Entre a biópsia e o começo do tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células, muitas vezes existe uma espera que pesa. O diagnóstico já foi dado, a família quer começar logo, e o que ouvem é que ainda falta um resultado.
Em resumo
- O câncer de pulmão de não pequenas células reúne 80% a 85% dos casos de câncer de pulmão, e seus dois tipos principais são o adenocarcinoma e o carcinoma escamoso.
- Muitos adenocarcinomas dependem de uma alteração genética específica para crescer, como EGFR, ALK ou KRAS, e várias delas têm medicamento dirigido.
- A análise molecular procura essas alterações no material da biópsia ou da cirurgia, e o PD-L1, feito no mesmo material, ajuda a decidir o papel da imunoterapia.
- Quando a doença está no pulmão e nos linfonodos do tórax, sem metástases, o tratamento é feito com intenção de cura. Com metástases, o objetivo passa a ser o controle da doença.
O resultado que falta é a análise molecular. Ela é feita no mesmo material da biópsia e procura alterações nos genes do tumor, e o que ela encontra pode mudar o tratamento indicado.
O que é o câncer de pulmão de não pequenas células
O nome vem do tamanho das células vistas ao microscópio. O câncer de não pequenas células responde por 80% a 85% dos casos de pulmão, e o restante é o de pequenas células, que cresce mais depressa e tem tratamento próprio. No Brasil, o INCA estima 35.380 casos novos de câncer de pulmão por ano entre 2026 e 2028.
Dentro do grupo de não pequenas células, o tipo mais comum é o adenocarcinoma, seguido do carcinoma escamoso. O carcinoma de grandes células é menos frequente.
Adenocarcinoma e carcinoma escamoso: o que muda
O adenocarcinoma nasce de células com função de glândula, as que revestem os alvéolos, onde o ar faz a troca com o sangue. Ocorre em quem fuma ou fumou e é também o tipo que predomina em quem nunca fumou. É um tumor maligno, como todos os de não pequenas células. A gravidade depende sobretudo do estágio.
O carcinoma escamoso nasce das células achatadas que forram por dentro as vias aéreas. Por isso costuma aparecer na parte central do pulmão, perto dos brônquios maiores, e tem relação mais forte com o tabagismo do que os outros tipos.
O tipo de célula já muda a quimioterapia. Um estudo randomizado mostrou que o resultado do tratamento variava conforme a histologia, e desde então o pemetrexede, uma das quimioterapias do pulmão, é reservado aos tumores que não são escamosos. As alterações genéticas que permitem tratamento dirigido também se concentram no adenocarcinoma. No escamoso elas são raras, e a indicação de pesquisá-las é avaliada caso a caso, sobretudo em não fumantes.
O que a análise molecular procura
Muitos adenocarcinomas dependem de uma única alteração genética para crescer, chamada alteração condutora. Cada uma define um subgrupo da doença, com comportamento e tratamento próprios. As mais frequentes são as do KRAS e do EGFR. Outras são menos comuns, como ALK, ROS1, MET, HER2, BRAF, RET e NTRK. Para várias delas existe medicamento dirigido, que age sobre aquela alteração, e uma parte dos tumores não mostra nenhuma.
A forma preferida de fazer a análise é o painel genético, conhecido pela sigla NGS, que examina muitos genes de uma vez no material da biópsia ou da cirurgia. Assim o material não se esgota em exames separados, um gene por vez. Quando o tecido não basta, ou para ganhar tempo, o sangue também pode ser examinado. A biópsia líquida procura ali fragmentos do DNA do tumor e complementa o tecido sem substituí-lo, porque há tumores que liberam pouco DNA na circulação.
O PD-L1 sai do mesmo material. É uma coloração que mostra a porcentagem de células do tumor com essa proteína na superfície, e ajuda a decidir o papel da imunoterapia.
A análise não fica restrita à doença avançada. Hoje, a pesquisa de pelo menos EGFR e ALK faz parte da avaliação dos tumores operados e de quem vai receber tratamento antes da cirurgia, porque o resultado pode mudar o que vem depois.
Câncer de pulmão de não pequenas células tem cura?
O estágio, definido pelo sistema TNM, descreve o tamanho e a extensão do tumor, o comprometimento dos linfonodos e a presença ou não de metástases.
Quando a doença está no pulmão e nos linfonodos do tórax, sem metástases, e pode ser operada, a cirurgia pode curar, sozinha ou com tratamento complementar. Em tumores maiores ou com linfonodos comprometidos, quimioterapia com imunoterapia pode vir antes da operação, ou antes e depois dela. Também se pode operar primeiro e fazer a quimioterapia depois, às vezes seguida de imunoterapia. Com mutação do EGFR ou rearranjo do ALK, um medicamento dirigido pode vir depois da cirurgia.
Às vezes a cirurgia não é possível, pela posição do tumor ou pela função pulmonar. A intenção de cura continua. Num tumor pequeno, sem linfonodos acometidos, a radioterapia estereotáxica, de alta dose em poucas sessões, substitui a cirurgia. No estágio III que não pode ser operado, quimioterapia e radioterapia são feitas, em geral juntas, e depois pode vir a imunoterapia ou, com mutação do EGFR, o medicamento dirigido.
Quando já há metástases, o objetivo passa a ser manter a doença sob controle, com a melhor qualidade de vida possível. O tratamento é escolhido conforme o resultado da análise molecular e do PD-L1, e pode ser um medicamento dirigido à alteração encontrada, a imunoterapia ou a quimioterapia, estas duas muitas vezes juntas.
Se o resultado das análises do seu tumor chegou e você quer entender o que ele muda no tratamento, posso avaliar o caso e conduzir o tratamento com você.
Este texto tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação individual de cada caso por um profissional de saúde.
Dr. Juliano Cé Coelho, médico oncologista · CRM-RS 34989 · RQE 29213 · Porto Alegre/RS
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