Tovazzi V, et al. Eight-week interval in flushing and locking port-a-cath in cancer patients: a single-institution experience and systematic review. European Journal of Cancer Care, 2019.

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